"Antero. Operário em Paris" 

  •  Um "Teatro " de Ilusões.

 

    ©  Lúcia Costa Melo Simas ( 2018 )

 

 

 

 

 

 

 

" Reino das Ilusões"

" Folhas que crescem, em dia de chuva. Jardim Botânico do Campo Alegre. Porto. 2016 "

  © Levi Malho.

 


    

 

 

Na turbulência de tantos acontecimentos decisivos para o seu futuro, com visível dispersão de interesses, sem esquecer os possíveis sentimentos amorosos, Antero talvez nem desse conta do seu “estado de graça”. Consideraria natural a admiração que as publicações dos seus poemas e também o facto de regressar com o curso concluído.

      Não fora um “urso”, alcunha atribuída pelos “cábulas” aos estudantes que levavam a sério as aulas e exames. Nem sempre tivera um comportamento louvável, pois até a fama de boémio que atingia o seu tio Filipe não deixava Antero atrás.

     Muito mais tarde, com a desculpa da frase “não me envergonho de ter sido moço” deixava para trás muito desacato, desordens públicas, cenas degradantes e até uns dias de cadeia. Como advogado casuístico até aos mais ínfimos pormenores, o grande biógrafo anteriano, (Tavares Carreiro p.149 e seg. Vol. I) surge sempre em sua defesa, contra as opiniões de Teófilo Braga rejeitadas com rigor, ajudado pelos encómios de Oliveira Martins que só depois da fase coimbrã se tornou amigo de Antero. Depois dos trabalhos de engenharia foi um prolixo antropologista, historiador e crítico literário. Com o tempo as as suas obras envelheceram e,  em termos de investigação, nunca tiveram qualidade. A amizade de Antero, a sua forte faceta socialista e ambições políticas é que ainda não o tornaram totalmente esquecido.

 

 

 

O mais famoso biógrafo de Antero de Quental, José Bruno Tavares Carreiro. (1880-1957) A sua obra é de referência obrigatória para conhecer vida e obra do poeta pela dedicação e minúcia dos seus “Subsídios para a vida e obra de Antero do Quental”

 

     Os adjetivos laudatórios caem sempre sobre Antero, enquanto as opiniões de muitos outros são desprezadas e desmentidas com estranha sanha, sem grandes argumentos diante da disparidade de modelos de vida estudantil.

      Tavares Carreiro usa uma prosa exuberante em considerações emocionais e arrebatamentos que enfraquecem qualquer leitura atenta, ou de quem não consulte outros autores não influenciados por ele.  

 

     Já com os seus parcos recursos, Teófilo, o autor de “Tempestades sonoras” teve dificuldades em abandonar a ilha e socorria-se dos lucros com as cópias das sebentas dos alunos mais atrasados ou preguiçosos. Vivia bem perto de Antero, num quarto na casa alugada ao tio Filipe que também recebia de renda mais alunos devido aos seus próprios embaraços económicos.

      Os bens do morgadio dos Quentais pertenciam ao pai de Antero. Só mais tarde, por um gesto grande generosidade de André, o primogénito, este acabou com o morgadio e dividiu os bens por todos os seus irmãos e irmãs. A possibilidade de se tornar operário em Paris dependeu em parte desse gesto que libertou Antero de mesadas. Dizia ele que dava um outro significado à sua terra ao senti-la sob os pés.

     Com o tempo, Castilho tornara-se no mais insigne literato lisboeta, e profetizava Teófilo, Antero e Vieira de Castro (1837-1872)  como as maiores promessas da literatura coimbrã.  O polémico Vieira de Castro teve um percurso brilhante e funesto e as belas profecias de Castilho acerca deste rico e poderoso político frustraram-se todas.

 

 

 

 

 

Vieira de Castro, amigo de Antero. Teófilo e Camilo, poeta, político, ambicioso até às estrelas. A bela esposa Claudina, 21 anos, filha de um dos mais riquíssimos capitalistas e diretor do Banco do Brasil. Acabou condenado pelo assassinato da esposa, a sua vida serviu de fundo para a obra “A Tragédia das Rua das Flores” e para novelas de Camilo

 

 

     À sua desregrada vida estudantil seguira-se uma assombrosa ascensão social que levava a esquecer o passado. Enquanto Antero seguia outros rumos, Camilo continuou amigo deste jurista e promessa poética fracassada. O autor de “Amor de Perdição” inspirou-se em Vieira de Castro para diversas novelas pois a sua vida foi extremamente acidentada e fértil em peripécias. Até Tavares Carreiro o menciona quanto à vida estudantil de Antero e em que este se incompatibilizou com Vieira de Castro. A sensibilidade de um era tão contrária à do outro que Antero escreveu um poema, em defesa de uma pobre mulher “Ermelinda”.  

     A sorte que brilhara intensamente durou pouco. Com o homicídio, por alegados ciúmes da bela esposa Claudina, de 21 anos, uma das maiores herdeiras que trouxera do Brasil, Vieira de Castro, que pertencia a famílias muito distintas, perdia a fortuna mal adquirida, o nome e todo o prestígio alcançado.  Após um julgamento, que se tornou célebre, veio a queda seguida da morte no degredo em Angola.

 

     Raras pessoas que se aperceberam das consequências da sua radiosa ascensão, ou da perda do prestígio pela decepção pública que demonstraram. Naquela “hora de graça” o público entusiasma-se e exalta alguém que cumpra um destino para além de todas as espectativas que se possam esperar. É um sentimento de realização da ambição geral.

     Napoleão, já no exílio, confessava que só então se apercebia das vezes em que não passara de um mero joguete do acaso e não fora somente o mérito ou a imperícia que conduziram o seu Destino, mas a Providência. Raramente alguém se apercebe, quando passa por uma época dourada da vida, como a adulação e agrado aparecem por todo o lado. Porém  tal situação é instável e depende da sorte.

     Quando um General entrava triufantemente em Roma, no meio dos aplasusos da multidão, um escravo, ao seu lado na quadriga, murmurava-lhe sempre_

 

      ----- Memento mori !

 

 

 

 

No momento da glória recordavam ao vencedor: LEMBRA TE QUE ÉS MORTAL

 

 

     O regresso de Antero rodeava-o de espectativas e esperanças do que seria a sua vida.

Trazia recordações que o tornavam minimamente conhecido de todos. Entrara em vários acontecimentos, revoltas e lutas estudantis, por vezes com a conquista fácil de sucesso, pela eloquência da sua palavra, como aquando da homenagem prestada a Castilho. Noutro acaso, sem que nada fizesse prever, tudo se conjurou num êxito pessoal. Alguns colegas escolheram-no e prepararam-no para representar a Academia de Estudantes na solene Saudação ao Príncipe Humberto da Itália. Sem consciência da importância daquele papel, do qual mal se deu conta, ficava conhecido por todos.

      Com uma saudação carregada de desrespeito e ironias, aturdiu a embaixada italiana e siderou os presentes. De outra feita, mais consciente do seu valor, sentiu-se arrebatado pela insurreição da Academia e espantou os amigos pois raramente falava em público. Sem qualquer preparação viu-se à frente da Rolinada e chefe dos revoltosos contra o Reitor. A causa de tal rebelião não tinha grande cabimento pois se tratava apenas de uma reprovação de alunos.

Percebe-se facilmente que os êxitos obtidos tornaram-no conhecido, mas apenas íntimo de um grupo reservado de amigos. O seu condiscípulo Abreu de Gouveia registou a falta de popularidade de Antero.

 

 

 

 

Em  “Os Maias” as figuras são satiricamente moldadas a partir do real como Carlos da Maia ou o Ega, o alter ego de Eça.

 

 

 

     “Nem como poeta, nem como filósofo”  a realidade da vida em Coimbra foi outra. O grande prestígio intelectual tornou-o mais num símbolo do que numa realidade e, além de sabemos que convivia com poucos, havia uma reserva, uma timidez em abordar quem mal conhecia e afastava-se da maior parte dos colegas.

     Na obra “In Memoriam” revemos um Antero mítico, enaltecido e lendário especialmente pela beleza da prosa dos testemunhos que, com saudade, recordavam o que, para quase todos, fora uma fase mágica da vida. Assim se reveste do imaginário tanto Coimbra como o poeta. O texto que Eça nessa altura escreveu ficou célebre e tornou Antero um grande mito.

 

     Ao chegar a Coimbra aos 16 anos, Eça maravilha-se com o meio e encantou-se por Antero. A força do seu entusiasmo adolescente lançou a lenda de um Antero cuja notoriedade real nunca se realizou como descreveu. Transfigura-o em beleza ” sob o manto da fantasia” e foi o inspirador da existência de Carlos Fradique Mendes e ainda melhor se revela em Carlos da Maia, mistificações de um Antero que lhe serve de modelo.

     Em  “Os Maias” o próprio Eça se transforma num Ega, sua própria caricatura  com um óculo crítico sobre Lisboa com toda a decadência muito exagerada e do fim do século. É provável que, sem que o queira, retirando-lhe o sentido humorístico, há uma crítica moralista implacável para com todos. Eça, nessa altura distanciado da vida de Antero, transformou a experiência operária numa longa e idílica viagem pela Europa de Carlos da Maia e o regresso num caudal de projectos de toda a ordem.

     A realização da sua missão social e dos projetos que a experiência de proletário o obrigou a ver com mais lucidez, como a todos os espíritos mais profundos dessa época, tornou-o incapaz de concluir grandes sínteses. Queria escrever, reformar tudo, dedicar-se ao seu trabalho e, no meio desse desassossego, escreve e logo rejeita e destrói o seu projeto em que tanto empenho colocara “Programa de trabalhos para a Geração Nova”.

     Carlos da Maia, tal como Eça vê Antero, nunca chega a tomar a vida a sério e, ao abrir um consultório médico, torna-se diletante nas investigações, sem a tomar compromissos com a vida real.  A genial imaginação de Eça de Queirós transformou para sempre Antero em lenda para múltiplas gerações. Pela voz sensata do procurador de Afonso, há uma crítica mordaz a todos os estudantes que depois não cumpriram qualquer missão social.

 

     Os “Vencidos da vida” têm forte projeção hoje, mas não manifestaram da de proveitoso para o país, nenhum combate sério contra a decadência. O poeta e tradutor Tomasco Cannizzaro, (1838- 1921) com alto valor na literatura portuguesa ao traduzir Antero escrevia: “Como filósofo reproduz toda a evolução do seu século e pelo temperamento reflete e reúne a agitação do pensamento, a fase romântica e representando ainda a nova fase idealista até ao misticismo que atingia toda a Europa.”

 

 

 

 

 

 

Hoje figura esquecida, Cannizzaro foi famoso no seu tempo.

 

 

     Antero, por entre muitos desenganos, passa por duas fases instáveis. A entusiasmada fase estudantil em que dissipou talento e capacidades intelectuais e a segunda após a experiência em Paris. O entusiasmo de moço estudantil deu lugar à busca de um sentido para a razão da existência e do sentido final da civilização que longamente congeminada deu origem à última obra filosófica “Tendências gerais…”. 

     A última grande questão, a oposição da escola de Lisboa à de Coimbra ao tomar dimensões excessivas a que sentia não poder escusar-se, transtornou Antero. Faz ainda parte de um passado que deseja apagar porque o denegrira e ofendera ao ponto de nada lhe parecer suficiente para apagar as palavras de Ramalho Ortigão, apelidando-o de “fedelho de meses que nem jeito tinha de ser gente.”

 

 

 

 

 

 

Ramalho ao centro, à esquerda Antero e à direita Guerra Junqueiro

 

 

     Em carta escrita em Lisboa, entre tédio e quase desespero confessa o desejo de fugir para São Miguel, mas sentia os seus brios demasiado feridos. Foi muito duro para Antero ultrapassar esta crise. A teimosia em mostra a todos quanto era capaz é ocasionou o extravagante duelo, desenquadrado da realidade, apenas pela teimosia em não assumir qualquer culpa.

Se a questão “Bom senso e bom gosto”, no que lhe dizia respeito, o libertara de velhos fantasmas, o repto de um duelo, o regresso de espadachins e combates arrastara-o para um ridículo que recusava assumir. Atira as culpas a “este infame Portugal” e irrompe em injúrias à sociedade. Ao trazer de novo à memória as palavras já esquecidas fez com que o famoso debate, que causara uma mudança intelectual e de mentalidades, com aquele duelo tivesse um final, se não ridículo,  no mínimo, um incidente infeliz.

     Agora queria afastar-se, sentir em silêncio o que considerava “infâmias dita a seu respeito” condenar a sociedade balofa em plena desorganização”.

 

     Partiu para a ilha, antes de seguir para Paris como tipógrafo, não quis ver os amigos e só conseguiu escrever a António de Azevedo devido à incerteza em que se encontrava. É aí que, pela primeira vez, lemos o seu receio da loucura e considera a família como uma barreira que quebraria toda a vida antiga e tomasse parte ativa na sociedade. As suas afirmação acerca da família e casamento são teóricas, sem convicção, e sente-se a presença de Proudhon, para quem o Lar seria a transformação silogística da vida. Estabelecida uma família logo aí se fundamentava toda a política e a segurança do “status quo” social. Não estava distante do pensamento hegeliano e da noção de contrato institucional do casamento como uma etapa a cumprir pelo Espírito.

 

 

 

 

Nunca se apagou a visão crítica e sarcástica dessa Lisboa de Eça, o anti patriotismo só trouxe um pessimismo desolador.

 

 

     Verificamos que muito adiou e alongou o tempo das despedidas e a sua partida. Pressentia que se preparava para enfrentar a confusão e a massa operária sem que esta conseguisse ter mais consciência e interesses para além da sobrevivência dia após dias. Ainda se demora em São Miguel com vagos pretextos. Alega que magoaria a família se saísse mais cedo e assim este tempo de inatividade é de reflexão acerca da grande mudança. Trata-se de partir para um destino ditado pela sua compreensão de que as teorias que defendia tinham apenas um lado especulativo e lhe faltava a consciência da realidade.

     Ao tornar-se tipógrafo, entrava num mundo desconhecido, de gente humilde e rude, com uma brutalidade e culpas que não separava, mas antes unia na criminalidade e falta de escrúpulos. Assim Antero, no meio daquela multidão sem alma não descortinava princípios e o futuro desejava para qualquer fraternidade revelava-se teorias desadaptadas a uma realidade que nenhum dos seus teóricos preferidos conhecia.

     A noção de que, como revolucionário, alteraria toda a sociedade europeia partir do proletário em Paris humanizando-a e elevando-lhe o espírito fraternal eis o que a sua mente projectava e que a realidade contraditou.

 

      Despede-se dos familiares de Tomar e nas cartas a amigos há uma estranha ausência de conhecimentos actualizados ou referências às grandes políticas e sociais em França. Essa ignorância do real ambiente parisiense, das guerras e das novas facções contraditórias criadas após o grande conflito de 1846, levam-no a imaginar que conseguira uma ação prática de unir fraternalmente a multidão dos miseráveis trabalhadores que iria encontrar.

De longe e no seu fantástico imaginário tudo estava certo. Só que não contou, como depois descobriu, com a Europa ser uma Cartago sem Moloque, uma escravatura do trabalho moderno onde nem se fala de Justiça, mas numa distante revolução da qual sairia uma sociedade com ordem natural só surgiria após um cataclismo renovador.

(in artigo a Alberto Sampaio).

 

 

 

 

A Antiga Tipografia Nacional onde Antero trabalhou antes de partir para Paris.

 

 

     Partiu com a mente carregada de sonhos e de capacidades de vitórias do proletariado que se uniria e que aqueles seus poemas “À História” se cumpririam de modo tão grandioso como os seus versos prometiam.

     Bastou-lhe um mês de trabalho como operário para descobrir como errava. Não encontrou ideias, nem revoltas das mentes dos trabalhadores, não encontrou companheiros e camaradas com vontade de lutar, ninguém manifestava anseios de combate. Contrariando as teorias que conhecia, apenas se cruzava com desconhecidos, alheados de tudo, com o egoísmo dos sobreviventes, que só pensam no dia de amanhã. A submissão e o medo facilitam enormemente a exploração e o vício. Na noite em Paris e em plena primavera escreve versos como nunca compusera.

 

É outro o mundo ali! outra ideia! Outro ser! /O Bem, o Mal não têm o aspeto que usam ter… o vício é formosura – o vício é poesia - , /Parece a criação ter por lei a folia, / E sentidos e alma, tudo em confusão /Bramam: O Universo é feito de paixão/ (…)

 Se o Vício não basta/ no crime pode haver /Magia e atração e fonte de prazer”.

 (Versos; Carlos Fradique Mendes, Edição Textos breves)

 

     É a vertigem de um abismo mais lhe parece enlouquecer e aquela nova Civilização não passa de um mundo infernal que o arrasta numa vertigem que nunca sentira. Compara as mulheres “às flores do asfalto” que enfeitiçam e “endoidecem com o aroma acre do Vício”.

     A sonhada distinção entre os pobres explorados e os exploradores revelou-se vã. A vontade de sobreviver roubava qualquer sentimento altruísta, qualquer gesto de bondade ou sentido moral, tanto aos pobres como aos exploradores.

 

 

A sangrenta e fatal Comuna em Paris. A primeira revolução comunista

 

 

       Da revolta do proletariado em 1848 e no período de 1867 em que chega, houve um espaço de tensão e separação entre o que, de longe era La Belle Époque, com todo o seu fascinante progresso, e a multidão faminta e anónima que dará um lugar à Comuna de 1871.

     Ao cantar Baudelaire no dia do seu enterro, evoca o Mal, na sua máxima crueza. Parecia-lhe agora o símbolo de alguém capaz de descrever o criminoso, o horrível, o vício, sem qualquer sentimento. Baudelaire surge-lhe como um esqueleto impassível e horrível, apresenta uma civilização inteira que se veste impecavelmente mas, na realidade não passa de um oco verso onde só o Mal existe. Destes poemas, muito pouco citados, retira-se uma lição da elevação moral de Antero e do horror que aquela cidade corrupta e vil lhe provocou.    

 

     A grande viragem da vida de Antero deu-se neste abrupto contacto com realidades que jamais sonhara e não sente ânimo para continuar com os seus ideais utópicos. Só agora entende que havia um abismo entre as suas teses filosóficas e socialistas e a desoladora realidade dos pobres e sórdidos trabalhadores, mergulhados no mal e no crime.

     Não encontramos alusões à vida do operariado, mas mais à brutalidade, egoísmo feroz e vício que tudo anima. A animalidade  que encontra, o povo carregado de imperfeições horrendas e de crimes em que não há inocentes, eis o que Antero imaginara poder salvar, o que afinal nem pode pensar em regenerar.

Ao recordar a sua vida em Paris é fundamental ter em conta as suas próprias palavras que pretendem sintetizar tudo:

 

     “ Cinco meses de vida de operariado em Paris valem mais do que cinco anos de universidade em Coimbra.”

 

       Daí que a sua vida de proletário foi o desabar das suas ilusões e aceitação dos seus erros atingindo uma realidade fruto da descoberta interior e da incompatibilidade das teorias dos grandes mestres. Na luta pela subsistência os indivíduos não podem entender  idealismos e revoluções quando a sua sobrevivência do amanhã é que está em jogo.

     Antero regressa convicto de que a filosofia da História é escrita pela própria Humanidade, sem fraternidade nada se resolve e sem vontade do povo e do seu espírito nenhuma mudança é possível.

 

 

 

   Eça, por não ser filósofo e pelo seu espírito humorístico não captou as reais alterações que surgiam na França e se espalhariam pelo mundo

 

 

     O Antero que regressa depois da experiência de operário é outro. O abalo foi tão forte que perdeu as forças e adoeceu. Precisou de uns tempos de repouso e, por isso, foi para uma das quintas do Norte, do seu amigo Alberto Sampaio que generosamente o acolheu. O insucesso foi tão grande que nem quis regressar à ilha. Não queria ver ninguém, nem manifestava que tinha ainda algum projeto.

     Acrescentamos que não se tratava só de descansar, mas também de estabelecer nova coerência e um novo sentido entre as suas mais queridas ideias e teorias e repensar tudo de novo com os olhos abertos sobre a realidade do abismo que vira. Todo o seu vastíssimo conhecimento aprendido teoricamente foi posto à prova perante a dura realidade do que era a sociedade tal qual ele agora conseguia obter outra perspetiva bem mais real e profunda.

 

     As vicissitudes que se seguiram e a estada em Vila do Conde mudaram ainda mais o rumo que o destino lhe traçava. Costa Pimpão afirma peremptoriamente que cometeu um erro, aliás que os amigos reprovaram profundamente, ao retirar-se com as meninas que adoptara para Vila do Conde. (Enc. Luso. Brasi./Vol., 15).

     Na sua perspicácia mostra, Costa Pimpão, ao contrário de outros autores e críticos, que foi ainda uma fuga e uma forma de se afastar de qualquer luta por se sentir incapaz de compreender a sociedade e o mundo que o rodeava. É uma desistência de qualquer luta, depois da terrível realidade vivida. A sua lucidez diante da realidade mostrava que a Humanidade não tem protagonistas, nem se pode muar o rumo da história. A atividade política, o jornalismo, toda a vida intelectual era o que correspondia à sua índole e, com a estada em Vila do Conde nada disso acontece.   

     Antero, sob o disfarce de se chamar Bettencourt e ser um amigo do poeta, encontrou-se com o famoso Michelet, (1798-1874) para lhe dar a conhecer os seus versos.   Já muito idoso, mas perspicaz, Michelet não se deve ter iludido e compreendeu o subterfúgio. Ao obteve do autor de “A Bíblia da Humanidade” palavras entusiásticas embora um pouco vagas ficou cativado, mas não entendeu as preocupações em que o historiador se encontrava.

 

     Na realidade, o próprio filósofo francês via-se também a braços com as complexidades de entender a sua época e, com as mesmas preocupações de Renan, e enormes desafios em encontrar algum sentido para a Humanidade.

      Michelet apontou para aquele “meio dia”,  uma possibilidade de renovação intelectual atribuído a um possível grupo de poetas portugueses, mas não passava de uma ilusão acerca de uma continuidade impossível. 

 

 

 

O famoso historiador dessa época Jules Michelet (1798-1874)

 

       Nessa fatídica data trava-se a guerra franco prussiana e a sangrenta Comuna de Paris, onde os combates pela liberdade deixavam manchas sangrentas sem piedade contra o proletariado. Concretizava-se a luta aberta e o movimento político anterior da revolta do proletariado em 1848, esse que levara Marx a ser expulso da França e tirara Comte da sua cátedra. Antero chegava quando se anunciava tempos de  guerra civil e a infâmia de ter Guilherme II coroado em Versalhes.

 

 

 

 

O sucesso de Comte baseava-se em Ordem e Progresso e ambos os conceitos se contradizem na realidade. Foi em 1846 o ano da sua desgraça e a da K. Marx

 

 

     Antero viera a uma cidade onde pouco faltava para reinar a revolta, o caos e à população esfomeada estava à beira do desespero. Daí que a visão que trouxe foi tão amarga que o desanimou. As sombras do fim da Belle Époque agigantavam-se diante dos conflitos levantados por Comte e principalmente pelos seus continuadores. O progresso científico enganava as mentalidades optimistas, todavia a “Grande Guerra” já mostrava as garras e tudo iria destruir.

 

     É pena que o biógrafo mais famoso de Antero, J.B. Tavares Carreiro não explorasse essa transformação de um Antero que regressa, apesar de se demorar tão pouco, num outro homem que descobriu o Mundo e a realidade e nunca mais voltou a ser romântico ou verdadeiramente poético sem que essa poesia não fosse Voz da revolução. O véu da poesia é a forma de dar a conhecer as especulações e a Metafísica da época que então se voltava mais para o lirismo.

 

 

 

Aspetos otimistas da Belle Époque que escondem as sombras do futuro que muitos se negavam a ver. A futilidade e as ciências não mostravam a sua faceta perigosa.

 

 

      Só em 1870 a figura de Oliveira Martins aparece junto de Antero e a partir daí se torna seu amigo. A admiração e a adulação, que são inegáveis e bem visíveis, resultaram numa amizade em que a formação e as ideias partem de fundamentações e conhecimentos muito diferentes.

     Por vezes, Antero critica algumas especulações em especial em “Helenismo e Civilização cristã”, pois o poeta filósofo tem uma visão muito mais profunda e afasta-se do tratamento tradicional de Sócrates. Porém, não se inibe em usar textos de Oliveira Martins para as suas próprias especulações. A época de Vila do Conde esconde uma melancolia e renúncia que nada tem a ver com a serenidade que lhe apontam.

     Nessa situação o passado transfigura-se e as próprias recordações de Antero na sua Carta auto biográfica a Wilhelm Storck, ou as confidências  carregadas de saudades a Dona Carolina Michaelis de Vasconcelos embelezaram e criaram uma Coimbra que nunca existira senão na nostalgia da saudade.

 

     Um dos seus comentadores mais assertivos, António Sérgio, carregado com a sua veia racionalista, aparta Antero da sua metafísica que realmente nunca abandonou. Este crítico, então ainda muito jovem, caminhava por sendas que ele próprio mal controlava como as suas interpretações hegelianas de Antero, filósofo que António Sérgio mal conhecia A sua prosa dura e carregada de racionalismo não consegue uma proximidade com intuito metafísico do conhecimento que Antero manteve até à sua última obra.

     O dualismo que criou entre as noções de apolíneo e dionisíaco, é sergiano, com ciclos em que divide os poemas de “Sonetos”, encontram sérios obstáculos em se encontrar pois tais noções nunca se destrinçam por completo da escrita anteriana. Os conceitos gregos que Nietzsche retomou através Razão, em antítese com o apelo do abismo da desmesura da tragédia, são parte do milagroso equilíbrio cultural grego.

      Antero vê os riscos de uma antropologia filosófica na lição de Sócrates em que os valores estão prisioneiros da ignorância. Antero apercebeu-se da grandeza da filosofia pré socrática. Seja como prosador ou poeta, consegue conquistar a noção do Logos dos pré socráticos que se transmuda na descoberta suprema da liberdade na consciência do Bem.

     Após a longa influência de Proudhon, Antero aprofunda os intelectuais e artistas do círculo de Weimar e nota-se o seu interesse pela evolução e diversas perspectivas de a investigar. É assim que, ao dar atenção à Filosofia da Natureza apercebeu-se dos riscos que surgia do afastamento de uma nova filosofia dos naturalistas da sua época. Vislumbra com coerência a evolução  visível em tantos sonetos onde a Natureza e a sua nova forma de interpretar é já um tema hábil e profundamente tratado.

 

      O estoicismo, que Oliveira Martins lhe atribui, não se coaduna com a sua insistência numa poesia, ou nas suas prosas, que abandonam o passado. Encontramos um profundo interesse pelo futuro e da constante busca de novos caminhos. O estado de imobilidade não existe pois conduziria a uma ataraxia ou a uma atitude de aceitação passiva do sofrimento.

     Ora, depois de Paris, Antero continua a busca incessante, embora errante e dispersa, que demonstrou ter pelo “Santo Graal”, a Metafísica e a sua filosofia centrada na Verdade. ( J.B. Tavares Carreiro, pp.226-227) I vol.). A ilusão das Conferências do Casino exemplifica ainda uma tentativa de acordar os seus

      Durante o tempo que viveu, depois do regresso da experiência proletária, toda as tentativas filosóficas tomam um tom de grande seriedade e realismo. A busca de um projecto para a filosofia nos finais daquele seu século é pois já esboçada. Numa obra que destruiu, com grande desgosto dos amigos que conheciam o seu valor, tratou-se de “Programa para a geração nova” e, no sincretismo geral, aquelas eram as buscas e as especulações para encontrar uma síntese que contrariava a época. Outras tentativas de atividade política e social se seguiram e é o próprio ator de “Odes Modernas” que o afirma.

 

 

 

.).

 

De facto Antero é o arauto da Liberdade e ainda hoje não é esquecido pela veracidade da sua voz.

 

 

     Como filósofo Antero consegue conquistar a noção de “Ideia”, descoberta suprema da liberdade na consciência do Bem. Só veio a conhecer melhor o hegelianismo, após a influência dos seus dissidentes e então Antero apercebeu-se da crescente importância da filosofia dos naturalistas da sua época.

 O estoicismo que Oliveira Martins lhe atribui não se coaduna com a sua insistência numa escrita se não já na poesia, que se torna na única forma possível de revelação daquela nova filosofia, uma evolução convergente de ideias que, a priori, surgem muito díspares. A atitude de aceitação do sofrimento marcou aquela busca incessante que demonstrou ter pelo “Santo Graal” a Verdade, a sua única e última aspiração de uma finalidade ética que elevasse as consciências e lhes desse sentido sem o qual o socialismo de nada serviria. Por isso afirma:

 

 “Cegos! Não compreendem que as coisas da consciência não se pesam em grosseiras balanças…” (…)  Percebamos que no fundo sabe que é a qualidade que faz o valor e que uma só consciência recta e sã vale incomparavelmente mais do que milhões de consciências turbas, cobardes e envilecidas.” (Prosas, 1882.).

 

      Luta contra a sua natureza que diz conservadora, as incertezas das suas próprias forças, o medo de sucumbir e de se desprezar a si mesmo, levaram-no a nunca desistir da luta. In. Joel Serrão, 2002, Antero- Tendências…”.     “O Programa para  as gerações novas que destruiu, devem ter influenciado esse sem incompreendido trabalho, muito avançado para aquele tempo, “Tendências Gerais…

 

 

      O combate a que nos referimos é a dificuldade da organização do desenvolvimento de novos conhecimentos, com um progresso do próprio Antero, contrariando as afirmações do professor Joaquim de Carvalho, pois na sua mocidade não atingira a maturidade, nem alcançara a sua própria filosofia, aquela que o professor de Coimbra intenta ver mais real na sua poesia.

    A grande viragem dá-se com o confronto com a realidade. Daí quem volta é um outro Antero, abalado e doente, sem que se encontre cura para as suas diversas perturbações físicas, insónias, vómitos, abulia, cefaleias que cada vez se agravam mais. Pode remeter-se as grandes perturbações fisiológicas que foram piorando com o aumento da consciência das ilusões de uma nova humanidade e um dualismo entre as suas teorias e a dura realidade da civilização.

     O abalo entre o brilhante intelectual e poeta de talento face à vivência da horrível e dura realidade do operário, descobrindo a vileza do homem, o seu egoísmo e incapacidade de combater contra a sua própria situação de que ele é o maior culpado, alterou profundamente o poeta. Tardiamente Antero ainda tentou integrar no que se podia chamar a  “sua filosofia” o desenvolvimento das suas ideias, pois realmente a tinha.

 

      Os novos rumos das ciências, com as ameaçadoras descobertas da Natureza e das ciências foram a tragédia de tentar entender para onde caminha o pensamento humano. Viu que a Humanidade atingia já um conhecimento sincrético jamais visto, sem a possibilidade de organização de dados  que chegavam de todos os lados dos avanços das ciências tornava Antero num filósofo exasperado contra as suas próprias impossibilidades.

 

 

 

Alexander Humboldt, a partir daqui a História é também a Física da História. O mais famoso investigador alemão Autor de “Cosmos”

 

 

 A busca constante de novos conhecimentos está patente quando comenta, o então desconhecido investigador, Alexander Humboldt (1767-1876), com uma harmonia e unidade viva da Natureza e coloca-se ao seu lado para reparar como este criticava “aqueles naturalistas que pretendiam fazer química sem molhar a ponta dos dedos”. Utilizando causticamente essa observação e parafraseando o legendário naturalista, comentava:

 

 “ como são singulares estes filósofos, que, com os dedos mais do que ensopados em química, pretendem fazer filosofia sem nunca se terem dado ao trabalho de refletir.”

 Sant´Ana Dionísio in. “Testamento Filosófico” Notas.1945, p.48.

 

      Sabemos que escreveu um opúsculo sobre a filosofia da Natureza e apercebeu-se das investigações de  Schelling, Fichte, Goethe como cientista e da dificuldade cada vez maior criar uma síntese numa época em profunda mutação.  Milhares de séculos e de profundas modificações da mentalidade se passaram até o homem atingir a noção da sua dependência da Natureza e nunca esta do homem.

     Os novos rumos das ciências têm de assumir a dependência da Natureza numa sua harmonia viva onde tudo se reúne numa teia organizada do mais ínfimo pormenor até atingir no âmago uma relação perfeita. Antero já admitia que “apenas o fenómeno humano tenta adaptar o seu entendimento ao Cosmos e nunca o Cosmos ao seu entendimento.”

 

     Através da obra de Humboldt, muito mais tarde, Carl Sagan encontrou matéria para divulgar “Cosmos” para leitores e telespectadores, essa espantosa obra de investigação que foi um êxito enorme e a mais vendida na Europa na sua época em mais de 13 volumes. Já no nosso tempo, o filósofo Jean Guitton em diálogo com astrofísicos Igor e Grichka Bogdanoff, aponta para um meta realismo em que pode desembocar a unidade das ciências e da filosofia.

       Desaparecido o tempo e o espaço, como antes eram entendidos, vendo o cosmos, tal como os cientistas o desvendaram e constroem, temos um idealismo que se ignora e um espiritualismo que não se quer conhecer. Esse é o caminho que Antero, nos seus últimos escritos aponta, pois os cientistas têm de ultrapassar o seu enciclopedismo, além do saber, precisam de entender o cosmos e o sentido da existência humana. Já era essa a crítica que Antero insistia pois tudo está entre o saber e o entender.

      Revisitando o pensamento anteriano encontramos não só uma lúcida análise das novas facetas da sua época e o anúncio de uma revolução científica com um novo humanismo.

 

 

 

Além da Alquimia, da Teologia, da Metafísica a filosofia da Natureza é agora o nosso maior sonho e Antero intuiu os caminhos para lá chegar.

 

 

     Quando se aprofunda as questões colocadas em “Tendências…" entende-se como o seu sistema não podia ser explícito quando, naquela época as possibilidades realizar qualquer sistema tinha desaparecido.

     Antero está ainda muito longe de ser entendido pois  não podia apresentar nada mais organizado face a uma época de enorme sincretismo. A bela frase com que termina a sua incompreendida obra “Tendências…” demonstra que chegou até onde, talvez um dia, conseguiremos chegar: “ (…) … definir o espírito de uma civilização e torná-lo cônscio de si mesmo, é obra essencial da filosofia.”

 

     Antero cumpriu a sua missão. Caberá a cada geração tentar cumprir a sua.