"  Escavar no Silêncio " 

  • In Memoriam. Augusto Simas.

 

    ©  Lúcia Costa Melo Simas ( 2015 )

 

 

 

    

"  Rosa, rosam"

" Azulejos floridos. Mercado do Bolhão, Porto. 2009)

  © Levi Malho.

 

 


 

 

Uma vez, tive o azar de proferir uma frase que caiu muito mal entre as pessoas que me ouviam. “Esta sala está cheia de mortos!

Além do susto, caiu sobre mim a acusação de espiritismo. Alguém ainda retorquiu que não acreditava “nisso”. Uma série de pessoas, algumas até bem notáveis, que a morte aparenta silenciar, disserem algo semelhante. Talvez por isso me recordei que escavamos tanto no silêncio e é na sua ontologia que a aparência se mostra tão frágil e perecível.  Todo o ruído  é breve e acaba por se remeter para o silêncio.

    Em vez de ser o nada, o silêncio é. Nadificar o silêncio pode ser simplesmente dar-lhe uma interpretação valorativa que não se resume a tal. Julgar que o silêncio seja um vazio, ou somente um valor é falso. Na realidade é ontológico e valorar o silêncio é já dar uma certa qualidade ao ser. Assim se altera já a realidade. O silêncio é o grande cadinho onde se ocultam milhões de explicações acerca da realidade.

    Quando se afirma que os cemitérios estão cheios de vozes silenciosas que governam o mundo viramos do avesso o que é a aparência para ver outra realidade mais autêntica. A nossa liberdade, ou o que assim apelidamos, tem tanto de herdado que mal saberei o que sobra de nós.

Leis, revoltas, hábitos, literaturas, loucuras ou genialidades nascem de um silêncio que até espreita pelos nossos olhos. Estes nossos olhos com que os nossos antepassados trogloditas que nos possibilitam de espreitar o mundo são um legado carregado do seu silêncio que em nós fala. Até percecionamos o mundo por uma herança que nem sabemos onde começa e que encontramos no silêncio, quer por hábito comum ou um esforço de ver o que se pode descobrir aos ombros dos gigantes que nos precederam. 

 

    Quantas complexas camadas de defesas, que usamos necessariamente, precisamos de romper e de escavar para nos libertar do quotidiano, dos hábitos, das dores dos outros e, se só estivermos atentos à superfície das águas dos lagos ou rios, acabamos por não para ver um pouco melhor outras realidades que se ocultam silenciosamente?

O nosso raciocínio busca a causa das coisas, é certo, mas não aprofunda muito. Cansa, faz perder a corrida no tempo, é contra o bem-estar que dizemos tanta vez, merecer.

Contentamo-nos com aquilo que parece mais coerente mas é talvez apenas por hábito ou preguiça que de não procurar mais longe. A busca da realidade obriga a um tal esforço de quebrar silêncios que raramente parece valer a pena. O cansaço leva a que se diga Amanhã pensarei nisso.

Mas esse amanhã é como o letreiro para o fiado que se dará num amanhã que alguma vez se concretizará no nosso próximo e último silêncio.  Se não houvesse amanhã, o silêncio ensurdecia-nos de espanto e de terror. E, na realidade, o amanhã não existe. O que nos atrai mais facilmente são as vozes, os sons a que chamamos diálogos, discursos, melodias. Prestar  atenção ao que não dizem mas que também está contido no que se diz exige um esforço contra os ruídos. Para dizer é preciso não dizer. Para afirmar é preciso negar.

 

     Os cemitérios e  as igrejas, outrora situavam no centro das aldeias, recordavam a presença da morte sempre sem data marcada, mostravam bem quem governava os vivos. Hoje, as cidades são mudas. O tabu da morte é tão real que não de diz. As pessoas desparecem e tenta-se logo esquecer.  Afastamo-la das nossas vidas como também afastamos o silêncio. Esta civilização é do ruido, das falsas vozes, símbolos e signos que perderam o seu sentido. Quanto mais nos enganamos ao imaginar que nos afastamos do silêncio, mais este se torna mais forte e governa a superfície porque as “ flatus vocis” são as sereias do mundo. Descobrir o Ser é captar a verdade porque ao escavarmos encontramo-nos com valores e ainda outros numa constante descoberta de que as sereias desaparecem. A verdade existe é certo, mas é no silêncio que termos de procurar.

 

    Morte, onde está a tua vitória?

    Numa gargalhada de um doido que acredite que que o silêncio não fala. Os mortos vivem entre nós com mais realismo e verdade do que todos os vivos. Ainda são os mortos, esses que melhor dirigem as nossas motivações, escolhas e pseudo -liberdade.

    O ódio aparece mas só por existir a multiplicidade de formas da mais falsa e negativa até ao Amor Absoluto, ontológico e rotunda verdade. Aí os contrários diluem-se e as aparências esfumam-se. Aí é cinza ou fumo sem fogo. As formas de ódio não são mais do que as aparências negativas do Amor que no silêncio comanda. Só que o homem é um de tempo breve. Todos se arriscam a enganar-se, mas o silêncio não engana porque é. A essência não fica às portas do Ser. A essência é o próprio Ser Absoluto e, o Absoluto que não seja Amor, não é Absoluto, mas apenas vozes que se perderam nos labirintos das aparências A ontologia do ser é também a do silêncio. Insistimos nisto ao escavar mais e mais todo o silêncio que encontramos em busca do que é nosso por herança humana. 

 

Descobrimos que o Amor é ser, na sua essência e o ódio é a forma mais pobre e horrível do amor. Só há dualismo na aparência, pois amar o mal, é erro tão obscuro que se leva a vida toda a escavar no silêncio se quisermos chegar às portas da Verdade. O Amor é a forma mais invisível do silêncio mais forte. O amor, nas suas mais diferentes manifestações essenciais, não qualitativas, é a força maior que governa o mundo. Afinal quem diz que odeia, também diz que ama. Amor tão pobre que a si mesmo se engana e toma por real as falsa vozes.
    Amar o silêncio, essa essência de que partilhamos, é estar a caminho do Amor Absoluto.