"  Revolução por Acontecer " 

  • A propósito da obra pedagógica de Janeiro Acabado.!

 

    ©  Lúcia Costa Melo Simas ( 2016 )

 

 

    

 

" Enigmas no Horizonte"

" Estrada secundária no Inverno.  Região de Calais. França. 2011 "

  © Levi Malho.

 


 

       A aprendizagem surge tão intimamente ligada ao desenvolvimento da personalidade que, qualquer pessoa, se considera capaz de ensinar as bases daquilo que já aprendeu. Basta para isso que o observador esteja atento.O erro do senso comum vem do início da condição humana. Quando praticamos uma ação, que nos parece simples, a nossa mente deduz, com erro mais ou menos grave, que, quem nos vê, nos imita facilmente.
        Com mais ou menos convicção, todas as famílias se consideram aptas a ensinar, e muito mais a educar os filhos. Os pais mesmo muito jovens não hesitam em afirmar isso,  mesmo que o seu próprio desenvolvimento não esteja terminado. no caso da aprendizagem na família em relação aos novos membros As tentativas e erros, a forma mais vulgar de aprender, torna-se no primeiro obstáculo ao ensino. O factor tão forte, aparentemente convincente, foi ao longo de séculos, a noção errada do instinto maternal ou paternal que, junto com o afeto guiariam intuitivamente, os pais a sabem o que necessitam para a educação adequada aos filhos.  Porém, diante uma mãe que tem uma cultura acima da média e que segura um filho nos braços, um psicólogo, ou um pedagogo, facilmente repara quanto essa mãe, altamente especializada em diversas áreas, ignora a causa das reações e o sentido das ações dessa criancinha, o seu querido bebé que, ao longo dos dias apresenta reações e comportamentos que não é capaz de entender.
       Por isso, obras para futuros pais, deviam ser implementadas porque só o amor não basta e “de boas intenções” diz o povo com a sua sabedoria ancestral, “está o inferno cheio”. Aquele serzinho minúsculo que, nos observa carregado de curiosidade, tem uma tal resiliência que nenhum adulto conserva durante a sua vida. A sua energia é quase inesgotável e absorve muito mais do meio ambiente do que se julga. A sua atenção, em constante movimento, está carregada de motivações complexas e de intromissão no que se passa à roda. A criancinha não tem consciência disso, por se desconhece a si mesma, se confundir com os outros e as coisas numa amálgama de percepções vindas dos diferentes órgãos externos e internos, que tornam o primeiro ano de vida o ano mais trabalhoso de todos.     O mais simples jogo tem um grau de aprendizagem e a mente vai organizando os dados até que se dá o milagroso e fantástico progresso que é a noção de ser um corpo com uma consciência. A  confiança nos outros é tão completa que durará, com maior ou menor dificuldade, a vida inteira. Nascemos e conhecemos o mundo com a convicção inata de que todos nos querem bem.

 

 

 

A crença confiante no Outro é universal

 

     Com uma vida longa e muito preenchida de mil tarefas ligadas à educação e ao ensino, Manuel António Janeiro Acabado, 1888 – 1970, é um nome meio esquecido e também um pouco estranho. Natural da aldeia de Pias, em  Serpa, foi professor e criador do método de aprendizagem de leitura com o seu nome,  mas as suas inovações e intenções principais foram esquecidas. Deve ser um caso único em Portugal. Muito lido e estudado, como autor didático de iniciação à leitura, os seus projetos pedagógicos mais intuitivos e fora do ensino formal, não se levaram a sério.   Os seus casos de sucesso foram ignorados ou negligenciados. Mas tinha razão. O ensino da leitura poderia e devia mesmo ser iniciado muito mais cedo como preconizou em 1941. Há fases críticas que deveriam ser vistas como criadoras de novas etapas que se negligenciam e depois nunca mais se recuperam. As implicações de uma leitura, iniciada mais cedo, têm os maiores encadeamentos no progresso e, muito especialmente quando o ensino se prolonga até tão tarde. 
        Hoje em dia a adolescência é uma fase que se prolonga excessivamente em termos de dependência familiar e com resultados desfavoráveis quanto à responsabilidade que o jovem devia ter sobre o seu destino, a sua aprendizagem da vida ativa que tanto altera a personalidade..    A revolução que queria é possível. Aos quatro anos, qualquer criança pode iniciar-se com grande êxito na leitura. Sem excessos, nem muito tempo porque nessa fase o tempo é, comparativamente com o adulto, muito longo.
        Se as suas ideias fossem levadas a sério a revolução seria incalculável. Assim o afirmou e, por experiência própria, assim me aconteceu. Se conheci Janeiro Acabado aos quatro anos, deslumbrei-me com as gravuras, as palavras eram transparentes e choquei a ler o conto “O Gato das botas” com justificado gosto. É claro que esse livro na minha mente infantil era de uma beleza que já não encontro, mas já aos cinco anos lia com gosto e correntemente. O método simples da visualização de objetos e depois a sua transformação em palavras, assentava no conhecido e nem sempre bem aplicado, método global, (derivado da teoria Gestaltista) .  As palavras, de grande Tornava as palavras simples como “Asa, Égua, Igreja, Ovo e Uva” elementos mágico para entrar na linguagem escrita, no universo do imaginário infantil e abrir amplos horizontes. A simplicidade com que Janeiro Acabado explica as suas ideias tem paralelo com o resultado que obteria, se o seu plano fosse levado a sério.

 

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A imaginação completa a Gestalt

 

     Um livro bem pequeno, com gravuras coloridas de grande simplicidade, acabava com o conto infantil de “O gato das botas” e era uma entrada no mundo das letras com resultado risonho e a certeza de não esforçar em excesso a mente infantil.   Basta pensar no tempo gasto em tantas tarefas inúteis que estão muito aquém das capacidades das crianças. Esses desenhos, depois dos “girinos”  e das “garatujas” não foram nunca levados a sério para passar a escrever simples bolas e riscos. Mas, só com isso, temos a estrutura para a escrita de todas as palavras. Os desenhos infantis são importantes, mas a capacidade de perceber as letras e de as associar surge, ante de ser exigido e de ser um dever a cumprir.
        Infelizmente, atrasam-se anos preciosos de aprendizagem. Ao entrar no mundo simbólico e na linguagem, a mente infantil alcança capacidades que a psicologia negligencia tanto. A criança tem uma imaginação imensa, mas pobre. É reprodutiva, não criadora. É vasta mas não transformadora em algo original.  Tenhamos a certeza de que não há um só mundo mas dois mundos paralelos entre o adulto e a criança. Esta vive simultaneamente na fantasia e na sua realidade subjetiva.
         Ao repensar o ensino, Janeiro Acabado devia ser revisto. O seu trabalho tê-lo-á  afastado, em grande parte, do que se pode considerar inovador e capaz de revolucionar o ensino. As funções que exerceu assim o demonstram pois foi, além de professor, inspector, vogal do júri único dos Exames de Estado do Magistério Primário, Vogal da Junta Nacional de Educação e Presidente do Júri dos Exames de Adultos.  Na verdade, temos de reconhecer que o analfabetismo, hoje mais conhecido por iliteracia, tem muitos degraus e etapas e nos anos quarenta uma ação a favor dos adultos tinha enorme valor.  Na década de quarenta do século passado, foi um percursor, com a publicação de uma obra “Ensinemos a Ler” 1941, da Campanha Nacional Contra o Analfabetismo. Isso tinha um impacto enorme para o nosso país onde o interior as aldeias eram a fonte da riqueza nacional, muitas famílias, devido ao isolamento ou parcos rendimentos, não dera a devida atenção ao ensino das crianças.
[A]

    A sede de ensinar a ler, escrever e contar correspondeu, nessa época, a um meritório trabalho então realizado. Todavia, a outra inovação, face aos nossos tempos, é de incalculável valor.

 

 

   

 

  A criança aprende, muito facilmente,  com grande utilidade e sem a prejudicar, uma série de vocábulos que são a chave da porta para a alfabetização.   A esse percursor, muito antes já, em 1887, também se junta menos simplificada e diferentes propósitos  a famosa “A Cartilha de João de Deus” [B]

    “
Este método acentua o aspecto da compreensão, salienta as funções da memória, da atenção e do processamento mental da informação durante a leitura” mas está longe da simplicidade do globalismo que pretende Janeiro Acabado.  
Implica uma compreensão da língua que não tem acesso uma criança de quatro anos, mas um bom uso de cantilenas e “entre a fala e a audição, na continuação da linguagem oral, “a análise e a síntese não são operações separadas, mas operações intrinsecamente ligadas”.[C]
    Quem se recordará a famosa questão: “Ó Pedro, a quem  deste  o livro de capa verde que te deu o teu avô?” A toada melódica tornava-se facilmente memorizável, mas já a visualização para palavras é bem mais complexa.

 

 

O uso da melodia traduz-se numa grande facilidade de memorizar

 

     O cerne da questão, a iniciação natural à leitura, numa fase muito mais precoce, é o segredo de muitos êxitos que a história conta. O cientista e percursor do eugenismo, o inglês, Francis Galton, a grande escritora de obras para crianças, a russa que se tornou na conhecidíssima condessa Sophie de Ségur, (1799- 1874) grande político Winston Churchill, (1874-1865) nas suas “Memórias” e centenas de crianças anónimas beneficiaram desse segredo e conquistando aptidões que foram fulcrais para toda a sua vida.  A descoberta mais importante e pessoal, do início precoce da leitura, nunca foi posta em prática, mesmo pelo próprio Janeiro Acabado, que foi Diretor de uma Escola do Ensino Primário, para além de muitos cargos de relevância que desempenhou ao longo da vida.  
        Respeitando o ritmo de desenvolvimento cognitivo, deve ter-se em consideração que o genial Piaget e outros psicólogos,  na realidade, não foram pedagogos. Piaget era filósofo e, a sua Obra Magna “A Epistemologia  Genética”, tem esse  objetivo, como aliás a sua obra. A sua celebridade é irónica pois é no campo da pedagogia e psicologia que mais se fala dos seus métodos.
         A  “idade dos porquês” remete para uma curiosidade extrema da mente infantil  dos três  aos quatro anos, o atomismo filosófico e a fase metafísica dão-se à roda dos 5 anos, com um descuido enorme por essa curiosidade tão forte.  As perguntas e os raciocínios infantis misturam o seu egocentrismo, com o animismo e a busca das origens das coisas. Tudo isso foi extremamente estudado, mas na verdade, a história está cheia de evidências que por estarem tão perto dos nossos olhos, não se notam.
        Também a médica italiana, com influencia psicanalítica, Montessori partiu de um pressuposto que nunca se devia esquecer. Começou com deficientes e crianças problemáticas a construir o seu método. A ordem e os períodos sensíveis de aprendizagem são realmente dois pontos muito importantes no seu trabalho e dos psicólogos que se seguiram. Podemos mesmo ter a noção de que “há um período em que o individuo aprende e fora do qual dificilmente aprende.”
        Foi com Rousseau que deixamos de considerar a criança como um adulto em miniatura, o que foi excelente, mas é bom recordar que este filósofo nunca foi professor de crianças, nem mesmo o tentou. Os seus ideais românticos levaram-no a imaginar um método “natural” que só se iniciava verdadeiramente aos doze anos. Até então, a criança não precisava de ter professores aplicados, mas sim pessoas que respondessem às suas questões. Muito jovem ainda, Rousseau (1712-1778) era um devorador de livros, o que hoje se diria leitor compulsivo. Sendo quase uma criança, chegou ao ponto de roubar ao patrão, para quem trabalhava, para os comprar e acabou por ser despedido. A sua atribulada vida deambulante e o seu carácter não deixaram de permitir que fosse um génio. Para os psicólogos, o estudo da sua personalidade coloca-o  muito perto do psicótico e com receios de ser perseguido e morto por inimigos reais ou imaginários. Na verdade, não se sabe ao certo se morreu de morte natural, ou envenenado

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Neste livrinho, o autor propõe, de modo categórico e persuasivo, o ensino aos quatro anos de idade

 

 

    Se existem tantas crianças, absolutamente normais, que aprenderam a ler aos quatro anos como Janeiro Acabado propõe, o resultado de uma tal prática modificaria completamente  o ensino. Se não se pode dar bifes a um bebé, as papas aos quatro anos são um exagero. Os belos programas educativos que são dados aos jovens pais acerca do que aprendem os seus filhos de tenra idade, estão carregados conceitos pedagógicos, mas muito vazios de realidade. O “estudo do meio” por exemplo, pouco diz, mas a sinceridade e a amizade entre crianças são pontos que os programas não tocam. Todavia, sem valores éticos e estéticos como poderá despontar uma personalidade com responsabilidade cívica e humana no que há de mais universalizante.
       Veja-se a habilidade musical de certas crianças que, com disciplina e alegria, formam orquestras e tocam maravilhosamente diante de plateias encantadas.     Agora, imaginemos, apenas imaginemos apenas que, tratávamos as crianças respeitando-as como tal, mas sem as infantilizar, e aprendiam mais cedo a ler? Que resultados mais surpreendentes não teriam se iniciassem mais cedo a leitura?

 

 

A curiosidade e a aprendizagens abrem  rumos novos.

 

 

 

    As características das próprias crianças dão tal possibilidade e esses métodos de adultos, formulários, sem a verdadeira experiência com a infância no seu dia a dia informal.
    A mente infantil absorve, como uma esponja, os mais variados conhecimentos que, por vezes, deixam os pais assombrados e orgulhosos. O ensino pré-escolar é muito negligenciado em termos afectivos e de caráter. A especialização psicológica desses educadores devia ser máxima e não uma continuidade maternal sem bases científicas sérias. A etapa que vai dos três aos seis anos é riquíssima em possibilidades de aprendizagens diversas. A aquisição de valores de camaradagem, de sinceridade, de honestidade, de respeito pelos outros e até de justiça com mil formas didáticas e objetivos pedagógicos, dariam um novo fôlego ao ensino.

 

A possibilidade de ensinar as primeiras noções de matemática também foi uma sua grande preocupação, aplicando o método global.

 

 

   Reforçar a leitura e aumentar o vocabulário daria às ideias de Janeiro Acabado uma revolução. Na altura, poucos adultos levaram a sério essa espantosa descoberta. Basta pensar como, facilmente, crianças com sete anos podem saber ler e teclar num computador, que é bem mais simples do que um piano, e a revolução no ensino ainda não começou.
         Nunca se explorou, ou valorizou essa riquíssima fase do modo adequado às suas características mais condensadas num mundo tão sensível à mudança.     A descoberta das capacidades que toda a infância encerra está muito longe ainda de se realizar. Janeiro Acabado foi um precursor revolucionário.
          No dia e Portugal e de Camões, em 1956 foi condecorado pelo presidente da República, General Craveiro Lopes, com o grau de Cavaleiro da Ordem de Instrução Pública. A admiração e as homenagens não lhe faltaram, mas o reconhecimento de uma das suas mais valiosas intuições não coube nos programas de ensino.    As experiências, que algumas mãe levam pacientemente a cabo, dão inesperados muito mais profundos resultados do que a “formatação” indiferenciada excessiva da creche e da pré escola. A individualidade, no início da existência, permite uma aprendizagem extremamente fascinante. A aprendizagem atenta a cada criança, e não em programas comuns, corresponde melhor às etapas de desenvolvimento que são possibilidades que depois se perdem.
       Janeiro Acabado levantou uma tese que levaria a uma verdadeira revolução no ensino.   Com aumento cada vez maior do tempo de duração de preparação para a vida ativa, as ideias de um início mais precoce da aprendizagem mostraria, num futuro, gerações de jovens com potencialidades redobradas. Isto sem falar na negligência crescente com os supra dotados e as capacidades específicas de cada um, que tanto nos diferencia logo na infância. 

 



NOTAS:

[A] http://www.drealentejo.pt/intranet/deposito/205196/JA_2.htm

[B] http://www.joaodeus.com/associacao/detalhe.asp?id=6

[C] http://www.joaodeus.com/associacao/detalhe.asp?id=6