"  Um outro Natal " 

  • Sobre o que se não diz

 

    ©  Lúcia Costa Melo Simas ( 2015 )

 

    

"  Profanação"

" Frutos que apodrecem.  Jardim Botânico.  Porto. 2010)

  © Levi Malho.

 

 


 

 

 

Que símbolo há aqui?

 

 

 

    

Não descasquem a cebola

 

No período do Terror, ou simplesmente o Terror, até a famosa Nossa Senhora de Paris passou a ser um templo da Deusa Razão. Veio o cientismo, o positivismo, o industrialismo, o pós modernismo…     O triunfo aterrador da razão que a todo o lado quer chegar. Até às estrelas!
    A irracionalidade passou a ser só animal, extravagância e os valores umas relatividades respeitáveis ao ponto de se proibir proibir.    Desapareceu o templo da Razão porque o seu culto se espalhou tanto que não é preciso mais apregoar a racionalidade vitoriosa que canta em carrilhões de milhões de luzes sem calor em redes de fios onde números e palavras circulam incessantemente.  A lógica instaurou-se até atingir o absurdo de obedecermos à ordem, à organização, classificando sistematicamente “todas as coisas no seu lugar e   lugar para cada coisa”, e  coloca de fora muito. Também o Natal.
    É assim que na ordem instaurada pela globalização, o Natal está do lado de fora! Desordem, nascimento, emoções, lágrimas, risos.  Não entra no discurso, nem metricamente preparado. Na ordem e na lógica fria, o Natal estiola-se. 
A simbólica do Natal remete para uma universalidade única difícil de colocar em poucas metáforas.
    O Natal é percebido por muitos como o descascar de uma cebola. A ideia vem à mente quando se pensa que, ao tentar encontrar a cebola se vai tirando as suas diferentes cascas e por fim nada resta. Chorar-se-á para que volte o sonho?
 

 

 

      O essencial perde-se nas mãos que esperam o visível e o espírito do Natal é o invisível, o inefável sentir que se vive no seio de um imenso Milagre ou então as cascas da cebola não existem. O invisível mais perfeito é o Ser. Os primeiros filósofos tentaram dar uma aproximação do homem aos domínios do Ser. Parménides, será sempre o Venerável pelo poder do seu Verbo Há quem prefira “ficar às portas”…Com um bom empurrão, entrem sábios e ignorantes, soberbos e humildes, entrem todos pois é no âmago do Ser que se festeja o que mais belo temos entre todos os homens de todo o globo de semelhança. E o Verbo se fez carne A metáfora do Homem nascido, da luz, do amor, da ilimitada confiança no Outro.  O Menino. Puer Aeternus.
       O Menino Jesus repousa nu. Surge despojado e Nele se concentra a Vida, a condição humana no cerne da sua Verdade. O resto? Não há resto algum. Só futuro. Nem é preciso ser crente, até um agnóstico, quanto mais um cristão tem de ver que se inventou a Festa de todas as festas. O culto cristão encontrou o princípio e o fim do homem, a sua constante oportunidade, a sua esperança.


    Queria reservar a palavra esperança para a última linha do que escrevo, mas não há outra que traga mais alegria, serenidade e autenticidade ao coração, até ao mais triste ou solitário até ao mais desatento das realidades imateriais.  O Natal é o Ser que se manifesta no milagre da celebração da Vida. Essa espantosa realidade tão materializada e comercial que só me parece se confundir, no desespero de ter mais e mais, no desespero de receber e de descobrir que mais se pode ainda ter. Que mais terei eu, se já caminho no Ser? Não descobrir a existência é confundir as cascas deitadas ao vento, desprezadas, como a Unidade que se tem no Milagre de sentir.   Os milagres são a negação da razão. O puro irracional. Mas também são o Ser, na sua manifestação mais real e profunda.
     Aproxima-se o Solstício de inverno! A Noite mais longa onde nasce o primeiro sinal de Vida, bem oculto, nas entranhas da terra. É demasiado fácil e por isso se torna difícil escrever sobre o Natal. Há sempre o risco de trocar o acessório pelo essencial.   Não há acessório no Natal! É.
     Por isso a humilde comparação que fiz com a cebola. Tudo são cascas, vão o essencial e o acessório, o que se deita fora, o marginal, o excluído, o real, a Verdade. O Ser que se patenteia invisível e tão próximo que está dentro de nós e não o vemos, sentimos e nem aceitarmos que isso é a Verdade. Gosto de ver o brilho doce das laranjas, estrelas e metáforas. O Natal, por vezes, traz perfumes. Mas por favor, não chorem, não, não chorem. A cebola é algo tão vulgar, tão modesto e humilde…
Não descasquem a cebola, por favor, é Natal.

 

 

A Noite esconde o Bem mas a Luz do Mal atrai, cintila, fascina…

 

 

 

 

 

                          O NATAL E O ÓDIO

 

Paradoxo. Quanto maior a árvore de Natal mais esconde o Menino. A árvore cintila, engana, é o vazio do símbolo há muito perdido nas florestas. O Menino é a Festa universal de todas as festas porque é Puro Amor. Se há metalinguagem para Natal esconde-se em Milagre. A linguagem  perde a razão de ser no Milagre. Só resta o espanto. Um espanto que só tem expressão no silêncio, na porta fechada a qualquer racionalidade, na “epochê” do mundo que habitamos e, de repente, entramos num mundo onde cada palavra é vã, varrida por um misterioso sopro do Divino.   Aqui a voz se silencia, saímos de nós mesmos, flutuamos numa atmosfera rarefeita onde só um pouco, muito pouco mesmo do humano permanece e regressa o Sagrado no seu imenso esplendor.
       Natal habita o Sagrado no homem mas apenas lhe dá estalagem. A porta do Milagre abre-se o Natal, na sua total pureza surge e, de novo, cá fora, o Menino é a Festa.

 

 

 Este é o Homem nascido  para ensinar a amar Milagre no Mistério do Universo.

 

    Mas o Milagre acabou. Agora o menino tem frio, chora, tem fome…  Os homens nunca aprenderam a lidar com Milagres porque não os sabem encontrar.

 

 

 

Por trás da cortina que se pode encontrar?

 

 

  Colocam o Menino por aí. Nu e de braços abertos a pedir Amor. Metalinguagem de euros para lavar o menino, dar-lhe banquetes com champanhe, filhoses, Mp3, Videogames, espetáculos de tanto brilho que o Menino chora ainda mais. Para onde foram as canções de embalar que dariam sonhos de anjos ao Menino?   Colocam-se palavras bonitas, letras bonitas na boca dos corações vazios ou carregados de ódio.

 

 

 

O imenso VAZIO que ninguém vê

  

    O ódio é o anti milagre. A cintilação mais forte do Mal que atrai, fascina, embriaga. Amar o ódio não é paradoxo é Poder. Amar o ódio é ter força, matar, humilhar, devastar a própria erva por onde um Atila passa com os seus cavaleiros, os hunos que hoje pululam pelos centros comerciais em saques mais sofisticados, mas não menos fatais.

 

 

 

Por onde passam nada deixam de pé. Terra queimada!

 

 

Depois da furiosa cavalgada, ficarão por terra, lindos papéis feitos para rasgar, caixas para partir, milhões de coisas que são lixo, apenas lixo, lindo para ser lixo.    Pode parecer paradoxo mas é real e mortal.
       Os ódios pequeninos, mesquinhos, os espíritos sarcásticos, os eternos invejosos, matreiros, excessivamente curiosos são a longa sombra do grande Mal, o Ódio ao Outro, por ser Outro. existes.
       Existes logo Odeio-te! Intuitivo, e evidente porque no cerne da luz há a escuridão. A grande luta na Humanidade inteira é a do Ódio contra o Amor. O Ódio ao rico não dá paz, gera mais Ódio. A igualdade é monotonia, a liberdade o Impossível.   Ninguém pode “dar as mãos” senão vazias, nuas. Não se paga num menino para o vestir de moedas de ouro, dar-lhe salmão ou frutos exóticos. Depressa os meninos abrem os olhos, encantam-se com as luzes, têm mil necessidades necessárias e o cortejo começa…  com coisas, milhões de coisas a fingir dádivas e a distribuir cobiça, inveja, ódio, tanto mal.

 

 

 

Que é isto?

 

 

 

A SAGRADA FAMÍLIA A NU

 

O vazio que cega e não se enxerga. Como são coloridas as capa das revistas pelo Natal Prometem tudo, suplicam a atenção, a nossa mórbida curiosidade, os nossos pequenos demónios que acordam delirantes. Não há amor, há a venda dos nossos ódios embrulhados em plásticos e redes de sereias dos novos tempos Com tanta sereia em excessos, chega a banalidade. Exclamações distantes, gritos de curiosidade saciada:

 

 

 

A Sereia é a serpente do quotidiano que chama …

 

     “Está tudo perdido”. Francamente ainda não se encontrou todo o Mal. Há muito mais para lançar na Praça.
Só se ouve o Medo maior quando nascido do Ódio. Como é infeliz o rico porque tem e dá coisas e nem uma gota de amor lhe mata a sede.      Escrevo banalidades mas a Verdade é a fome do Amor que avassala o mundo. Comida para um Corpo com a Alma morta? Venham chefes de cozinha, ou coveiros da alma, que o corpo com nada se satisfaz. Nunca o bastante basta.  O Amor nasce pobre, todos nascem carentes de Amor.
    Alguém me chamou. Que coisa mais curiosa. Perfume açoriano. Bem caro, com caixa brilhante.

 

 Perfume de chá verde?

 Arregalei os olhos. Disseram já a justificar o meu pasmo e até repulsa

  Purifica, sabe?

 

 

 

A linguagem da pureza é perfume de chá?

 

 

 

 Purificar só se forem os sentimentos mais simples, mais fraternos, com a ternura na sua pureza de olhar. E repete, insistente:
        ---- Purifica, sabe?

        --- Não sei, não! Só o Amor Puro. A essência do espírito em caixa de essências materiais. Paradoxos de novo!
   
  A criança é sábia, ensinar a Amar. Não lhe ensinem o Ódio. Na metalinguagem do Feliz Natal vai o Vazio, a corrida, a pressa, o seguir para diante, para a luz que mais brilha e mais mata de ódio. O olhar frio não o diz as palavras: Tenha um bom Natal!  Imperioso tenha por obrigação “bom”. O que é bom? Atiro para a metalinguagem e o bom volve mau, odioso, perverso.

 

 

Por trás da máscara e nos olhos que nos fitam...

 

     O Mal choca, mas impressiona, atrai, conquista facilmente. Depois banaliza-se, torna-se nosso doce pão de cada manhã. Horríveis notícias. Cada vez piores, mais horríveis. Nunca são bastante.
        Tenho de ler isto com mais atenção! Atentados? Mortos? Inundações. Ah!, como se vende o horror. Uma foto vale milhões se for de um vivo a morrer.  Mais alguém ainda quer espreitar e dar a todos a foto fatal.
        --- Também quero ver!

     Os analfabetos do Amor têm as mãos cheias de coisas, carregam sacos de Poder, vestem imagens, espelhos do Mal, reflexos que cegam..   A pureza do Menino nu é Amor total. Veste o Futuro e só por ter assim as mãos vazias é que há carinho, ternura, Amor.

 

 

Na serenidade ----As mãos vazias é que podem oferecer...
(Madona de Rafael)

 

    Anúncios, apelos, banalidades. Não vêem o lixo? Gente que é gente de verdade e que em metalinguagem se esconde o mais perigoso lixo tóxico?!    Gente que está a mais porque há ainda coisas a menos. Haverá sempre necessidade mais coisas e de ter mais…
          Que se faz com o lixo limpo e o lixo tóxico? Só temos uma Terra, uma Humanidade e nem se sabe que, quanto mais se come mais a fome aumenta até destruir.     O mundo morre à fome de Amor. O paradoxo é dar coisas, dar com a porta do coração fechada. Todas as portas são símbolos de medo, de ódio de indiferença. A porta para o mundo do Amor é estreitíssima. São Pedro sabe! A Porta que nunca se fecha anuncia o Milagre.
      O Menino pede Amor, tantos o pedem e morrem à míngua. O rei Midas tinha um poder maravilhoso, mas ao quer comer tudo que tocava se transformava em ouro. Paradoxos da Fome do Mundo.   Enganam-se os olhos com tanto que se vê, mas não se engana o Espírito. Paradoxo real de dois reinos: Ódio ou Amor?

 

 

Luz ou escuridão Paradoxos do escuro para cegos de sempre

 

 

Não há metalinguagem para desdobrar em milhões de explicações o Milagre. É demasiado grandioso e belo. É Natal.

 

 

 

                             Tirem o rótulo!

 

 

    É que não tem preço… Natal? Em casas fartas de comidas e cheias de fome? É uma bofetada do absurdo no rosto dos inconscientes. Natal são valores de humildade, lealdade, honestidade, pobreza de um presépio onde o Homem nasce nu.
      O mundo morre à fome e falam em ter e ter sempre mais. Tanto vazio, lixo, ou podre…Na cultura da morte, o ontem é o lixo de amanhã. 

 

Não compra

 

 

    As crianças têm de amar, abraçar, brincar umas com as outras e familiares. Não as ponham diante da TV., para assimilar sossegadinhas mais violências, alienações e invejas do que nunca terão. Natal seria Vida a brotar, em afetos sinceros e nunca os acessórios, lindos embrulhos para rasgar e dentro o Vazio porque sem Amor nada é.
         O Natal é… tudo começar de novo, a prometer Esperança.     Vi e ouvi, entre o espanto e a máxima incredulidade, um douto sociólogo, teólogo, numa entrevista a um impávido e inapto entrevistador, repetir, vezes sem conta, que o homem é um ser para si”.
    Para onde foi a transcendência da Condição Humana, a consciência que o Outro nos dá, a comunidade onde se aprende a amar e a ser livre?

 

 

 Nós torna-se na Humanidade. O Encontro é a desaparição de todos os Outros, uma unidade reencontrada.

 

 

     “Quando o homem se individualiza, regressa à matéria; quando ele avança no sentido duma convergência com tudo o mais, em direcção ao Outro, torna-se Pessoa...”  As palavras do visionário “jesuíta proibido” o grande Teilhard de Chardin, paleontólogo, teólogo e filósofo (1871- 1951) soam como o grande risco da subida para o Espírito ou da queda para a Matéria.

        Afinal, que é a fome? O rei Midas mitifica uma fome de ter que o impede de Ser Pessoa pois transforma tudo o que toca em objetos. Seres humanos transformados em mercadoria com fama, venda sem fim. Tudo se compra? As consciências também?    Cegos para a vida! Surdos para o Outro. A falar de Natal e a recordar a mãezinha a mandar entregar uma esmolinha a mendigo. Há ricos que são mendigos de Ser e ninguém se apercebe porque o fetiche do objecto brilha tão forte como o Bezerro de ouro com que se deparou Moisés ao descer do Monte Sinai. Até Marx via na Bíblia o que os cristãos não entenderam na ganância das falsas necessidades.
       Aprender a falar do Outro como mendigo que bate à porta e a não se ver a si mesmo mendigo de fome de Amor? Paradoxo de quem nada dava pois nem há partilha, nem justiça? Ser sociólogo a vida inteira, sem falar da Mulher e do Outro, existência fulcral para surgir o eu e brotar o Nós!.
    A confusão entre efeitos e causas. Para quê escrever tanto acerca do marido que bate na esposa? Efeitos, só efeitos. Onde estão as causas? No Diário dos Açores, 14/12 passado, a psicóloga Susete Frias, ao falar da “Violência no Feminino”, em meia dúzias de frases, remeteu coerentemente o problema para as suas verdadeiras origens. A história da Mulher só vale inscrita na História da Humanidade. O cristão só se enquadra numa visão de complementaridade do sofrimento da condição humana, desmistificando tantos tabus acerca da biologia feminina e as suas características hipocritamente vistas como vulnerabilidades. O sofrimento não é banalidade é real.
       É do sangue palpitante de vida que nasce cada novo ser humano carente do Outro, numa prova da transcendência do “fenómeno humano”.   Na falta de Natal há a cegueira dos bonzinhos das causas nobres que “saem do seu conforto” a disponibilizar umas horas. E o resto é a Vida?
    Abre-se a televisão para ver programas de culinária! Mais e mais comida! O inconsciente a gritar a fome recalcada de quem morre à míngua de amor. Pão e circo, é isso? Sem alimentar bocas famintas de Verdade, de Amor, daquela Paixão que levou um Menino a morrer na cruz.

    Pai, perdoa-lhes… Eles não sabem… Séculos e século a comer não acabaram com a fome. Aumenta, transborda, assassina a natureza. Quantos corpos a arrotar jantaradas perderam algures a alma que morreu de fome!
    Comer para viver, ou viver para comer? O Espírito morre enforcado na árvore de Natal que tapa o homem nu a nascer nas palhinhas, sem colchão que lhe tire a artrose, a miopia, a ganância.

     “(…)
toda uma vida de esforços nada pesaria se eu pudesse, apenas por um instante, mostrar aquilo que eu vejo”... Teillhard de Chardin. Mas quem consegue Ver?

     Não se proíbe porque ninguém irá ler obras que despertam para o lugar do homem na natureza, o evolucionismo criacionista da nova visão hegeliana no seio de nova espiritualidade. 
A festa mais bela é a mais difícil de ver. Depois deixa a boca amarga. Festejam o solstício pagão e não a festa do Outro que somos todos nós. O Natal é, no seu cerne cristão, mas pede a universalidade dos seus valores.
   
    O homem nasce para o outro, ou morre de fartura sem alma. O mundo tem fome de amor. Não se vende, nem compra. Moralismo macio que aqui deixo? Rei vai nu ou, como Ionesco, “O rei está a morrer" ? Solitário nas multidões e a incomunicabilidade do Egoísmo “o querido Eu” kantiano e narcísico.

     Não desejo a ninguém boas festas. Antes, com  espanto, que se tornava em sorriso cúmplice, pedia:
Dêem um melhor Natal aos Outros.