"Os Filhos da Europa - II "

  • Desafios para o Século XXI

    ©  Lúcia Costa Melo Simas .( 2011 )

 

 

 

 

                         

Sobreviver aos ventos

[  Árvore distorcida pela influência do vento "Norte". Av. Montevideu. Foz.  Porto 2010 . ]

© Levi Malho - Imagem digital

         


                                                                               

 

                                      

      “A Europa jaz, posta nos cotovelos:

    De Oriente a Ocidente jaz, fitando,

    E toldam-lhe românticos cabelos

    Olhos gregos, lembrando.

    O cotovelo esquerdo é recuado;

    O direito é em ângulo disposto.

    Aquele diz Itália onde é pousado;

    Este diz Inglaterra onde, afastado,

    A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

    Fita, com olhar esfíngico e fatal,

    O Ocidente, futuro do passado.”

 

 

 

"Astúcias da Razão"

 

    Esta é a Europa que Pessoa ideava no seu sonho do Quinto Império. Um império lusíada, só espiritual em que se sublimaria a alma do povo transfigurada e esparsa pelas sete partidas do mundo, pois “a minha pátria é a língua portuguesa”. 
   O rosto da Europa fita o longe e os olhos a verem muito para lá do horizonte, esses oceanos e as terras distante que descobriu e tornou cativas de uma civilização e ideais em que o progresso se instala no centro.
   A Europa é a grega que se veste de romana e se estende até Portugal e à Inglaterra a profetizar futuros que serão passados. Esta é a Europa, enigma dos mitos, das lendas, dos céus e dos destinos que rege movida por poderosas e inconscientes forças que não controla. No fundo, só ela sabe que o seu fim estava já no seu início, mas não o revelou a ninguém.
     Quando as revoluções começam nunca acabam como o previsto pelos rebeldes e os seus sonhos colocam-nos sempre, é já sabido, em risco de se tornarem reaccionários ao atingirem o poder. Daí que teremos como um ponto decisivo da mudança das mentalidades 1789, com a Revolução Francesa. O que insistimos sempre é que tal mudança só começou e ainda não vimos o espírito da revolução negar a obediência e realizar o repto de Kant: Sapere Aude!

     Mas nem o futuro da queda do Antigo Regime foi o derrube da Bastilha e depois da monarquia, nem o passado era apenas aquelas pessoas que actuavam sob o domínio da paixão, pela “astúcia da razão” servindo de meios para fins que desconheciam. Tal como afirmava Hegel
[i] (Reis, Alfredo, 1995), o interesse particular serve sem descortinar o Universal.

  “Esta massa imensa de desejos, de interesses e de actividades, constitui os instrumentos e os meios de que se serve o Espírito do Mundo para atingir os seus fim, elevá-lo à consciência e realizá-lo. (…) O que os povos e indivíduos procuram e obtêm na sua activa vitalidade é o seu próprio bem e ao mesmo tempo são meios e instrumentos de uma realidade mais elevada e vasta que realizam inconscientemente.
     Os antecedentes da Europa atravessam séculos e épocas. Vão até à Grécia ou bem mais longe. As consequências nem as podemos adivinhar pois esse enigmático processo não terminou. Aglutinaram-se na velha Europa filosofias, utopias, ciência e a era da razão. Também estão nesse cadinho imenso os três monoteísmos, Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, a fé num Deus único e o sentido de uma caminhada que não se repete. Agiganta-se como nó górdio das religiões a figura do patriarca Abraão e o mistério da sua fé. 
  O lema Liberdade, Igualdade, Fraternidade é de uma profundidade imensa para a condição humana e até se aplica aos Direitos dos Animais. Este lema é uma declaração traída mas que mesmo assim sempre tem vindo a crescer e a dar frutos de liberdade, muitas vezes, transformados em libertinagem ou em totalitarismos tal como a igualdade nunca chegou a existir amplamente. Quando à fraternidade isso ainda faz parte da utopia embora se possam sonhar que tantas Declarações de Direitos e a forças paradoxais da fé religiosa tenham, por muito absurdo que isso seja, impreterivelmente mudado as sociedades com luzes e sombras, sem certezas nem segurança. Só a esperança e as paixões parecem concretas e reais mas quanto se enganam os homens ao aplicar estes conhecimentos ao seu tempo! O hegelianismo está delineado na perfeição, mas o próprio Hegel se enredou no tempo e foi vítima da “astúcia da razão”no desenho histórico. 
   Sentimos, ao ler o modo entusiasmado como descreve a crise do seu tempo, a profunda ilusão que vivia o que observava em seu redor, enquanto a sua mente observava muito mais longe. Aquela não era a crise das crises, nem esta que vivemos com temor e intensidade. Continuamos a cumprir o Espírito dos povos mas tendo em vista o Espírito do Mundo e a sua realização. Patrioticamente, Hegel viu na sua nação um final que ele mesmo não podia aceitar para coerência do seu sistema.
   Podemos pensar de dois modos o “fim da História” na época em que estamos e um outro fim que será para onde as infinitas possibilidades nos conduzem movidas pela teia da razão, nas mãos dos homens seus instrumentos que ignoram que não podem ultrapassar o espírito do seu povo, como afirma Hegel “nem impedir que aconteça o que tem de acontecer”.
   Exemplifica-se isto pois o que nos parece ser uma grande mudança ou um grande feito histórico, uma mudança no rumo dos povos, muitas vezes nada mais é do que um pormenor diante de nova crise e nova evolução que surge. Paradoxalmente, Hegel não tinha razão e tinha-a na mente se não tentasse exemplificar no campo abstracto dos seus exemplos. Só no conceito de “concreto” que podemos segurar a espiral da História mas não tece-la ou prende-la pois, progride muito antes de nós e a sua marcha continuará sem nós. Por isso, Hegel tem razão como filósofo, mas é um historiador que, tal como todos os outros, tem a sua época e não resiste à marcha impiedosa da História.
   O importante em Hegel é a profunda capacidade de ver como a História do Espírito é a História da realidade e o progresso o motor da História Ocidental. Será assim que se desenha a verdadeira caminhada da Humanidade numa única História Universal.
    Uma tal concepção levou muitos séculos a surgir bem como a noção de progresso, a noção de liberdade e uma certa consciência da natureza humana num nó górdio inextrincável entre o genético e o cultural. 

 

 

                               Filhos que partem

 

    O mal-estar crescente na sociedade da Inglaterra no século XVII, por causa das perseguições religiosas, transformara-se vivamente em desejo de libertação a qualquer preço. A emigração dos ingleses para o novo continente teve muito a ver com o sonho de encontrar um país livre, depois das utopias que se multiplicavam.
    De Thomas Morus (1478-1535), o grande humanista que escreveu “A Utopia”, a Francis Bacon, político, filósofo e alquimista com seus “Ensaios” (1561- 1626) até Defoe, 1660-1731) célebre pelo seu romance “Robinson Crusoe”  ou o polémico Jonathan Swift (1667–1745) e as fantásticas “Viagens de Gulliver”, em todas essas obras as utopias tomavam um rumo optimista que no século XX tornariam uma orientação completamente oposta bem pessimista e carregada de medos e dúvidas quanto ao futuro.   
   Começar uma vida nova, livre e sem opressões levou ao sonho de encontrar um lugar onde as famílias praticariam a sua religião e o seu modo de vida, sem medo nem sofrer tirânicas perseguições.
   São grupos de diversas formas do cristianismo, calvinistas e luteranos entre outros os que partem. Apesar dos riscos e tremendos perigos de uma viagem assim, muitos foram os que tiveram coragem de partir arriscando a vida na temeridade do seu sonho. Traziam em comum uma religião que encontrava no trabalho uma manifestação do seu zelo religioso, condenavam a preguiça e o relaxamento dos costumes. A sua honestidade e vontade de trabalhar ultrapassavam os perigos e dificuldades encontrados no novo mundo.
   Os Puritanos, ou Peregrinos do navio “Mayflower” (1620) depois de bem atribulada viagem chegaram com um ideal e um sonho para terras desconhecidas, mas o modelo era bem o europeu idealizado, que iriam construir. Para mais, a Bíblia era o seu livro com uma visão prática na sua leitura, por isso todos deviam ser alfabetizados e educados para realizar uma Missão grandiosa. A sua mentalidade era profundamente devota e austera considerando-se os cristãos protestantes, um pouco como Moisés e os hebreus saindo para a Terra Prometida.
    Depois da já lendária chegada a Plymouth, esta foi a primeira cidade que surgiu do seu denodado esforço
    Assim se entende o seu trabalho e o seu afã em moldar as terras e os espíritos, nos tempos iniciais de colonização no Novo Mundo.
   A Bíblia incitava-os ao trabalho com todas as características de método, severidade de costumes e do sentido empírico e prático dos ingleses no labor que empreendiam.
    O fenómeno da religião e da sua ligação ao capitalismo terá aqui uma forma contraditória que Weber não deixou analisar no que se refere às práticas e formas de vida dos Puritanos e Calvinistas.

   Seguindo a doutrina da predestinação que nega o livre arbítrio e o dom da Graça, só alguns são escolhidos. Deste modo, aqueles que são bem sucedidos no trabalho, que é um dever cristão levado muito a sério, demonstram que Deus os olha com benevolência. Deste modo, a riqueza não é procurada como finalidade na vida, mas a convicção de que o Senhor olhava para os seus filhos com bondade, dava-lhes a crença em terem sido escolhidos. Então, ser bem sucedido era sinal de sucesso aos olhos do Senhor. O paradoxo está em louvarem o trabalho e o êxito e as famílias desprezarem o luxo e a ostentação, considerados como obra do Diabo. Praticavam uma vida de ascetismo e de desapego dos bens materiais que é uma contradição face ao que com este modo moderado e poupado de vida e trabalho afincado, podiam amealhar e reunir como riquezas. Por isso o sociólogo Max Weber relacionou a religião e o capitalismo, tese algo contestada
[ii], que nem todos os pensadores aceitam mas tem muito de pragmático. É de salientar que a Igreja, nas suas prédicas e exortações se dirigia aos ricos e os incitava a darem aos pobres. Deste modo, os mendigos e pobres eram aquele que o Senhor não via com agrado, mereciam também desprezo pela sua miséria atribuída à sua preguiça e aos seus vícios. Por serem pessoas de natureza pecadora e sem brio, era aos seus pecados e incúria que se atribuía o seu estado. Eram pecadores, tal como os que ostentavam o condenável luxo. A própria Igreja apelava para a caridade dos ricos pois dar aos pobres era uma das formas de ganhar melhor as graças de Deus e a certeza do seu lugar na Eternidade. Por isso, a pesada carga de misérias dos pobres na terra devia ser apoiada pelos ricos e estes ganhariam o céu com a sua caridade e generosidade para os desfavorecidos. A Igreja desejava que os ricos auxiliassem os pobres, sujeitos às misérias morais e físicas pois eles assim contribuiriam para o bem comum. As prédicas e homilias da época salientavam a figura do bondoso doador rico que ganhava mais graças dos Céus com o seu contributo na terra. A dádiva ao pobre era para o rico uma porta do Céu que se lhe abria. Não admira que até aparecessem os “mendigos profissionais” que já formavam grupos na Idade Média e sempre prontos a aparecer em locais estratégicos. Na literatura da época, são muitos e constantes os exemplos desta ideologia em que o rico é elogiado por dar e o pobre ou mendigo uma pessoa sem carácter ou dada a vícios e à preguiça. O pobre rouba para não trabalhar e não se pensa que como não tem trabalho é que rouba! O pobre trabalhador é uma excepção que nessa forma de pensar quando labuta passa a fazer parte dos eleitos e fica sob a protecção divina.

   É ainda hoje um pensamento correcto elogiar o benemérito generoso e não falar do pobre que recebe. Porém a pobreza vista deste modo não era só negatividade. Era uma necessidade de equilíbrio. Se sofressem neste mundo com resignação o céu também podia abrir-lhes as suas portas.
   Foi no Novo Mundo que o trabalho honesto ganhou uma tal dignidade que até se estendeu às mulheres, muito antes do que na Europa.
   A apologia do trabalho estava de acordo com a forte motivação da ideologia religiosa de erguer uma nação forte e de gente exemplar. Recordemos como foi famoso o escritor, inventor, diplomata e patriótico Benjamim Franklin que mereceu ser uma figura modelar para os americanos.
  As leituras dos ensaios de Ralph Emerson, influenciado por pensadores europeus paradigmáticos, o matemático e filósofo francês, Blaise Pascal, o inovador do género do ensaio, Montaigne e Goethe o poeta alemão por excelência, transportaram para a mentalidade americana os valores mais elevados que o povo assimilou juntamente com o amor à terra, ao lar, dignificando cada ser humano. O espírito e o coração criaram uma crença optimista no seu progresso e na Humanidade.
    As sombras existem também nessa nova sociedade que não entendia os nativos, os índios que consideravam a terra, tal como o ar ou a água, um bem de todos e nunca com alguns papéis essa posse podia ser exclusiva de alguém. Mais do que as lutas foram os micróbios e as doenças que traziam da Europa o que veio a dizimar os índios de uma impiedosa forma.
    Os factos são aterradores se atendermos às vidas ceifadas. Os colonos do grande continente americano mostram mais uma vez uma face obscura das transformações que chegaram até nós.
    Os valores que os recém-chegados defendiam coadunam-se com uma nação jovem que recebe dos “pais” lições que se enraízam e lhe dão personalidade peculiar. Com tudo isto, a fonte donde beberam é inegavelmente europeia.

 

 

 

                                   O risco do confronto

 

    O mundo foi sempre um sítio arriscado para habitar. Mas não há outro para nós. Desde sempre a vida e a morte foram temidas ou desejadas em nome de ideais, fanatismos, ciência, arte ou ânsia de saber... Todavia quando Ulrich Beck pode escrever uma obra intitulada “A Sociedade do Risco” é porque algo de novo acontece que nunca antes se tinha sonhado.
  O progresso avança e nega cinicamente a fome e a miséria, as guerras sangrentas, as pilhagens, todos os desastres naturais que sempre nos surpreendem. Cada desastre ou calamidade são vistos diferentemente bem mais de acordo com a proximidade do que a realidade histórica. Reflectimos sobre a desaparição de fronteiras naturais e inegável homogeneização de gostos e estilos de vida que parece cobrir o planeta e toda uma nova forma de pensar e de agir em que nos vemos forçados a mover, sem qualquer alternativa ou possibilidade de negar.
    O grito de fé “Alá é Grande!", dos islâmicos rebenta cada vez mais alto, o brado rebelde e resignado de Job soa dos confins dos tempos, com a sageza de entender que “Deus mo deu, Deus mo tirou, glória a Deus”, ou ainda o símbolo do Mistério “Eles não sabem o que fazem” da bondade infinita da mensagem cristã, dividem e unem muitos milhões de crentes. É com a luz e sombra dos três monoteísmos, que a Europa se formou. A sua origem comum encontra-se no patriarca Abraão e o grande mistério do pai da fé que une e divide as três religiões.
   Causam tanto Bem e tanto Mal, que levam a pensar na unidade no seio da diversidade e das mudanças destes séculos que conduzem a caminhos cada vez mais partilhados ou irredutíveis nas suas posições!
   Fica sem sentido afastar a Turquia da Europa por razões religiosas e ao que nos é dado ver também não podemos aceitar razões culturais e políticas. Curiosamente o São Nicolau, que depois se tornou no Pai Natal, era um bispo cristão turco. No passado, tal como no presente, as fronteiras não podem ser traçadas nos mapas quando grandes comunidades religiosas como o cristianismo ou o islamismo são uma prova da desterritoralidade. Se temos contrastes na nova Turquia, há também provas da sua ocidentalização e aceitamos a sua especificidade nos quatro cantos europeus, sem que se quebre a unidade de valores que estão além dessas causas de exclusão.

    Já antes, a conquista da China, em 1279, pelo imperador mongol Kublai Khan, neto de grande Imperador Gengis Khan, que massacrara populações inteiras na Pérsia e no Afeganistão, levou cerca de quinze anos e segundo Aydon,
[iii]os seus anos de conquista tinham (…) espalhado a devastação e causado a morte de, talvez, 30 milhões de pessoas”, e a isto pode juntar-se as epidemias que assolaram tanto a Europa como a Ásia e também na China a peste em 1331 possivelmente dizimou uns 20 milhões de chineses e as grandes caravanas “do comércio da rota da seda, ofereciam uma viagem confortável às pulgas que levavam a peste”  e depois os soldados tártaros mortos no cerco de Caffa na Crimeia que era uma colónia de Génova em 1338 foram o foco da peste que depois chegou à Europa. Acabado o cerco os sitiantes retiraram-se mas os cadáveres ficaram e contaminaram os habitantes da cidade. Devem ter sido os barcos genoveses que de regresso trouxeram a peste que assolou toda a Europa e reduziu espantosamente a população. Aydon (2010) refere que as vítimas devem ter rondado mais ou menos 78 milhões de almas.

    Perdem-se no tempo as pandemias e as guerras ferozes que ao lado dos cataclismos têm dado à História da Humanidade um lado tão sombrio que, muitas vezes, se esquece esse passado como se a crueldade e o sofrimento fossem provações apenas recentes. Espantamo-nos com Auchwitz e temos horror de um passado tão próximo. Todavia como é possível esquecer os milhões que morreram por capricho de um Mao ainda mais próximo?
   O sofrimento inenarrável da penosa condição humana acompanha-nos e é a nossa sombra a mostrar a vida sempre suspensa pelos mais frágeis fios e tão efémera como um sopro de brisa. Isso traduz-se, cada vez mais, na noção da incerteza constante num relativismo do Ocidente em forte contraste com a oposição fundamentalista do Oriente.
     Os fundamentalismos religiosos não podem ser vistos sem receios sejam de que religião for. É cruel e inquietante, viver com fronteiras de ódio, de incompreensão e sem aceitação de diálogo.

   Giddens
[iv] (2001, p. 21) demonstra um pessimismo que se coaduna com as vivências que os viajantes e os meios de comunicação nos transmitem quanto ao islamismo. É necessário, segundo ele, “que olhemos o fundamentalismo como um problema. Arrasta consigo a possibilidade da violência, é inimigo dos valores cosmopolitas”. A “charia” (lei islâmica) atinge, em alguns casos, um tal fanatismo que se alastra por muitos países com crescente força nem sempre bem visível deste lado de cá. Exemplo disso está a educação profundamente religiosa para substituir a educação cívica ou política, a recusa da democracia, o retrocesso à tradição e ódio ao mundo moderno, a tudo o que representa e a desigualdade do género, um dos mais horríveis tormentos para as mulheres.

   O modelo do Irão, que alguns dizem não ter muita força, mostra, ainda assim, aspectos do seu entusiasmo e expansão. Apesar dos radicalismos, a liberdade e os males do Ocidente contaminam parte dessa juventude, pela adaptação de estilos de vida paradoxais face à ortodoxia e crescimento de fantásticas cidades ocidentais, cenários de contradições bem perto de serem explosivas.
   O revivalismo islâmico, sendo uma religião, não tem fronteiras e aumenta em todo o mundo, se bem que com divergências face aos ocidentais e modo de perspectivar a modernização. Até onde irá a sua resistência a um movimento global das democracias e da globalização, quando cada vez mais estamos a ficar todos vizinhos uns dos outros?
 O seu código rígido e a teocracia é um modelo aceite com resistências pela centralização da lei islâmica nos preceitos da religião. Entre os radicais, os pragmáticos e os conservadores são estes os que se têm mantido no poder e não estão em muito larga escala. Por exemplo, os radicais, sem terem ainda chegado ao poder, pensam num governo sem que sem separação entre a política e a religião, pois o seu fundamentalismo está no Corão, rejeitam a ocidentalização, a democracia, a ideia de liberdade, a emancipação da mulher. Os direitos humanos não têm uma expressão similar ao Ocidente e assim os fuzilamentos de homossexuais, adúlteros e todos os que não sigam a doutrina islâmica levada à letra o que conduz a uma série de desigualdades e conflitos.
    No caso das mulheres, é flagrante o retrocesso e toda a falta de dignidade que mostram de forma cruel e aterradora. Sem lhes atribuir os mesmos direitos que os homens, os exemplos da sua desigualdade surgem no quotidiano, desde o facto de serem transportadas nos porta-bagagens dos automóveis, a não poderem ser assistidas nos Hospitais e até ao risco de atravessarem uma rua mesmo na passadeira pois, no seu caso, os carros não param como para os homens.
   Exibem uma mentalidade que pode ter nas mãos as mais sofisticadas armas de guerra, usar as tecnologias avançadas, mas rejeita e odeia a diabólica cultura ocidental, a sua liberdade e igualdade do género. 

  É ainda Giddens
[v] (2001, p.18) quem afirma que “O século XXI será o campo de batalha em que o fundamentalismo se vai defrontar com a tolerância cosmopolita” A globalização põe-nos frente a frente com todos os outros, mesmo aqueles que pensam e vivem de forma diferente. “Se por um lado os cosmopolitas louvam e adoptam esta complexidade cultural, os fundamentalistas consideram-na perturbadora e perigosa. Quer se trate de religião, da identidade étnica ou de nacionalismo, refugiam-se numa tradição renovada e purificada. e, quantas vezes. também na violência.

    Entretanto, o Ocidente parece mostrar uma enorme tolerância permissividade e passividade ambígua, se não chega até a ser pusilanimidade com os muçulmanos que são bem acolhidos e vêm viver para esta civilização. Este Ocidente que ajuda a alastrar a globalização numa velocidade impressionante, com todas as suas complexidades e duvidoso entendimento, encontra um forte obstáculo e incompreensão no fundamentalismo que se opõe feroz e brutalmente a essa concepção da condição humana, à igualdade dos géneros, à separação dos poderes e a uma série de liberdades que gozamos sem nos darmos conta da sua preciosidade.
    O progresso e a falta de limites sem a liberdade, ainda assim, mostram evidências de uma mudança que mina o etnocentrismo e todas as suas intransigentes tradições. Por toda a parte, muitos dos povos que se considerariam longe do que se diz “civilização” vivem de sobras e nas orlas dela.
   Desde as armas mortíferas que lhes caem nas mãos, aos inevitáveis sacos plásticos, sandálias e outros objectos, ninguém, povo ou remota tribo nos confins do planeta, da Amazónia aos Urus lacustres do Peru, dos esquimós aos grupos nómadas do deserto africano ou asiático, parecem escapar aos insidiosos efeitos desta imparável alteração global do planeta. 
      A Revolução Francesa de 1789 é um marco e uma encruzilhada de mil direcções que trazia um lema a anunciar uma nova ordem e muita paz que nunca se cumpriu e muito se discute. Da liberdade teremos visto provas com bons e maus resultados, a igualdade levou a crimes tenebrosos e a fraternidade jamais foi levada a sério até agora, por nenhuma revolução política ou de outra ordem, mesmo as religiosas.
   As promessas dessa revolução ainda estão a produzir flores e frutos e muitas sombras caem sobre as motivações que não se concretizaram. A nova ordem estabelecida abandonava a transcendência e procurava criar uma organização puramente racional e humana. Mal começara a Revolução, logo o sangue inocente jorrou em nome da Justiça e da Liberdade. Depois o sonho levantou voo com Napoleão, mas logo foi derrubado com um Bonaparte imperador e um poder que enlouquece sempre. Invertem-se e atraiçoam-se os belos ideais ainda em botão e gelo de ruínas e de decepção percorre toda a Europa com a mágoa dos idealistas, artistas e intelectuais como Hegel que dele tanto esperavam.

    Arrebatado, o filósofo assistira em Iena à chegada de Napoleão e encantado comentara: (Reis Alfredo, 1995)
[vi]Eu vi o Imperador. A Alma do Mundo cavalgando na cidade… Foi uma impressão maravilhosa, Ver, aqui mesmo, num ponto determinado, ver este personagem (…) Só um homem extraordinário podia fazer um tal progresso” Mas o seu despotismo, a ditadura e a continuidade das guerras derrubaram-lhe o poder ensombrado pelo mar de sangue que deixou à sua volta e as mudanças forçadas que obrigou até povos distantes como o México a aceitar as suas imposições e um rei estrangeiro.

  Dos escombros de um utópico império surgem os nacionalismos ainda em nome da liberdade e nova ordem se anuncia.
  O século XX foi o século do desenvolvimento das democracias e, embora com aspectos bem sombrios, a liberdade e muito maior para muito mais povos do que em qualquer época anterior. Como sempre, o erro dos grandes homens da História é confundir as suas finalidades com a nova etapa de que são apenas um instrumento da “astúcia da razão”. Servem as suas paixões e a História continua e não se compadece deles nem de nenhum povo. 
   O século XXI anuncia um novo paradigma com mais riscos, contingências, fundamentalismos mas também mais consciências despertas para a corrupção, o ambiente, a destruição do planeta, mais cientistas, letrados e conhecimentos como nunca houve.
   O futuro é algo de que não se pode ter qualquer perspectiva quando tantas variáveis e contingências, possibilidades e problemas de imensa complexidade se abrem a tantos povos.
   Apesar de todo o bem-estar e desenvolvimento, nunca o medo aumentou tanto e a insegurança é crescente, as vítimas são os culpados, a pressa não evita o atraso, a tolerância não protege da violência. As novas gerações enfrentarão mais um desafio, mais escolhas do que todas as outras e todos os ses estão em aberto!

 


 NOTAS


 

[i] Reis, Alfredo, Filosofia, Kant, Hegel Kierkegaard. Edição Contraponto, Lisboa, 1995, cit. Hegel, La raison dans l´Histoire, Edição Plon, Paris,1965.

[ii] Weber, Max, Sociologia, 1976, p181-182.

[iii] Aydon, Cyril, Breve Humanidade, Edição Gradiva, Colecção Trajectos História, Lisboa, 2010, pp 211-214,

[iv] Giddens, Anthony, O Mundo na Era da Globalização, Editorial Presença, 3ª edição, Lisboa, 2001

[v] Idem, Ibidem, p. 18

[vi] Reis, Alfredo, Idem.