"  Persistência dos Enigmas " 

  • Uma meditação sobre Razão e Intuição.

 

    ©  Lúcia Costa Melo Simas ( 2016 )

 

 

     

 

" Da Luz e das Sombras"

" Linhas cruzadas, sob Sol de Inverno. Esposende. 2013 "

  © Levi Malho.

 


     O fenómeno da intuição sempre nos fascinou. Olhar para alguém e pensar repentinamente que está a mentir, parece impossível, mas esta certeza fixa-se, contrariando todas as deduções e lógicas, que aceitamos de boa mente.
        Impossível! Isso não pode ser! Mas é uma evidência intelectual tão forte que nos custa a desviarmo-nos de tal ideia.   O que nos leva a negar tudo o que vemos e ouvimos com uma tal clareza que põe de parte todas as hesitações?    Encontrar um rosto conhecido, numa multidão desconhecida e anónima, quando se estava a pensar nele,  é um fenómeno fácil de acontecer. Mas ter a certeza, de que estamos no caminho certo, sem nunca lá ter estado, já leva a pensar que não é dedução, nem lógico.      O acaso, a coincidência e a intuição sempre foram temas para reflexão sobre pormenores do quotidiano e até sobre a vida e a morte.
    As aulas de psicologia que demos, demonstraram que há muito fenómeno para além da explicação lógica. Se a intuição se pode aperfeiçoar, então tinham razão os alunos, que nos temiam pois eram apanhados com rapidez a tentar copiar. Mas o tema é sempre tão subtil, há deduções quase instantâneas, certos gestos, ou olhares, que traem as intenções. A experiência e o substrato das perceções mínimas, muito para além fenomenologia estariam na origem desse facto. A fama de não se conseguir copiar nas nossas provas era corrente.
Os acontecimentos em que escapamos, de uma morte certa, são muitos e com enorme pasmo das pessoas que me rodeavam.
        Por certo, toda a gente também se pode recordar de acontecimentos desse tipo. Por que escolher este caminho e não aquele? Por que seguir este impulso inesperado que nem notáramos? Como é que descobrimos, sem qualquer esforço, no meio de tanto livro, numa grande livraria, o único livro que queríamos, sem o trabalho de o procurar?
     Por que é que se sabe que uma pessoa vai dizer uma frase, ou tomar um certo comportamento, sem que nada pudesse levar a deduzir tal facto? O assunto é intrigante e ao mesmo tempo, todos já experimentaram esse fenómeno. O psicólogo, que se interessasse seriamente sobre fenómenos destes, foi um dos fundadores da psicologia, Williams James (1842-1920). Com grande seriedade, abandonou o que pretendia ser estudo do paranormal, por temer iludir-se, ou não conseguir provar o que desejava. 
   “Só se encontra sem procurar, o que muito se procurou sem achar.” Isto revela que, a própria intuição mais fina, possa ser fruto de um apurado trabalho  dedutivo, que se coordena num determinado momento, num “flash” um raio de luz espiritual.   O trabalho intelectual pode explicar muito resultados, através dos múltiplos erros, que pomos de lado, até que a descoberta da evidência  brilha óbvia e repentinamente.

        Ah! Já percebi!

    O sábio, o defraudado, ou o enganado, sentem repentinamente que entenderam, e até são capazes de dizer, que se fez luz na sua mente. Nasceu uma repentina intuição?

         Por duas vezes, em épocas diferentes, sem quaisquer dados, ou lógica,
retirámo-nos, numa súbita reviravolta, de um local, onde uma onda gigantesca nos arrastaria para uma morte certa. Tudo se passou por tão escassíssimos milésimos de segundos, de tal modo que, os que presenciaram o acontecimento, ficaram sideradas e sem fala. Um e outro caso, tão semelhante, pareceram-nos naturais e, ao mesmo tempo, sem explicação.
A admiração das pessoas presentes foi enorme. Sem dúvida alguma, em qualquer dos casos, não aguentaríamos o embate. A queda seria fatal. As rochas das altas falécias, em que nos encontrávamos, nunca devolveriam a presa. Por causa de um inesperado atraso para um concerto, uma noite, numa rua do Porto, desatámos a correr à desfilada e, na calçada larga, escura e deserta, vimos apenas dois homens. Caminhavam, bem afastados um  do outro, sem que nada nos impedisse de correr  entre ambos, pela rua abaixo.  O que não era visível, nem nada provável, é que ambos transportavam um enorme vidro que ocupava todo o passeio.
         Num lampejo, de que nunca poderemos calcular a duração, a noção de um enorme perigo impediu o embate tremendo, dado o forte impulso que dificilmente consentiu que pararmos, repentinamente, sem saber porquê.
   O espanto e o susto dos homens igualaram-se ao nosso. Até hoje, não percebemos a causa de não ter acontecido um terrível acidente. Dedução de que aqueles homens estavam a proceder a uma ação inopinada e bem arriscada? O espanto e os gritos dos homens marcaram-nos, pois não percebemos, ou não conseguimos explicar o que aconteceu. Apenas a certeza que a asa da morte passara por nós.
     Ao passar por uma estreita rua citadina, com uma calçada quase inexistente, o motorista de uma camioneta não se desviou suficientemente de nós. O cobrador do autocarro, um pouco tarde demais, deu um aviso, em alto brado ao desastrado condutor. Apenas, uns ligeiros milímetros separaram a nossa cabeça de um choque fatal e sentimos a brisa na cabeça. A camioneta parou, tal foi o espanto da iminência do perigo, que este acontecimento provocou em todos nós. Por mero acaso, por intuição, ou coincidência, nada aconteceu? Aliás nunca passávamos por tal rua, nem nos preocupara a estreiteza do passeio.
        Mais intuitivo e inexplicável foi uma estranha manobra que fizemos, ao guiar o automóvel, como habitualmente, e sair repentina e deliberadamente da curva da faixa de rodagem onde passava quotidianamente.      Nesse mesmo momento, eis que surge no sentido oposto, um automóvel completamente fora de mão e desgovernado, que viria ao nosso  encontro e provocaria uma colisão  tremenda, se não tivéssemos saído da linha de rodagem, com aquele desvio. Um jovem amigo, que ia ao meu lado, não deixou de me perguntar, perplexo:

   ----Que é que lhe deu para se desviar da faixa de rodagem, nesse preciso momento?

     Rapidez de reflexos? Ou, em último caso, uma rara intuição de que algo incomum acontecia ali?   A sorte, o destino, o instinto vital, o acaso, ou uma intuição, que colocaria a consciência, fora do tempo e do espaço, são possíveis explicações. Colocamo-nos, num contexto muito diferente, nos casos em que se diz pressentimentos, ou premonições.  A intuição tem dados, pode ser que a sua elaboração seja pouco feliz, por não parecer coerente, mas tem algo de espiritual e de lógico, que a torna uma porta para a metafísica e uma saída para salvar a matemática de morder a sua cauda. Isto é, a tautologia de um raciocínio, que não salta para a indução sem uma intuição indispensável. Remetemo-nos para um passado, em que a nossa memória era ainda muito pobre, para nos situarmos à roda dos cinco anos. Sentados no chão, diante de um armário dos nossos brinquedos e, de repente, damos  pela descoberta de um fenómeno que não entendíamos.
 O nosso pensamento não nos obedecia. Apesar de todos os esforços, que tentávamos conseguir parar, percebemos que se movia contra a nossa vontade. Era impossível travar a sua constante corrida. A estupefação deixou-nos teimosamente a lutar contra a corrente e a surpreender um eu que assistia à sua própria fuga. É claro que tudo isto não passava de algo confuso, mas que demorou longos momentos. Recordamos que sentíamos pessoas a passar no corredor e continuávamos imóveis, nas nossas tentativas, sempre goradas.
    O pensamento fugia-nos e, percebíamos que, a perceção disso, não era o mesmo fenómeno.  Tudo o que recordámos é tão vivo e presente que não pode ter sido apenas por uns breves momentos. Devemos ter tentado, mesmo muito seriamente,  para além de simples jogo, essa busca da paragem da corrente dos pensamentos na consciência. Se guardamos tal memória, é que porque se destacou vivamente saber que o nosso eu corpóreo se centrava num eu que, à viva força, pretendíamos  manter imóvel e um outro que fluía sem parar.  Tivemos, sem nos dar conta disso, a consciência de um eu sujeito de si mesmo que pensava e de um turbilhão de pensamentos que não conseguíamos parar. As palavras fluíam, mas por trás delas, como uma entidade, assistíamos  a nós mesmos como se um duplo de nós nos espreitasse, ou assistisse aquela experiência.
   A partir daí, surgiram palavras que teimávamos em repetir até ver, se as  entendíamos apenas como um som, e perdiam o significado. Com tal método conseguíamos saltar para a palavra que se descolava do objeto, apercebendo-nos que a repetição como que apagava o seu sentido e o objeto não tinha relação com nenhuma palavra. Tornava-se num som, oco, vazio. Então, tivemos  a percepção da perda de sentido de qualquer palavra, bastando para isso repeti-la, as vezes necessárias, para tal acontecer.
    Com a idade, esse exercício mental foi-se tornando cada vez mais difícil, em vez de a entrada na linguagem, rica e abstrata, nos facilitasse essa capacidade. Se remetesse agora todas essas memórias que temos, no que diz respeito aos trabalhos  de Henri Bergson e o seu genial pensamento, não cremos que acrescentaríamos essa nossa descoberta infantil. Os nossos esforços intuitivos são todos de origem de uma evidência que se nos impunha e não por meio de buscas e de longas deduções.     Não se tratava de um pensamento elaborado longamente por um filósofo, mas de uma evidência da condição humana, que nos colocava diante de duas realidades, que toda a vida se cruzaram na nossa mente, e nem a psicologia, nem a experiência de vida, a que chamamos rudemente filosofia do senso comum, nos deram resposta.    A noção do espaço passou por uma intuição de que cada movimento nosso, mesmo que isso não fosse visível, modificava tudo em nosso redor e movia algo que não víamos. O ar não era o vazio, tinha existência e deslocava-se necessariamente “todo” quando nos movíamos.
     De repente, pensámos no outro lado do mundo, onde haveria gente, tal como nós.  Para nós, o globo terrestre, aos seis anos de idade, não podia ser muito grande.     Do outro lado, ao mesmo tempo que nós assim pensávamos, havia chineses  desconhecidos que também moviam esse espaço e os pensamentos que tinham deviam ser todos iguais aos nossos. Faltava inventar as palavras certas para nos entendermos todos. Nem saberemos  explicar porque pensamos em chineses, mas era o povo que colocávamos, por causa dos livros que conhecíamos, do outro lado do mundo.    A linguagem não tinha valor por si só. Não era nada, apenas servia para o pensamento passar. Mas era todo e em todos o mesmo!
  A rudeza dos nossos raciocínios não nos permitiu mais intuições. Antes, com a maior ingenuidade, tentamos uma experiência perfeitamente ridícula. Cavar um buraco no solo para atravessar a Terra! A nossa intenção, ao voltar a este nosso  despertar do pensamento e trabalho mental, é ver até onde a intuição e o pensamento discursivo se cruzam e se distanciam.
    A soletrar a palavra água, a intuição do todo do conceito já se reproduzia vivamente em nós. Até sentíamos jorrar essa água. Não precisava de uma dedução porque a evidência da realidade, para a qual a palavra ao lado do objecto, o ver brotar água de uma torneira, nos enviava uma perceção mais forte do que  o objeto e a própria junção das letras.  É óbvio que muito do que se pode tomar por intuição não passa de uma encruzilhada tão fugaz, em que se deduz, e aí é que a razão e a intuição se encontram.  A grande divergência, e o que torna a intuição uma unidade do sujeito com o objeto, é a sua captação na sua totalidade. A consciência é a própria essência intuitiva, sem hiato ou separação. O espírito capta o espírito, num saber que nos parece ser “perfeito” e uma unidade sem fissura. Explicar e entender são formas muito subtis de se apreender qualquer dado e de o diferenciar.  Aprende-se dedutivamente e induz-se numa apreensão única
   Explicar é uma forma de dar a conhecer a outro, ou ao próprio eu, um determinado raciocínio, por diferentes etapas, reproduzir o trabalho de formular uma lei ou um resultado. Leva a dividir, por diferentes fases, o que, no pensamento que verdadeiramente já existe, ou talvez fluísse, no nosso íntimo, é uma questão de passar da lógica à dedução. No final, resta a posse do resultado a que chegamos. Usando um vocabulário mais cuidado, explicar é perceber e assumir por correto um resultado em forma de deduções racionais, ou múltiplos silogismos. As etapas até podem continuar, como que separadas, em degraus. No final não há uma verdadeira evidência interior, mas um resultado que se pode memorizar e repetir porque considerar certo. Entender é interiorizar mais subjetivamente, assumir os dados como pessoais, sempre com uma forte perceção de que há uma vivência íntima, que é sempre um todo que avança. A percepção intelectual é muito mais subjetiva do que objetiva, em termos, que talvez, em certos casos, sejam excessivamente extremados.
    Dir-se-ia, num exemplo rude: Explicar é ver um objeto por fora. Entender é percebê-lo por dentro.  Digamos que, ao explicar, há um discurso, em se coloca à superfície,  uma fórmula completa que qualquer computador também acompanha a par e passo. É uma lógica sem ter nada para além do esquema racional.      O mesmo não se dirá que acontece com o entendimento.
     Se explicar é transformar em extensão o que já era evidente, entender é mais bem mais profundo porque não é possível de transformar em espaço. O entendimento tem um lado fluido que não se pode esquecer e também tem o trabalho da imaginação. É esta que vai envolvendo os dados e não apenas a estrutura racional. Sem querer psicologizar tal capacidade, há um sentimento interior que altera o pensante e o pensamento.
   Um botânico, ou um informático, por mais especializados que estejam, o seu entendimento e a sua imaginação não trabalham como alguém se dedica à metafísica.   A personalidade, com o entendimento e o trabalho do imaginário, altera-se gradualmente porque não é uma determinada área mental que se altera, mas a própria mentalidade que tem um enriquecimento pessoal, único.  Percebe-se que temos dois caminhos, ou a existência de dois modos de atingir o resultado de um problema.

  Numa explicação, os dados são apresentados, objetivamente, sem que o lado humano se manifeste. Assim acontece, quando se explica a tragédia ou o cómico a alguém, sem que essa pessoa tenha o sentido do trágico ou do cómico. A pessoa chega ao resultado, mas o seu entendimento não mudou. Não desata a rir, ou não se emociona. Kierkegaard, acusava Hegel de ser alguém sem o sentido do “pathos” (sofrimento). As diferenças de personalidade são pasmosas. A fleuma e a capacidade de racionalismo, no seu conceito e na sua noção de Absoluto, chocam-se com o temperamento enraizado na vida, de Kierkegaard que, é um dos mais completos filósofos no que toca à unidade raríssima entre a vida e a obra. Se temos um filósofo que sente e que vibra no filosofar da vida real, esse é Kierkegaard.
      Em Hegel, o mestre profere orações de sapiência como Reitor de uma Escola de Latim em  Nuremberga, acerca da nobre missão de pais e pedagogos, mas que não hesitou em trair amigos,  de abandonar um filho, casar com uma jovem a quem depois mandou entregar o filho, já adolescente, para educar com os outros que teve, se era tão distante da própria vida, eis a prova de que o raciocínio e o  Begriff, conceito que muitos germanófilos teimam em não querer traduzir com o que muito se insurge, com razão, o filósofo Žižek  Acontece que temos dois tipos de pensar a vida, a partir de pontos de vista perfeitamente opostos. Por um lado, o filósofo que quer trazer o entendimento da filosofia para a vida, com Kierkegaard, e o filósofo que quer racionalizar a vida até a transformar na Ideia Absoluta. A luta entre o entendimento da vida e a sua explicação estão aqui perfeitamente distintas. Para um, a filosofia é a própria vida, a existência, para o outro, a vida não  é senão o Begriff da filosofia.  É por isso que as palavras de Kierkegaard chegam com tão forte autenticidade:

    “Como é cómico  [1] (…) Divinizar o pensamento puro como bem supremo mostra que o pensador nunca agiu como homem”. Ao criticar o sistema da lógica hegeliana,  Kierkegaard tem a consciência de que o filósofo de Iena desvaloriza o subjectivo em função da sua realização no objetivo. Ora, para o filósofo dinamarquês isso desvaloriza a existência, que é vivencial e sentida, e por isso afirma: “eu sou o individuo”, aquele que não explica, mas que entende, numa unicidade que existe em cada ser humano. Muitos podem nem se dar conta disso.
   Daí, o seu aforismo “ penso, logo não existo”. A vírgula separa a intuição cartesiana da vivência existencial do filósofo. A existência é uma vivência, a que uns dedicam uma atenção extremamente forte e outros, apenas uma ligeira atenção.  O sofrimento humano, estudado por um médico e por um filósofo, torna o primeiro capaz de o explicar e o segundo capaz de o entender. O médico, aos 50 anos, terá as ideias gerais e o seu modo de pensar, e mesmo toda a sua personalidade, não tão alterado pelo que leu e estudou, do que tinha na sua juventude, se o compararmos ao filósofo,  ou ao humanista.
     Tal como Kierkegaard tentava demonstrar, tem uma vida e obra que evoluíram  em comum, mas em paralelo.  Enquanto o filósofo, ou humanista modificarão  tanto  a sua personalidade pelo lado de dentro, compreendendo e construindo uma visão do mundo  em que o seu imaginário se traduz num novo modo ver e compreender.  A existência altera-se pelo entendimento, muito mais do que pela racionalidade.   Há um dado interior que remete para a profundidade da evidência e que, em linguagem muito tosca, se poderia designar por unir os dados, alterar a nossa comunicação com o outro e conseguir que o todo seja apreendido sem separar as partes. Estes dois tipos de conhecimento são bem claros no pensamento matemático nas suas diferentes etapas.
   Todavia qualquer lei regressa à intuição pelo seu probabilismo e a sua impossibilidade de ultrapassar o limite. Ora, num computador há um resultado, como Hegel ao pensar no real e no racional tinha em vista o “resultado”. A dialética e a contradição, que encerram em cada momento da sua tríade, manifestam o conflito interno e externo que faz do Idealismo Absoluto um paradoxo diante da unidade da Vida.     É que o subjetivo hegeliano teria de subir mais um grau, ou etapa, em que se torna especulativo e espírito objetivo. Para Hegel a especulação é uma tríade em que a subjetividade e a objetividade se condensam numa etapa superior.
     No início de uma explicação, temos já a evidência, na sua forma virtual e, ao chegar à conclusão, de novo é uma intuição evidente que se atinge. O método, ou caminho, quer da dedução, quer do que chamamos indução, é de novo a intuição que a proporciona no início e no fim.
Poincaré chamou a atenção para generalização indutiva poder ser tomada como intuitiva [2 ]..
    Ao recorrer a esta crença coloca todo matemático sob a suspeição de uma tautologia. O imaginário, que envolve o pensamento pelo lado de dentro, não tem nada a ver com as deduções que a capacidade matemática conquista. O resultado é um dado sólido como uma pedra. A intuição é uma luz no espírito que o ilumina por dentro. Todavia, nada disso implica que as palavras sejam diferentes. Mas o imaginário e o entendimento pertencem a um mundo, enquanto o racional e dedutivo matemático pertencem a outro. 

    A função da intuição daria à matemática, o que a lógica concede à metafísica, um idealismo indispensável a toda a ciência.A confiança na razão é a base de toda a construção material ou mental, que o espírito humano cria, mas não pode ocultar a crença de que há uma equiparação, entre a realidade e o raciocínio matemático ou outro que seja. Todavia, a lógica não é redutível ao raciocínio. Os limites da matemática não são os limites da lógica.    Quanto à condição humana, como observador, e quanto à natureza, a própria linguagem, com todos os seus símbolos, só pode terminar por uma confiança, sem possibilidades de provas sem o uso da indução que é intuitiva, na capacidade humana. Conceitos como crença, confiança e intuição abalam todo o paradigma que o conhecimento humano atinja. Mas, por mais que se queira negar a sua aceitação, é inevitável à existência.
    Deste modo, toda a ciência parte de uma metafísica intuitiva para acabar por ser metafísica no seu final.  Apelamos para uma frase que lemos acerca de Henri Bergson “ser o último metafísico”  e percebemos não é o último, mas a necessidade da presença da metafísica em todo o conhecimento científico.  Sem as ideias primordiais da metafísica, o edifício científico é uma tautologia porque a indução é novamente a confiança, sem confirmação, numa intuição indispensável e onde o imaginário preenche as lacunas.
    A descoberta de Galileu sempre nos encheu do maior pasmo. Como é que aquele homem, como tantos outros, durante tantos anos, enquanto contemplavam absortos nos seus pensamentos, o oscilar de um candelabro numa igreja de Pisa, nada intuíam? Só Galileu, numa repentina iluminação, reunia todos os dados numa única evidência. A lenda de Arquimedes encerra uma extrema importância, não só pela descoberta, mas também por ser uma espécie de luz que repentinamente lhe iluminou todo o pensamento e se tornou numa evidência intuitiva, perfeita. Uma unidade do espírito com um dado espiritual.  Daí o salto fora da banheira, a sua corrida pela rua, e a palavra que nada exprime e que, todavia, é tudo. Achei!
    A iluminação súbita do espírito foi de tal ordem que, segundo os factos, só a intuição com toda a sua evidência permaneceu, se mais ter noção do senso comum, alterando por completo a sua visão espácio temporal, com a corrida pela rua, perdendo a noção das conveniências e da vida quotidiana:

---    Eureka.

   Os dois pensadores, num único ápice, tinham a unidade das deduções anteriores e o fluir convergente do entendimento, no seu fluir interior, numa só evidência.     Longamente, ambos tinham todos os dados na sua mente. Também milhares de pessoas passaram por tal evidência sem lhe extrair aquele resultado.     Os dados para a descoberta são atribuídos, diríamos mesmo a todos, porém a conclusão não é puramente dedutiva. Há um salto, num momento que chamaríamos virtual, fora dos quadros do tempo e do espaço, em que a iluminação intuitiva acontece.
     Podemos dizer que, qualquer ser humano tinha essa intuição no seu mais profundo íntimo, faltava-lhe a ordem dedutiva, que não apareceu, e uma unidade entre o sujeito e o objeto, que só a intuição dá e que torna límpida a evidência.

 

 

 

             Regresso ao ponto de Arquimedes

 

 

Devido às aulas de psicologia, a convivência com adolescentes levavam-nos a alguns diálogos sobre o tema da intuição.      Muitas vezes, nos interrogavam sobre certas escolhas, ou descobertas que não conseguiam explicar e que lhes alteravam a sua vida.  Falávamos-lhes do acaso, ou da intuição, mas as respostas não nos forneciam dados para o problema que me fascinavam.
    Sócrates falava de um “Daimon”, como ou duplo que o guiava e ao qual sempre obedecera. Acerca de Nicolau de Cusa corria uma história de que teria tido uma noite, uma iluminação súbita da sua doutrina. O mesmo teria acontecido a Descartes.  Como é que alguém sabe encontrar a resposta ansiada, se seguir um determinado caminho, que nem método tem, porque não se sabe o curso, que os pensamentos tornam na estrada, mas no final se encontra o que quer? Intuição, coincidência, ou salto no escuro, por entre o emaranhado de dados aduzidos, numa desordem aparente? Apenas um fio subjetivo interior do espírito, que não atinge a superfície da consciência, mas tem todos os instrumentos para lá chegar?
     Antes de seguir um determinado rumo, há, normalmente, uma deliberação. Os dados que usamos e nos esforçamos por ter bem conscientes são recordações de outras situações, reminiscências vagas e, através delas, procuramos uma dedução para um dado fim.    Ora a intuição recusa esse caminho e altera os dados, a solução não está, de modo algum prevista, na amálgama de dados.  Bastaria isto para justificar a intuição?
    Reportando-nos ao chamado “sexto sentido” ou a alegada intuição feminina, que é citada, tanta vez, ao longo dos tempos, temos  de nos referir a toda a subjetividade e papel secundário, que a condição feminina arrastou na história através dos tempos.
Seria inútil afirmar a intuição feminina como um falso problema, ou, numa linguagem que se torna simplista, por vezes até, aparentando-a com o instinto. Ao apelas para conceitos ou tradições que passam de geração em geração, em frases como esta: Instintivamente, sentiu que devia correr, …  O instinto materno levou-a a agir…Nestes casos, o instinto é mais forte e atua com eficácia.
   Os automatismos e os condicionamentos que estes produzem, torna-nos cegos para certas reações que acontecem. Todo peso da herança cultural está presente nestes exemplos acima. Basta recordar que a aprendizagem está presente até em animais bem simples e, onde há aprendizagem, as forças instintivas não atuam.     Ao nascer, o bebé humano é, por isso, o mais inadaptado e desprotegido de todos os animais.  Nasce-se inacabado.

 

 

 

               Subjetivismo ou intuição

 

 

    Quantas vezes, uma frase solta, um comentário, fora do contexto, uma observação monologada em voz alta, aparecem numa conversa familiar, num diálogo de um homem com uma mulher, uma conversa com uma empregada, a esposa, a filha. Por vezes, uma reação, ou alguns acontecimentos dispersos chamavam a atenção feminina que a apreendia e memorizava sem acesso a mais deduções. Os dados da memória, como sabemos, apesar de selectivos, não desaparecem por completo, e o inconsciente é extremamente vasto e sem as leis da lógica diurna. O homem que entrava em contato com o mundo feminino trazia vocábulos e por vezes, alusões a certos factos e, sem se dar conta disso, transmitia, mais do que logicamente se apercebia, de muitos acontecimentos objetivos ou sociais. Por vezes, problemas do trabalho, das empresas, discussões com amigos, traduziam-se em vagos comentários, ou frases indiretamente relacionadas com os assuntos em causa. Se bem que pudesse ser curiosa, inteligente ou interessada nos temas nem sempre a mulher tinha mais do que muito poucas peças de um puzzle de que o homem podia dominar. Esses dados, colhidos desorganizadamente, mesmo carregados de lacunas, levavam ao entendimento, pelo lado de dentro, com o uso da imaginação representativa, para preencher as lacunas e solucionar  problemas estranhos às mulheres.
     As hipóteses eram mais do que certezas, mas, em certos casos, surgia uma intuição que, muitas vezes, espantava o homem. Seria um erro não colocar aqui todo o papel da imaginação que é, quase sempre, pouco estudado. Ao remeter para o “sexto sentido” aquele poder entre o instinto e a intuição feminina que encontrava uma resposta nada se resolve. A literatura está repleta dessas explicações que nada adiantam ao problema.    A clarividência atribuída à mente feminina ao atingir uma solução intuitiva, não passaria, por vezes, de um raciocínio muito hábil. A mulher teria a capacidade de unir dados essenciais e, com eles, construir uma evidência que surge clara e sem sombra de dúvidas.
    Por outro lado, embora sendo a companheira natural do homem, subjetivamente apreende certos estados de espírito ou preocupações que não conhece senão por alguns vagos pormenores que informam o entendimento.   São aos milhares os casos em que um homem avisado, carregado de bom senso, se espantou com uma intuição que uma mulher, com muitos menos dados, captou e intuiu.  Apareceu o risco de um certo psicologismo que se referia à lógica “feminina”, muito subjetiva, que viria equilibrar a incapacidade especulativa da mulher. Já Hegel implicitamente aceitava essa tese.

        Por seu lado, mais tarde, Simmel [ 3 ], ao referir-se ao sexo feminino, atribui-lhe características subjetivas, da essência feminina, e separa a sua cultura designada por
 ele, como a que pertence à mulher.
A subtileza do pensamento simmeliano está em partir da tese de que a mulher nasce mulher, sem necessidade de se tornar feminina, pois essa é a sua essência, enquanto o homem se torna masculino com a socialização a que é submetido.  Já  a cultura objetiva, marcadamente masculina, colocando ainda um terceiro tipo de conhecimento, que assume como neutro, entre ambos.. Simmel tem uma visão, segundo a qual,  a evolução das mentalidades, separa largamente  o que se refere às duas culturas, a subjetiva, própria da mulher,  e a objetiva própria do homem, que filosoficamente separariam esses dois mundos. Entre a especulação e outros saberes próprios do homem, coloca o Direito, como algo masculino [ 4 ], tanto mais que a noção de Justiça não seria  a mesma para ambos os  sexos.
   O modelo da tragédia “Antígona” de Sófocles serviria, neste seu caso, para mostrar como a moral natural reside na mulher e a justiça está em Cretone, na cidade, na objetividade masculina. Daqui resultaria as divergências entre moral, dentro do quadro da tradição, e a ética.   A análise, que Hegel construiu sobre esta tragédia grega, demostra que entende a cultura como sendo marcadamente objetiva. Hegel coloca a lei pública do Estado, por um lado, em Creonte, que representa a Polis. O amor familiar, bem como o dever que causa o “pathos” de Antígona, em contraste com o bem estar da cidade, ou seja “a lei”  é causado pelo lado objetivo da ética que  Creonte representa.

     Em “A Fenomenologia do Espírito” (1807) podemos dizer que Hegel tem o pressentimento supremo da essência ética na sua personagem [ 5 ],  escreve Juan Cruz  que  Antígona está “naturalmente” comprometida  com o destino mais profundo da humanidade”  e acrescentamos, o que nos parece indispensável, quando a moral e a ética formarem uma unidade.
É com esse pressentimento, que Hegel vislumbra na mulher, a intuição da superação das noções de cultura subjetiva, da casa e da mulher, e da cultura objetiva do homem e do social, pertence já mais a Hegel do que a Simmel que apenas vai desenrolar o tema e habilmente o coloca a seu favor.  Ao considerar que “a obra da mulher é o homem [ 6 ] ” vai mais além quando diz que, apesar de tudo, é a mulher a “impulsionadora” da obra do homem. Se bem que, dito deste modo, pouco  pareça que a mulher atue na cultura objetiva, toda a cultura e toda a estética tem o impulso vital da mulher.
    Simmel não encontra poetisas, pintoras ou outras formas estéticas em que a mulher demonstre igualar-se ao homem. O grau de subjetividade, em que decorria a vida de uma mulher, por muito intelectual que fosse, não lhe ocorria que tinha relação com a objetividade.   Assim, para Simmel e no seu contexto da sua época,  a mulher não tem capacidades de ter talento, muito menos atingir  o génio, mas é a mulher que leva o homem à arte.

 

 

                           O Salto no escuro

 

 

 Depois de muito procurar uma chave que nos faltava, deixamos de pensar nisso, embora isso nos preocupasse bastante. Acabámos por adormecer, sem mais lembrar essa perda, nem nesse assunto.Na manhã seguinte, ao acordar, o nosso primeiro pensamento foi, com grande espanto, a certeza de que tínhamos a chave guardada na algibeira de um casaco, num determinado armário.  Ao confirmar o facto, só o pudemos atribuir ao trabalho mental desenvolvido enquanto dormíamos. A iluminação súbita
resultava em intuição, porque o inconsciente nunca dorme.   
    Já no caso seguinte, a explicação não é nada semelhante. Após um dia de aulas, dirigimo-nos para a sala dos professores para descansar, antes de regressar a casa. Repentinamente, a toda a pressa, corremos para a massa de alunos que descia as escadas e, dirigindo-nos a um deles, sem ter escolha, nem dúvida alguma, arrancamos-lhe da mão um texto, exclamando, com grande susto dele:

    ----    Tu roubaste-me esse teste da minha secretária.

   Era a hora da saída e as escadas estavam apinhadas de alunos. Só que nós escolhêramos aquele, com plena certeza de ser o culpado. Aterrorizado, o infeliz, sentia-se presa de algum conluio dos deuses, que nos davam poder de adivinhar.Em primeiro lugar, era-nos absolutamente desconhecido o que nos guiava, porque razão nos dirigíamos aquele e não a um outro aluno, porque tínhamos a certeza de que era aquele, Os dados da memória elaboravam uma confusa mistura de pormenores, entre tantos que trazíamos das aulas, que, sem essa intuição que os reunia, nunca os retiraríamos do grupo das memórias comuns, prestes a se desvanecerem  no inconsciente.
   O fio condutor do entendimento do roubo, não seguira as deduções vulgares. Não há deduções, mas uma unidade repentina que não se passa no tempo puramente psicológico da duração. A intuição foi mais forte do que qualquer dedução, como se o entendimento fluísse num espaço diferente e o nosso eu captara muito mais do que nós supúnhamos.  Cremos que há muito treino devido à herança cultural ocidental que imprime ao espírito feminino uma atenção mais selectiva ao que se passa à sua volta e que a cultura objetiva e social lhe procuram roubar ou nem lhe dar acesso. É óbvia a dificuldade de encontrar um vulto feminino num grupo directivo qualquer, se bem que nas universidades a equiparação é fácil de constatar. Até há bem pouco tempo, essa sua capacidade, que é muito forte na infância, em ambos os sexos, depois diferenciava-se pelos contextos da vida social.
    Aquela iluminação súbita, que torna clara uma evidência, seguida depois por uma ação logicamente acertada e que antes não era apercebida, aparece em diversos animais. Depois de muito tentarem, por exemplo, no caso de uma galinha, dar a volta a uma grade,  pelo método de tentativas e erros, não desiste, por fim o acaso resolve e os erros diminuem cada vez mais.  A forma, ou Gestalt, é possível de se verificar no conhecimento de animais sem serem humanos.   O tema tem muito a ver com o método global, ou estrutural, pois se trata de uma unidade e também de um dado, que não é somente a soma os dados, mas é também, e acima de tudo o mais, esse todo em que cada elemento toma o seu lugar, deixa de ser apenas um elemento, para fazer parte do todo, do qual não se singulariza. Em termos psicológicos, ou medicinais reportamo-nos, de igual modo, para a teoria holística em que a parte se estuda em função do todo. Ora este modo de entendimento afasta-se da redução a deduções simples. O estruturalismo, tem   por base o lema” Na origem está a explicação”, de acordo com Muchielli, mas essa dita origem pode ser um entendimento global, em que os dados interligados só tomam forma, num contexto de quem já não só explica mas entende. Usa o imaginário, forma um todo que de modo algum se pode desmembrar. 
    Em 1920, uma das mais importantes figuras do Gestaltismo, o alemão, Wolfgang Köhler (1887-1967 ), verificou  nas ilhas Canárias, que alguns chimpanzés resolviam problemas, depois desistirem de diversas  tentativas goradas, até ter um “insight” da solução.      Utilizou diversos meios, como colocar  caixas à vista do chimpanzé, de modo que empilhadas chegaria facilmente a atingir um cacho de bananas pendurado no teto. O animal, a determinada altura, após diversas tentativas infrutíferas, parece desistir. Mostra-se como que esquecido e aparentemente desinteressado.     Como modelo espantoso, temos o chimpanzé Sultão, que foi um dos seus casos mais espectaculares.
    Köhler colocou Sultão diante do problema do cacho de bananas que não conseguia atingir. Depois de uma série de tentativas e erros, o animal abandonou as tentativas. Não mostrou sinais de qualquer frustração mas de desinteresse. De repente, salta do seu lugar, pega nas caixas, empilhando-as umas nas outras, de modo a conseguir então atingir o seu objetivo. Com esta aprendizagem realizou outras, em que tinha de enfiar vários paus nuns nos outros, para atingir um alvo, fora do seu alcance. Este é um caso que se diria já clássico da teoria gestaltista.   A estas experiências e aos seus resultados, a psicologia gestaltista, chamou “insight”, ou introvisão.  Ora, a reunião de dados é de tal modo repentina que podemos comparar esta reação com a de Arquimedes, salvo as devidas proporções.

   O Ah! Ah! Ou o “insight” cujo significado nos remete para dados nada conclusivos. Luz repentina no espírito; inspiração. Ou ainda este outra definição:  

    Compreensão repentina de um problema, ocasionada por uma percepção mental clara e geralmente intuitiva, dos elementos que levam a sua resolução. Se dissermos uma ideia luminosa, qualquer pessoa, do seu senso comum, entende o sentido dessa revelação, ou visão inesperada de alguma coisa. Em psiquiatria fala-se de um autoconhecimento; isto é, habilidade de julgar, com objectividade, a sua própria maneira de agir. Passando para termos religiosos, dir-se-ia um conhecimento místico,
visão mística de iluminação com o Absoluto.    
    O estado místico é, muitas vezes, referido como uma perda da noção do tempo e espaço, com um reconhecimento súbito de regresso ao estado objectivo.  A admiração, ou espanto, por tal ter acontecido, bem como pela duração do acontecimento acompanha o regresso. As explicações dos místicos são sempre de tal modo complexas e pouco racionais, que não temos dados para explicar essa intuição que se afirma ser de modo absoluto.

        Como definição geral, temos uma percepção mental clara, uma representação sem estar relacionada diretamente com os sentidos. Já para a filosofia, a elaboração representativa tem uma componente imaginativa, sem a qual os dados sensitivos não são unificados no entendimento. Por exemplo, a noção de cão não é percepível, muito menos a de animal, pois já contem elementos puramente mentais. O trabalho da imaginação é essencial para a generalização. Não se obteria, deste modo, um conceito de animal através de tecnologias, mesmo das mais sofisticadas.
     Qualquer criança tem intuições muito fortes porque o seu egocentrismo, a sua memória e imaginação reprodutora a tornam extremamente curiosa e atenta a milhares de acontecimentos, frescos e sempre novos para a sua mente. O que é mais do que vulgar para um adulto, para ela são constantes novidades que tenta assimilar e organizar, sem contudo isso seja percebido pelo adulto.   Isso torna-a perspicaz, apesar da sua ingenuidade e dá resultados paradoxais que muitas vezes, espantam os adultos. A tríade do passado, presente e do futuro é uma vivência em que o presente, parece não se mover na criança, que, tantas vezes, se espanta com a chamada de atenção dos adultos para o tempo que passou.
         “Já?” . Pergunta ingenuamente a criança diante da pressa do adulto. O entendimento infantil é carregado de um subjetivismo que o afasta das explicações que, tantas vezes, o adulto lhe fornece em vão pois são dois modos de entender o mundo. O que se explica não é o que a criança entende.  Na maior parte das vezes, o adulto tenta disciplinar o raciocínio infantil e, por volta dos sete anos. Existe mesmo a noção da idade da razão, atribuída a um conhecimento concreto.    Nessa fase, a criança tem o adulto como o seu exemplo a seguir. A capacidade concreta aumenta e a intuição parece diminuir. Abandonou mesmo a fase das perguntas metafísicas que é, infelizmente, tantas vezes descurada. 
   As capacidades mentais são valorizadas, mas nunca vimos nada que se referisse a uma perceção mais profunda, além dos preciosos trabalhos de Bergson.     A fase da adolescência abarca tantas descobertas que, infelizmente, as capacidades que desenvolve são carregado toda a ênfase no desenvolvimento lógico matemático, sem grande apreço pela intuição, que pode estar na causa de antipatias e simpatias súbitas e multiplicidade de descobertas interiores que de novo, afastam o jovem do adulto para depois se poder, de novo, aproximar.
     A nossa primeira ida a Lisboa, realizou-se num turbilhão de mudanças, numa época em que viajar de barco mostrava as distâncias e como as ilhas estavam ainda por descobrir pelos continentais.     Apesar de atordoada com a chegada, levaram-nos a oferecer um passeio de carro pela capital. Por considerar um local de onde se podia avistar a grandeza da cidade, vendo do outro lado o castelo de São Jorge, chegámos a um jardim, quase sem iluminação, mas que se assemelhava a um parapeito sobre a cidade. Seria o jardim de Alcântara, o que se situa perto do Largo do Rato, o certo que nos fascinou ver da beira da grade de ferro, a iluminação geral.  De súbito, sem que reparássemos sequer  na estranheza da frase, afirmamos:

    --- 
Há um mapa com a planta da cidade aqui.

     Quem estava ao nosso lado, replicou que nunca tal vira, nem lhe parecia possível isso existir por ali. Mas tinha “a certeza”. Sem qualquer hesitação, na escuridão que nos rodeava, avançamos para o lado esquerdo sem hesitar. Depois de dar alguns passos, com os protestos de quem nos guiava e que dizia que não existia nada, chegámos a um pedestal com um mapa da cidade de Lisboa, que mal se podia ver, mas estava ali, patente aos olhos de todos.      Se o acaso pode explicar a nossa surpresa, a lógica não coincide, pois não tínhamos quaisquer dados anteriores, nunca ali podíamos ter estado e, muito menos, dar com a direção do mapa, sem a mais ligeira hesitação.
    Se este nosso caso é uma intuição, também nos interrogamos, porque foi sem aprendizagem, sem lógica, nem qualquer causa que descobrimos, para nosso grande espanto, esse pasmoso mapa da capital.

 

 

                                   A descoberta

 

 

 

    A condensação dos factos, ou fenómenos, para atingir uma intuição no seu sentido psicológico, é um fenómeno que não tem qualquer elaboração de dados ou deduções. Trata-se de um conhecimento ao qual se tem acesso por uma via não racional; não se consegue explicar e, em certas ocasiões, nem sequer se consegue verbalizar. Em termos psicológicos, a conscientização foi  o ponto central da nossa autoconsciência, o factor mais importante foi  a descoberta desse foco e tentar que a consciencialização se desse em duas zonas com um ponto de união, ou foco, consciência de si mesmo, consciência do nosso pensamento a fugir-nos pelo seu fluir  e a consciência do que está entre – uma espécie de zona intermediaria do eu que chamaria avatar ou foco de luz interior que assiste e tem noção do devir do pensar.
   Enquanto se segue apenas a via da racionalidade, o homem pode construir máquinas que resolvam muitos problemas. Mas a intuição ultrapassa largamente a máquina pelo poder, de parte da consciência  que não tem ainda um verdadeiro método de investigação. A velha introspeção de Wundt , análise da consciência pela própria consciência era o paradoxo de transformar a duração em etapas o que não se capta senão por intuição consciente, impossível de separar da unidade consciente e inconsciência.Esse avatar seria a fonte de Hipocrene das musas da velha Grécia, a inspiração, sem controlo de uma escrita que se revelava depois ser coerente, a descoberta de uma solução de qualquer problema, após muito trabalho em longas deduções e labirintos lógicos.   A intuição é a terceira via do conhecimento. Posta de parte pelo racionalismo, remete para uma confiança sem provas e atinge os fins, numa unidade entre o espírito e o próprio espírito.
       As experiências com aparentes paradoxos,  por vezes, levaram-nos a distinguir nas aulas, a maior ou menor capacidade de intuição. Aplicamos  um exemplo desse género, numa aula de filosofia em que toda a turma estava parada, sem conseguir iniciar o trabalho. Começamos a ficar constrangidos e sem ver possibilidades de ajudar qualquer aluno continuando a  ser imparcial . Dirigimo-nos ao interruptor da luz elétrica e acendemos a luz, embora fosse pleno dia.
       Um ou outro aluno olharam para mim com estranheza, mas nada mais obtive. Tornei a acender e apagar várias vezes a luz e, de repente, um aluno exclamou: Ah!
         Os outros olharam-no intrigados. Já havia mais uma ou duas reações e, finalmente, toda a turma iniciou o trabalho. 
    “ Sapere aude”! O tema do trabalho era o Iluminismo e a intuição só pode ser atribuída a parte dos alunos, pois aos outros foi necessária uma comparação, dedução e generalização do exemplo pratico com o problema. A intuição que conseguimos foi muito entusiástica para todos e revelou o poder da mente com diferentes tempos de reações. Revela-se existir em diferentes animais, na iluminação súbita que chega à solução e depois explica como se pode deduzir, apercebe-se nas crianças pequenas e depois o seu uso não é explorado. Ou, no caso de o ser, por tentativas que se revelam falsos “insigths”.

 

 

                               

                                         A máscara

 

 

 

Um outro meio de conseguir que a intuição entre em ação, foi para nós uma revelação de certos problemas de um rapaz, que por um acaso foi um aluno, que precisava entender, para depois explicar, os papéis sociais que todos nós temos de representar no palco da vida. A compreensão  da representação dos papéis não estava, de modo algum, a ser conseguida, tratava-se mais de sentir na pele o que é ser ator, do que memorizar conhecimentos.   Tudo era muito confuso para ele porque insistia na existência de um eu, interior, sem ação nem representação, uma objetividade ontológica, algo residual, uma individualidade com um sentido interior e vivencial, que não precisava de contexto. A noção da universalidade do pensar como estrutura pensante não lhe ocorria.
    Não se tratava de um entendimento sociológico da situação, mas de um dado existencial que não captava. Segundo pensava, teria sempre de existir, por trás da cara, ou papel, que cada um tem de representar, nas diversas cenas, um individuo contextualizado.      Este mudaria de posição, de atividade, mas sempre com uma presença para além da representação em que todas as outras estão latentes. A pluralidade de eus daquele adolescente alicerçava-se numa entidade abstrata que ele concebia como o seu interior, um ponto donde partiam todos os papéis latentes.
   A sua noção do seu eu era a de ser uma pessoa que tal qual como acontece no teatro ou no cinema, sem perder a noção de si, se revesta da de outrem.   A sua luta interior era trágica porque ele mesmo derrubava, uma a uma, as suas máscaras e, por trás delas, acabava por encontrar sempre o Vazio.  Insistimos na sua busca, até o intrigar cada vez mais, com o problema. Pedimos-lhe para imaginar um cabide ao qual tiravam qualquer peça de roupa. Fitou-nos, absorto em mil pensamentos, como se deixasse de nos ver, e por fim, exclamou estarrecido:

        ---
Não me resta nada! Só o suicídio.

     Caiu um pesado silêncio entre nós. De repente, sentimos que se abria um negro abismo diante daquele jovem, que já várias vezes falara na morte e no seu próprio suicídio. A noção do “não ser” foi a intuição do ser, que ele não desejava afetivamente encontrar em si, no seu âmago, pois estava num processo de construção da sua própria identidade. A intuição do seu próprio vazio foi um abalo terrível. Caíam por terra todas as suas imagens, sentia-se uma estátua que se desfazia em pó e dela nada estava.    Apenas um corpo, a expressão do rosto mostrava um imenso vazio sem o mínimo de interioridade. De repente, nós vimos, na nossa frente, a figura do espanto, da descoberta do “nada”. Do “não ser”, na representação do humano e nos olhos que nada viam. Atingira a intuição de que não passava de muitas máscaras e estas jaziam agora aos seus pés. Sentiu intuitivamente o vazio e por isso se silenciou, absorto na descoberta.
      Se houve reviravolta no seu comportamento, nunca o poderemos afirmar. Graças ao exame, que conseguiu passar, terá talvez aqui, ganho uma nova auto estima, que o fez sentir ser pessoa. O trabalho do entendimento foi suficientemente interior, “por dentro” para pensar na possibilidade de uma etapa da sua personalidade ser ultrapassada naquela experiência vivencial.   A intuição da evidência cartesiana do cogito não a consideramos senão com algo que se impõe ao espírito pelo próprio espírito. Há um todo, ou seja, uma unidade, em que pensar é existir, Por certo que é discutível tal forma de existir, mas a sua veracidade impõe-se. Ao transformar o cogito num silogismo, colocando uma vírgula na frase: “Penso, logo existo”, cremos que se perde tanto em intuição da estrutura consciente, como em evidência.
    Seja um ponto de chegada ou um ponto de partida, a solidez reside na existência do pensamento, como um ser pensante, existente que se reconhece como que por trás  fluir. ica muito vago o papel da imaginação que Kant atribui ao conhecimento intuitivo neste ponto da sua visão do conhecimento. O intuitivo ainda não é conhecimento dentro da sua lógica, ou deixa de o ser,  ao ser obtido.
     Temos a sua afirmação “Na faculdade de conhecer, a sensibilidade ( faculdade de representação na intuição) contem dois elementos a sensibilidade e a imaginação." [ 7 ] O papel da imaginação reprodutora pode levar a uma síntese dos dados intuitivos, mas não a justifica  plenamente.
     A intuição, tal como aparece, fruto de um entendimento do espírito, com dados do espírito, torna-se numa evidência intelectual.  Assim se observa em Descartes, em que se supõe  o pensamento que se descobre como evidência intelectual a si mesmo.  A imaginação, se tem o poder de síntese, não passaria de uma memória selectiva, sem qualquer poder para além desse. O entendimento, como poder de dar regras, não é intuitivo. A intuição surge saltando deduções, ignorando a redução do diverso à ordem, atinge a evidência na unidade do pensamento. Kant tem razão quando afirma, ao referir-se ao conhecimento, mas não quanto à faculdade de pensar. Assim, a intuição é um dado, tal como Kant o diz, em relação ao conhecimento, mas não em relação ao pensar.
      A intuição é a porta para o idealismo, o início e o fim do conhecimento científico. Vai para aquém e além deste. A intuição está relacionada com as reações repentinas que dependem de um grau superior de conhecimento, tão virtual, que não se insere nas coordenadas do tempo e do espaço.   A forma mais técnica de exemplificar a intuição pode ser dada pelo esvaziamento das velhas noções de tempo e espaço que as tecnologias modernas nos dão. Deixamos de estar num aqui e agora das percepções comuns e passamos a comunicar com um outro que pode estar a milhares de quilómetros de distância e todavia cada um alterou virtualmente o tempo e o espaço. Criou-se um tempo e um espaço que se desligaram do senso comum.
  A intuição vai muito mais longe e pode-se observar repetidamente em certos “quebra-cabeças” cuja compreensão repentina, nem sempre é atingida por deduções. Na intuição elabora-se a solução antes de a colocar em forma de dedução. Eis um exemplo em que a intuição pode ser anterior à dedução: “Que parentesco tem Salomé com a sogra da mulher do seu irmão?” Por isso, muitas vezes, mesmo sem querer, uma pessoa diz repentinamente_ --- Ah!

     Um problema de linguagem e de intuição muito simples mas nem sempre imediatamente resolvido é
: De que lado deve estar a asa de uma chávena?”
     A importância da psicologia Gestaltista, no que diz respeito à intuição, tem sido aplicada como método de aprendizagem, de qualquer modo como que falsificando os dados, pois há um observador ou professor que já sabe a solução e não usou a intuição.   A definição teórica de insight pode ser vista como um campo de força que leva o indivíduo a procurar a boa forma. Olhar para uma figura que não tem sentido e, de repente, sem nenhum esforço, compreende-se a relação figura-fundo a elucidar-se, a compreensão é do modo imediato, porque a mente passa a inteligir o todo, uma espécie de “entendimento interno”.
     Tanto as ” figuras fracas” usadas pela Gestalt como os mais recentes estereogramas são exemplos curiosíssimos mas não tratam com clareza o papel da intuição. Apenas permitem entender que a capacidade de entender muda repentinamente.  Muito mais se apela ao salto no desconhecido, com as frases em que só a primeira letra e a ultima são reconhecíveis e, mesmo assim a pessoa capta o sentido das frases sem dificuldade. Com este tipo de método global, a aprendizagens da leitura dá-se, saltando etapas e construindo palavras e frases com notável rapidez. O objeto passa a ontológico por constituir uma unidade que o espírito alcança e, só depois, o reconhece já elaborado. A razão submete-se à intuição quando a sua evidência é já metafísica e passa a ser um problema ontológico. O dualismo de Kant não fere a antropologia kantiana porque a intuição se refere, neste caso, à especulação, necessidade primordial do homem livre e não ao cientista, ao papel de Kant como epistemólogo. Sem a intuição sensível, trata-se agora de uma capacidade da razão por falta de dados sensíveis.
    Hegel tem uma afirmação que mostra com vai mais além de Kant na elaboração do especulativo como o próprio espírito.  Em Iena, no ano de 1807, sente forte admiração pela figura de Napoleão a cavalo, quando este passa por ele, com as suas tropas. A figura fenoménica do general corso, agora imperador dos franceses, corresponde ao que então escrevia e delineava na sua obra “A fenomenologia do Espírito”.  De súbito, tomado de espanto, eis que o resultado das ideias de Schelling, de que se apropriara e adaptara à sua fenomenologia, e todas as suas ideias tomam corpo na aparência da Ideia. A sua frase é bem conhecida:

          “Eu vi o Espírito do mundo a cavalo.” 

  A intuição intelectual revelava-se-lhe. Estava ali o “devir”, uma abstração do todo, o progresso do Espírito, a sua manifestação fenoménica que remetia para o desenvolvimento da liberdade,  num dado momento da História, tal como Hegel a entendia.  Muito embora a sua admiração por Napoleão fosse grande, o que ele intuía ali, era muito mais do que o homem. Naquele momento, mas não no devir do Espírito Absoluto, aquela era a Ideia [abstrata] na sua realidade [em termos hegelianos] que se realizava perante os seus olhos.
 A intuição que teve era pois o resultado de uma etapa dos diversos graus que a liberdade tem de percorrer para atingir o Espírito Absoluto. A consciência de Hegel intuía a força do Direito, que estava do lado do imperador. Mas, na sua marcha, os grandes homens realizam e só detêm o poder enquanto efetuam “as finalidades do Espírito em si e para si, um Direito particular que se colocou absolutamente ao seu lado." [ 8 ]
    Se Napoleão foi um herói, a determinada altura, deixou de realizar o universal superior. Deixou de ser lúcido. Ao usar as suas paixões, a famosa “astúcia da razão” hegeliana, que governa o Mundo, fez que Napoleão fosse um resultado necessariamente ultrapassado pela dialética do progresso histórico.  As ambições servem-se dos homens e assim, Hegel teve a intuição espantosa para ele próprio de ver o Espírito que,  naquele momento de contemplação, no devir histórico, Napoleão foi o representante.     Face à sua fenomenologia do espírito, viu muito mais do que a figura do imperador. O que Hegel intuiu foi o Espírito, o progresso e o resultado, de um dado momento da passagem da liberdade em marcha, e que o encheu de alegria.
  O repentino espanto do filósofo foi um salto no desconhecido que vinha assim confirmar a sua noção do seu Espírito absoluto com base na representação da figura fenoménica e teve uma intuição intelectual entre dois conceitos.

 

 

 

               O absoluto e a paragem

 

 

 

   Um menino travesso, sabendo que lhe era proibido tocar na taça de cristal, tirou-a da mesa e segurou-a nas mãos.   Nesse momento, entra o pai na sala e, com o susto, a criança deixa cair a taça que se estilhaça em mil pedaços.  O brado do pai é assustador, quando ergue a voz e pergunta:
        E agora?

    Diante da figura gigantesca do pai, da sua ira e da sua pergunta, a criancinha ergue os olhos e murmura:
       …agora e na hora da nossa morte. Amen.

   A intuição religiosa infantil dá um salto na fé. Sente a culpa, mas confia no afeto. O seu sofrimento coloca-o diante do seu erro e separa-a por completo do pai. É o impossível para a criança e o possível para o pai. O perdão da culpa.   A confiança é mais do que um conceito por ter um sentido existencial da perceção do mundo e do Outro. Quanto mais intuitiva for tal confiança, mais se alicerça na fé. A fé é intuitiva nos outros e só depois se deduz a desconfiança.  A fé é o elo entre uma dada crença num outro ser humano ou ao mundo em geral. A confiança, segundo os psicólogos, é um dado inato que impele a criancinha para os braços de qualquer adulto.  A fé é o nó górdio entre a crença e a confiança. Tudo isto são intuições que a condição humana aceita, sem pôr em causa, até que aprende que existem a mentira e a traição.
   A intuição, na sua essência, é um absoluto. O espírito unifica-se na evidência. O exemplo da imobilidade de Aquiles, no paradoxo ou aporia em que não consegue alcançar a tartaruga que vai à sua frente, e o seu movimento obriga a dois tipos de pensamento. O racional e o lógico confrontam-se com o intuitivo. A lógica entende, mas precisa de se transformar em raciocínio dedutivo para se modificar em explicação.  O intuitivo flui com o “herói dos pés velozes”, e o dedutivo explica a imobilidade que a intuição nega. Chegamos ao paradoxo.  O entendimento pelo “lado de dentro” conduz a uma imaginação, descrita por Kant como a intermediária entre a perceção e o entendimento, reprodutiva das figuras mas num tempo virtual, que se desembaraça das coordenadas espácio-temporais, com que o senso comum lida.
    O paradoxo reside em querer deduzir o que a intuição capta sem dificuldade. Estamos perante dois modos de explicar e de entender. O dualismo, que a matemática resolve, é uma questão antropológica e uma saída da medição para a corrente do nosso pensamento que nem coloca a questão.  A surpresa de não encontrar solução, na linguagem nem na lógica, levou à explicação espácio temporal que Einstein resolveu. Mas isso nada tem a ver com a intuição da vida real. Em vez de recorrer ao Absoluto e a uma resposta intuitiva, a explicação é explanativa, não tem já nada a ver com o entendimento, tal como Kant, ou até Hegel, o entendiam. Cremos bem que tem muito mais a ver com raciocínios relacionados com as tecnologias que reproduzem o racional, mas não o entendimento.
    A intuição é uma porta aberta na infância para aceitar confiadamente o Outro. A sua perda só surge quando se derruba a crença e a desconfiança se infiltra no espírito.   Ora, a porta aberta da infância dá para o Absoluto. Não tem limites no sujeito senão a partir do Outro. A noção do Outro que somos é anterior ao eu interno. A negação, “não quero”, conduz à descoberta do eu.
    No plano metafísico e religioso, os seus principais temas estão no início da intuição e podem ser um final em que o espírito se depara com um Absoluto.  Esta será a via religiosa que Kierkegaard apontou e os místicos seguiram.

    Uma das mais faladas intuições, que não se explicam por ordem natural, é a de Joana d´Arc, a Donzela de Orleães [ 9 ].
 O rei, então ainda Delfim, desconfiou da pastorinha  e, criou uma situação, ou cilada, para verificar se realmente se tratava de um caso real ou de embuste.   Ao chegar ao grande salão onde se deveria encontrar com Carlos VII, este escondeu-se entre os seus súbitos e colocou no trono um falso rei.    Com espanto geral, sem hesitar, a jovem correu para o verdadeiro delfim e ajoelhou aos seus pés. A intuição não a enganou.
    Se regressarmos ao início da nossa vida, vemos que nascemos com uma boa fé inata. Todas as crianças aceitam confiadamente os adultos que lhe aparecem. A crença na bondade natural é algo que só se perde depois de uma série de experiências negativas. O psicólogo Erik Erikson, nos seus estudos sobre o desenvolvimento infantil, fala de um conceito importantíssimo que vai envolver a vida inteira “a confiança básica”.
  Este conceito é o adequado porque se dá uma inoculação emocional em função de uma figura, o objeto materno, com a ingenuidade da falta de conhecimento infantil que vai levar o filósofo social Anthony Giddens [ 10 ] a ponderar  na formação da  “base ulterior de auto estima. O imaginário e a realidade não se distinguem nessa altura, mas a noção de “provedores externos” aumenta um sentido de confiança que se torna mútua. Assim a segurança ontológica tem base na crença e na confiança que nos leva a alterar a visão global que cada um capta da realidade. Por trás de toda a ação, quer do quotidiano, quer de escolha, ou dos acontecimentos mais importantes da vida de cada um de nós, chegamos à conclusão que há, antes de mais uma intuição metafísica a envolver toda a sociedade.
   É a partir de uma metafísica que depois de afirma “a realidade” e se pode ter uma vida social em que a base é intuitiva.  O homem não teme o homem. Pelo contrário, nasce e desenvolve um sentido de confiança intuitiva que durou até aos nossos dias, em todas as sociedades e as condiciona inevitavelmente. A intuição corresponde ao abrir da porta ao mundo. Este mostra-se ontologicamente sólido nos seres humanos, de um modo tão habitual, que não nos damos conta.
     O hábito é um inimigo da intuição da verdadeira existência em que a auto estima e a fé nos outros são necessidades tão constantes como a de respirar.  Um ser humano, carregado de angústias, perdeu por completo a segurança, quer em si, quer nos outros. Ao andar na rua teria receio de todos, não se sentaria confiadamente num restaurante, não se atrevia a reclamar de não lhe servirem devidamente a sopa por que depois o cozinheiro se vingaria e cuspiria no novo prato de sopa. Cada vez que entrasse num automóvel teria receios, não confiaria num professor e, muito menos, num médico sem ver os diplomas e certificados bem capazes de dar segurança.  Na maior parte dos casos, estamos seguros de que, apesar de todos os riscos e perigos invisíveis que nos rodeiam, há uma grande probabilidade de amanhã o sol nascer como sempre.
    O hábito, como “segunda natureza”, rouba a visibilidade da intuição, do salto no escuro, de que só nos damos conta, em casos extremos ou anómalos.   Passando do geral para o particular, o ser humano é guiado por uma intuição, que se transformou num hábito, e do qual não se dá conta em cada ação que pratica.  Já a confiança e a intuição direta no Absoluto exige um entendimento interior muito forte da vida humana. Se o hábito nos leva para a rotina, esta faz desaparecer a vivência e a atenção à existência verdadeira.  A atenção é um elemento que polariza a consciência e o seu contrário não é a distração, mas a dispersão do espírito.
     Facilitando toda a vida a moral nas sociedades, a ética, ao ser seguida por todos, não valoriza a fé do outro. Já se tornou num hábito que não nos espanta. A confiança transforma-se, sem provas, além da repetição, num hábito que nos rouba a admiração que deveríamos ter na fé. É a partir desse outro que descobrimos e na interação da confiança que temos a nossa auto estima e consciência bem estruturadas. A fé é um movimento que vem do outro para nós e ao qual reagimos, depois de toda a experiência infantil e juvenil se reforçar. Os outros confiam em nós, esta é a ética, na sua forma geral, tal como Kant a considerou, pois a mentira nos repugna, sabemos que transgredimos a lei geral a que também somos sujeitos.  “O pecado entra no mundo pela mentira.” Cremos que é esse o modo como se quebra a confiança, derruba a fé e temos a noção de transgredir a lei. Tornamo-nos num paradoxo face a nós mesmos e ao Outro.
     A lei é geral e, quem a transgride, tem plena consciência do seu paradoxo. Aceita-se uma mentira porque temos a crença intuitiva na verdade e também sentimos que erramos e estamos a transgredir tal lei. O mentiroso atraiçoa deliberadamente a lei porque o seu absurdo é negar-se à lei que não admite que se transgrida. Foge da moral geral e por conhecer o erro é que ele existe. Kant e Kierkegaard concordam neste ponto, mas o racionalismo e a moral prática não aceitam o individuo, mas o geral.     Logo, no famoso caso do pai da fé, Abraão,  matar um filho é algo que Deus não pode, como Amor absoluto mandar praticar.

    Um pai matar um filho? Vai contra a universalidade da ética kantiana. Logo, segundo a razão prática kantiana [ 11 ], Abraão duvidaria de que não estava a receber uma mensagem divina. Ele é um entre tantos e, para Kierkegaard, cada um está só, absolutamente só, face a Deus.
O estádio religioso é entre um finito que confia absolutamente   num infinito com o qual não tem absolutamente nada em comum.  Essa via é de sofrimento, de intuição, muito mais exigente do que todas as que o homem pode colocar, perante si mesmo.Diante do tremendo paradoxo da fé e da razão, no caso da ordem dada por Deus a Abraão de lhe sacrificar o seu filho, as suas conclusões reportam-se apenas à esfera humana.
    Como pietista, religião que seguia, Kant interpreta subjetivamente esta passagem da Bíblia, de um modo absolutamente contrário à intuição mística e metafísica do estádio religioso. Generaliza, interroga a razão, a crítica da razão prática e a sua universidade. Integra  Deus num racionalismo que se enquadra no seu sistema. O seu deus não um Deus Absoluto porque o liga à estrutura racional antropológica, a que conhecemos, e a um idealismo em que o antropomórfico tem uma base para toda a ética, inclusivamente acaba por colocar Deus sujeito à lei.  Ora não há intuição objetiva. É num sujeito que se realiza e é ele quem a sente. A luz da intuição é interior. Kierkegaard coloca o estádio da fé para além do racional.
    Todos os possíveis humanos se esgotam. O impossível pertence ao Absoluto. O reconhecimento do paradoxo é o que leva à intuição mística do Absoluto. O tempo e o espaço ficam fora esta categoria, é uma suspensão virtual de um eu, que se sabe único, fora da multidão e se reconhece porque aceita o absurdo.
 O desespero [ 12 ] suspende o indivíduo sobre o Abismo e, contra todos os possíveis, ele confia. O silêncio é o único modo do herói existir diante da sociedade e de todos os outros.     A relação religiosa é única e de “o” individuo. A singularidade é o que mais íntimo e nos torna um só.
      Foi o que Kierkegaard quis demonstrar ao aceitar a existência, num paradoxo ininteligível, fora da sua sociedade e da sua ética. Tem de estar absolutamente só. [13 ] Não pode recorrer aos outros, pois só ele é o próprio paradoxo na qualidade de Individuo que é único. A intuição que abre a porta da Vida é assumida pelo Individuo como a última exigência para atingir o Absoluto.
Nada mais pertence à condição humana! Suspenso no Abismo, só a fé incondicional, intraduzível, sustenta essa existência.    Suspenso na fé, inacabado e carente do Outro, é o início da condição humana. De novo, suspenso na fé, mas só depois de recusar todos os possíveis, o ser humano é na realidade a própria ponte para o Absoluto.
    Nada mais pode arriscar nem entender. Nesse tremendo risco, a luz da confiança torna-se Absoluta no Indivíduo. 

 


 

Notas:


 

 

[1] Kierkegaard, S. Post-Scriptum aux "Miettes Philosophiques” 1949, Gallimard, Paris , 49.

[2]  Poincaré,  H.  "La Science et l’Hypothèse". 1902, Flammarion, Paris.

[3] Simmel, G. in. "Fidelidade e gratidão e Outros Textos", 2004, Antropos, Relógio d´Agua, Lisboa.

[4] Itálico, de Simmel in. "Fidelidade e gratidão e Outros Textos", 2004, Antropos, Relógio d´Água, Lisboa. Pp201 e segts.

[5] Juan C Cruz, "Por naturaleza: el sentido de Antígona según Hegel" , 2012, http://www.leynatural.es/2012/11/09/por-naturaleza-el-sentido-de-antigona-segun-hegel/10.1.16.

[6] Simmel, Idem p.236.

[7] Kant, E. "Anthopologie du Point de Vue Pragmatique”, 1970, Vrin, Paris. P.36.

[8] Hegel, W.F.  "La Raison dans l´Histoire” 1965, Plon, Paris, p 122

[9]http://www.histoire-france.net/moyen/jeanne-darc  

 Arrivée à Chinon, Jeanne se rend à la grande salle du château. Elle n'avait encore jamais vu le roi, et pourtant l'anecdote raconte qu'elle le reconnaît, caché dans son assistance, alors qu'un sujet avait pris sa place. Charles VII est étonné, la jeune fille se présente sous le nom de Jeanne la Pucelle et que le roi des cieux lui commande de l'emmener à Reims pour le faire sacrer. Jeanne et Charles s'entretiennent en secret, nul ne sait ce qu'ils se sont dits, mais le roi ressort avec le visage éclairé. Convaincu, Charles a cependant la prudence de faire examiner Jeanne par des théologiens à Poitiers. Le bon sens de Jeanne y fait immédiatement sensation. « En quelle langue parlent vos Voix? demanda l'un des frères -Meilleure que la vôtre, répliqua-t-elle. -Croyez-vous en Dieu? -Mieux que vous. »

 
http://www.geocities.com/CollegePark/Classroom/3062/jeannedarc.htm  Hachette

[10] Giddens, A. "As consequências da Modernidade", 1991, editado pela Fundação Editorial de UESP, São Paulo; Brasil.

[11] Kant, E. "Le conflit des  Facultés", 1973, Vrin, Paris.

[12] Kierkegaard, S. "O desespero Humano", 1961, Livraria Tavares Martins, Porto. P.141.

[13] Idem "Temor e tremor", Colecção Filosofia e Ensaios  Lisboa, pp110-111