"   Miragens do Presente " 

  • A Força das Palavras

 

    ©  Lúcia Costa Melo Simas ( 2015 )

 

    

"  Do que se esconde"

" Janela em Miragaia. ( Adaptada por "software") .Miragaia. Porto. 2001)

  © Levi Malho.

 

 


 

 

 

Nem sequer é certo que Luís XV tenha afirmado" L´État c´est moi”, mas quando uma famosa e conceituada  jornalista declarou com veemência:
     “O Estado somos nós” a sua palavra espalhou-se como um rastilho. Um erro deselegante que depois, mesmo sendo mentira, levou muito boa gente a imitar, a repetir e depois a esquecer. Todavia a força da palavra da dita jornalista estava mais na convicção com que o disse do que no conteúdo.

 

Figura  1 - Depois da comunicação quem vai refletir sobre o conteúdo do comunicado?

 

 

 

    No palco do espetáculo é importantíssima a convicção da comunicação, mas não é verdade que se mantenha depois na escrita. As mentiras transformam-se em verdades fugazes mais facilmente na oralidade em que a veemência da convicção de sente mas se perde na leitura atenta.

 

 

Figura  2 - Depois da palavra ao vento, só fica o exame do que foi escrito

 

 Os grandes protagonistas da História não o são por vontade própria, pois os interesses e as necessidades não vão ao encontro da vontade individual, Hegel diria paixões” dos indivíduos que só se transformam em vilões ou heróis de acordo comum contexto. A verdade seria assim uma qualquer Ideia que a maioria aceita. Seri confundir ideologia com verdade pois esta existe, só que é muito mais difícil de aceder do que se julga.

 

 

Figura  3 - O tédio do pobre rei, carregado de boas intenções, que herdou dívidas e guerras depois do brilho do Rei Sol

 

   

    Quando o bom rei Luís XVI, escrevia no seu diário, a acreditar que isso é verdade, que o dia 14 de julho em França, no ano de 1789 fora um dia sem nada a assinalar, não lia o jornal, estava aborrecido de consertar relógios, um seu passatempo preferido e a tomada de uma coisa tão pouco importante como a Bastilha, com meia dúzia de presos e uma amotinações mais, não tinha qualquer relevância no devir histórico. Concordo plenamente com o bom rei.

 

 

Figura  4 - Ao passar por estas maravilhosas salas, como podia o Rei recordar-se da fome e miséria que nunca em sua vida lhes mostraram e nem imaginava que a História pudesse ser como lhe tinham ensinado?

 

    No meio das dificuldades de consertar relógios e de resolver problemas com ministros, que lhe mostravam as terríveis dívidas e o estado catastrófico das finanças, as políticas e diplomacias com o exterior, uma fortaleza a mais ou a menos, face às necessidades das festas na corte que isso não o afetou.

     Que se passou? Assaltaram a Bastilha?
      Mas, aquilo não passa de uma velha e quase abandonada fortaleza? Nem uma dúzia de presos havia por lá!

    Se desaparecera Calonne, apelidado pelo povo o “Senhor Défice”, Necker não lhe agradava no seu vai e vem de entra a sai nas finanças até se demitir. Foi para a Suíça e em boa hora assim se retirou pois salvou a sua cabeça da temível guilhotina. Tudo o que Luís XVI desejava para ao França e o que aprendera com tanto esforço não estaria de acordo com a célebre Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão que, na mesma altura da tomada da velha fortaleza, surgiu.  No seu palácio de Versalhes tinha tantos problemas para resolver que jamais sonhou que aquele episodiozinho seria o grande símbolo da Revolução. Revolução que lhe tirou a coroa da cabeça e depois a separou do corpo.

 

 

 

Figura  5 - Retrato de Luís XVI Apesar de tentar copiar o modelo do seu Avô, há um certo ar de decadência  sombria que distingue bem o neto do seu antepassado.

 As cores brilhantes são lugar a uma nostalgia de mau presságio.

 

 

      O ano da graça de 1793, em que foi julgado e condenado por um Tribunal criado pela Convenção Nacional, é o resultado de uma série de acontecimentos de tamanha transformação na sociedade europeia que eclodiu em França uma dessacralização do poder que deu pesadelos a uma série de cabeças coroadas. Foi esse receio que levou a nossa família real, com o nosso rei D João VI, a ter uma ideia luminosa e a zarpar para terras mais seguras. Se tivesse pensado em vir cá para os Açores, ou mesmo para Angola, eis que a História seria outra.  
        Napoleão, em Santa Helena, não se recordava de Josefina, nem da campanha da Rússia, mas resmungava, com certeza com algum pasmo ou irritação, contra D. João VI, “ o único rei que o enganou”.

 

 

Figura  6 - Se a ovelha não fosse lobo, Napoleão, ao morrer, não se recordaria de D. João VI de Portugal

 

 

     O que temos a considerar sem hesitação é que não há os tais “se” na História pois, para além de nenhuma mente ser tão brilhante que saiba descortinar quais os acontecimentos mais importantes do seu quotidiano, também a dita “teoria dos jogos” em ciência política é sempre uma forma perigosa, se bem que muito interessante de procurar entender os jogos do Poder.
     História como ciência política ou mesmo ciência política vem de Aristóteles, que criticou as duas cidades de Platão, passando pelo Renascimento para chegar a uma Filosofia positivista de Comte ou um determinismo do materialismo histórico tão impossível como a existência da Ciência da Verdade. Quando todos têm a sua verdade, não há verdade que resista a ser mais do que uma versão bem subjetiva da realidade. A força das palavras não resiste se for mera comunicação.
    Por certo que uma jornalista, empolgada na sua peroração, nos pode levar a ficar espantados, mais ou menos convencidos, mas depois aparece um pouco de bom senso e o calor da palavra gela depois da reflexão.  Comove, mas não move.
    A tomada da Bastilha, sem o acompanhamento da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão que ficou escrita e já fora formulada em muitos rascunhos nas mentes dos iluministas, e sem a declaração da independência da América seriam o que na época medieval se chamava nominalismo de  “flatus vocis,” vozes ocas, querela que, noutros moldes, se repete no dia a dia do Facebook, numa caótica dispersão de formas de ver e pensar tão subjetivas que com um salto acrobático e de malabaristas que dali passa para a formação da “opinião pública”  e também esta todos os dias se altera, tão ingénua e desapercebida das realidades, como o velho diário, que não sei se ainda existe, do rei Luís XVI. Parece que ainda teria perguntado à sua volta:

    “Isso foi  mais uma amotinação”?

 

 

Figura  7 - A pena que escreveu Morte ou Vida desapareceu Mas não se esquece o que escreveu.

 

    Retome-se o nosso papel de gente da nação portuguesa e deixemos o Estado português, ou outro qualquer, um Poder instituído ser mais do que “ flatus vocis” e uma realidade que qualquer Governo tem de respeitar. Camões ou Pessoa podem exagerar, a retórica assim o exige e os génios não nascem todos os dias, mas o orgulho de sermos a nação portuguesa, nobre povo, --- que paradoxo! ---  não nos deve abandonar.