"  Ridendo castigat mores " 

  •  Segredos do Sorriso

 

    ©  Lúcia Costa Melo Simas ( 2015 )

 

 

   

 

"  Um sonho de Castafiore"

 ( Capitão Haddock. Museu TinTin. Bruxelas  Bélgica. 2007)

("Cartoonista" Belga  Georges Remi (1907–1983), desenhando e escrevendo sob o pseudónimo de  Hergé. )

 © Levi Malho.

 

 


 

 

 

 

Figura  1- Um sorriso é gratuito e pode abrir até a porta do coração

 

Longe vai o tempo dos fotógrafos profissionais e dos dias de festa, em que o sorriso era obrigatório para uma foto para a posteridade. Até as criancinhas, aterradas com a complicação das máquinas, que desatavam num berreiro, e aparecia uma voz repetia:
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Olha o passarinho!

    Erguendo o braço no ar, o fotógrafo armado da maior paciência, ou já desesperado, ajustava e tornava a ajustar a máquina, desaparecia da vista de todos, sob um manto escuro e tirava mais uma cópia para depois não haver enganos. O poder do sorriso foi exaltado pela semântica romanesca e o seu uso reveste-se de mil variáveis no mundo dos humanos. Apesar dos poetas cantarem tanto as expressões do olhar, a boca é mais traiçoeira para quem mente, ou quer disfarçar uma multidão de sentimentos. Diz-se mesmo que “ o homem é o único animal que ri.” Duvido um pouco da afirmação, tal o modo como certos animais reagem a situações divertidas, ou alegres. 
     Duvido da verdade disso, pois há situações em que animais domésticos, muito humanizados, exibem um certo ar divertido, bem perto do sorriso e em que o olhar colabora. Nem todos estarão de acordo, mas o sorriso mais célebre de todos os tempos, é o da Mona Lisa, a Gioconda, do quadro de Leonardo Da Vinci. Um ícone de interpretações diversas, qual delas a mais estranha ou mais complexa. Quando os cientistas se interessaram pelo misterioso sorriso trataram de usar tecnologias avançadas e, com um computador da Universidade de Amsterdão, detetaram pela estatística que a dama retratada estava 83 por cento feliz, 9 por cento angustiada, 6 por cento assustada e 2 por cento enfadada. Nem por isso a atração pelo enigma desapareceu. O enigma, mais do que explorado em vez de diminuir, tem adeptos ferrenhos em cada geração.

 

 

 

Figura 2 - O mistério da Mona Lisa

 

 

    Gente aos magotes que nem sabe bem o que vai ver e o sem significado, passa diante do quadro no museu do Louvre, com pasmo, reverência, admiração ou em cumprimento de uma liturgia turística. Uma das surpresas é o quadro ser tão pequeno e de alguma forma dececionante. Há quem, por mais que olhe, não encontre a tão cantada beleza. Respeito bem a opinião alheia mas, nunca me fascinou muito esse quadro e menos ainda o sorriso.
     P
ara mim, há sorrisos infantis que são bem mais espantosos. Um bebé confia em todos e, quando está bem-disposto, não há mais lindo sorriso. Temos a certeza de ser genuíno, espontâneo e verdadeiro. Por isso, o seu sorriso cativa, contém ingenuidade, confiança e, se estiver à vontade, sorri sem escolher a face que a contempla. Um sorriso leal e franco num rosto, mesmo desconhecido, tem uma empatia e humanização que aproxima as pessoas e valoriza a interação. Numa longa espera, com toda aquela tensão nervosa que se apodera de todos, onde havia muita gente cansada. Mas uma criança que corria por todo o corredor, como se fosse um belo jardim, atraia a atenção de todos. Feliz, inconsciente da situação, divertia-se só com as suas próprias capacidades de improvisação. Entre tanta gente que lhe sorria, uma idosa destacava-se pelo seu aspeto pouco agradável e rosto desgastado pela vida.
    De repente, foi para essa desconhecida que estendeu os braços, com o mais confiante dos sorrisos. As crianças não distinguem raças nem idades, nem condições sociais. A sua segurança, depois das vinculações, é uma intuição vital que nos garante a confiança no Outro e no Bem, muito antes do mal.
 Ao observar o pequenino quadro da Mona Lisa, fico desconfiada que está sempre a conter-se para não desatar às gargalhadas, a rir-se de nós, já farta de estar naquela mesma posição por imposição do pintor.

 

 

Figura  3 -  Estou farta de estar aqui Nunca mais acaba de pintar ?

Francamente! Haja paciência para isto.

 

    Não entendo porque se estuda tanto o riso e o humorismo e tão pouco se investiga o sorriso. Recentemente, como há cientistas para tudo, um famoso professor doutor portuense, Armindo Freitas-Magalhães, (1966- ) tornou-se especialista, célebre no estudo da expressão facial, das emoções que cada rosto exprime e pioneiro de estudos do sorriso, a que chama “essa curva simples que tudo pode endireitar, um dos principais organizadores do psiquismo humano e uma fonte segura de recompensas pessoais e interpessoais”.  [1]

Confesso que não li a obra toda, por isso, não sou uma investigadora de nada, apenas gosto imenso de observar e pensar com os meus botões, que ainda os uso. Em declaração à impressa, afirmava o investigador: "Persisto impelido em fazer de cada face um laboratório habitado por famintos pontos de interrogação,

 

 

 

Figura   4 - O professor Freitas-Magalhães.

Um enigma indecifrável no rosto, comparável à Mona Lisa, mas sem sorriso.

 Espanto-me por que é que o especialista do sorriso não sorri. Seria, por certo, importantíssimo aprender com o especialista português

 

 

        Se estudamos o sorriso, fora do romantismo poético, temos de separar os géneros.  À mulher, de qualquer idade, mas em especial às jovens, pede-se e quase se obriga a sorrir permanentemente. De outro modo acusam-na de mal-humorada.     É a mais subtil expressão do rosto humano, logo a sua multiplicidade é extrema, dependendo da habilidade e necessidade do seu uso, ou dos sentimentos que expressa ou disfarça.

 

 

 

Figura   5 - A diferença da obrigatoriedade do sorriso entre homem e mulher.

 Pobres princesas e que enigma escondem estes rostos tão diferentes?

 

 

     Quantos cativantes sorrisos são enganos invisíveis de adulação, vaidade mal escondida, sedução, verde inveja, frustração agressiva. Mas lá pela cor, o sorriso também pode ser amarelo e, nesse caso, retirando conotações racistas, os “amarelos” estariam sempre a sorrir. O sorriso amarelo quer dizer forçado, irritado, cínico ou forte embaraço. Também as jovens orientais, pelo uso do leque, escondiam o sorriso, pois era inapropriado ou escandaloso, mostrar os dentes. A boca é bem mais capaz de atraiçoar o seu dono do que os olhos. Sem querer, a face atraiçoa a mente, tal como a ereutofobia, ou seja, o medo de corar, que surge involuntariamente e com mais facilidade nos jovens do que em crianças e idosos.
    As crianças, na sua simplicidade e inocência, não precisam nem sabem o que é. Os idosos perderam, pela estrada da vida, o embaraço ou a necessidade de corarem. As pessoas adultas coram pouco. As faces tomam tonalidades roxeadas quando é de raiva, ou outra emoção muito forte, por isso lhes dão apoplexias ou os denominados presentemente AVC. Com um esgar, a fingir um sorriso contrariado, para não demonstrar a fúria que arde no peito, é a isso se chama riso amarelo. Pode ser até um forte ataque de inveja que se diz ser verde, mas as cores não têm de combinar e, por ora, só há risos amarelos.
    Durante muito tempo, era um cliché usual no cinema que o vilão, ou o malvado da história, soltasse alarves gargalhadas bem estridentes, antes de praticar as suas pavorosas maldades, possivelmente para arrepiar os espetadores, retirando-lhes qualquer veleidade de sorrir. Hoje isso, mais nos parece comédia, pois o riso numa pessoa furibunda é difícil de conciliar com essa gargalhada fatal tão usada no passado. Seria trágico, sem qualquer comicidade, imaginar uma gargalhada do sorumbático ditador Hitler, ou do sisudo Mao Tsé Tung antes das atrocidades que cometeram.   Ainda noutros casos, quando o sentido de humor é mais requintado não é acompanhado de fortes gargalhadas, de fazer estremecer paredes, mas de sorrisos inteligentes onde o espírito se revela.
         Fala-se tão bem do sorriso que se esquece o seu efeito perverso. Ao observar o pequenino quadro da Mona Lisa, não vejo uma jovem em quem possa confiar, mas uma pessoa que se aborrece e está farta de tanta especulação à sua volta.

 

 

 

Figura    6 - De noite, no Louvre, deve aborrecer-se muito.

 

 

    O quadro pode valer milhões só por isso, mas é sempre um sorriso meio desconfiado. Na sociedade do consumo, estudam-se e distribuem-se sorrisos pelos possíveis clientes e só por estes. O sorriso passou a ser por todo o lado, mais uma arma para vender produtos. É exigido, em certas empresas, que os trabalhadores sorriam enquanto falam ao telefone com os clientes, pois o som da voz é diferente e bem mais sedutor ou agradável. Nos bastidores, só há caras carrancudas e desaparece a alegria.
        Recordo que a rainha de Inglaterra, Isabel II, tinha um rosto carregado e pouco amistoso quando não sorria. Foi avisada do efeito que causava quando aparecia em público Então, treinou-se a sorrir em qualquer lugar e hora onde tinha de comparecer e acabaram por nem falar no seu riso, nem no mau humor. Agora, quase nem falam dela. Um sorriso é uma arma diante de uma situação que corre mal. Partir um prato, deixar cair objetos desastradamente ou em situações embaraçosas aparece um sorriso. É ver como quem fala nos noticiários, ou noutras ocasiões similares, ao enganar-se, ou gaguejar, ou aparecer antes das câmaras esperarem que se apronte, procurar como desculpa, oferecer um sorriso embaraçado embora discretamente, a lembrar um escolar quando erra diante da turma. Na realidade, o receio do professor é quase nulo, mas o da turma pode ser aterrador. Os dois medos juntos pedem a ajuda do sorriso e a turma fica solidária e firme.
    Para mim, é quase incompreensível perceber como artistas, em especial bailarinos, mantém durante tempos infindos, um sorriso, transformado num esgar congelado, como se fosse uma máscara. Dançam, saltam, fazem piruetas, trepam para trapézios e ainda sorriem.

    Os cientistas e investigadores que escrevem sobre o sorriso deviam dar aulas. Com discrição treinariam políticos, sindicalistas, empresários, tantas figuras públicas, e, pelo menos, aumentava o otimismo e todos já os reconheciam. Nos Estados Unidos, pelo que sei, o riso é mais democrático, mesmo entre os republicanos. Não há congresso, em que não se conte anedotas ou se alegre o público. Em Portugal, tivemos um presidente que pouco sorria, um que sorria de mais, irritava-se se não sorria e continuou a sorrir, mesmo depois de deixar de ser presidente. Um sorriso de regresso teria sido um bom lema, para a campanha que quis. O qye temos nesta segunda década do século XXI, sorri, quando devia estar sério, e esta serio quando devia sorrir. Por se enganar tanto acabou por vir aos Açores e recordou-se cá enquanto contemplava verdejantes prados que lhe faltava o queijo francês “La vache qui rit” Por um lapso freudiano de que ninguém deu conta, teve o que se diz lapsos língua e foi falar no sorriso das vacas açorianas e até ofendeu as francesas.

    Daria uma beliscadura à “la vache française” e um conflito ou atrito económico europeu não tivesse emendado com o sorriso das vaquinhas açorianas que sorriem contentes por terem campos bem verdes para sua alimentação.
    Em Inglaterra, ainda na Belle Époque, o sorriso da rainha Alexandra, esposa de Eduardo VII,  foi motivo de admiração e inveja, por isso se tornou-se moda na velha Albion e nos EUA, o “sorriso da rainha”.

 

 

Figura 7 - O famoso sorriso da Rainha Alexandra de Inglaterra

 

 

    Pelo que li, não faltaram professores londrinos a ensinar esse sorriso especial a prendadas jovens com requintes carregados de um tremendamente ridículo de imitação, com todos os trejeitos da cara e da boca que os professores penosamente tentavam conseguir em cada rosto, fosse ele feio ou bonito, gordo ou magro. Nessa altura estávamos muito longe de ter o nosso pioneiro em análises de sorrisos, Freitas-Magalhães que em Inglaterra, nessa altura, teria um sucesso espantoso. Agora tem um congresso na Suíça mas, com certeza, não terá tantas damas à sua espera.

 

 

 

Figura    8 -  Um rosto pode ser apenas um sorriso mas ilumina, por vezes, mais do que o sol

 

 

    Quer queiram quer não, as rainhas tinham deveres de cargo e representação e serem sorridentes, era essencial. Por um acaso vulgar, estive horas num aeroporto, como passageira em trânsito.  De súbito, reconheci um conhecido ator do cinema americano que passava. Creio bem que se espantava por não ser reconhecido. Olhava para os rostos que por ele passavam e parecia mesmo pesaroso e desagradado. Ao olhar para mim, sorri-lhe manifestando apenas que o reconhecia. Era o já idoso mas sempre homem de espetáculos, Joe E Brown (1892- 1973) Ah! Como o rosto se modificou. Sorriu tão contente como uma criança a quem dão um doce. Desapareceu por uma porta VIP, mas como ia alegre.

 

 

 

 

Figura   9 - Joe E. Brown, um rosto do passado num filme de sempre.

Ao lado do ator Tony Curtis.  ( Filme que passou bem tarde nos Açores.)

 

 

     Muitas vezes, não é fácil sorrir. Mas dar sorrisos para todo o lado, para aqueles que menos parecem merecer, é um meio bem simples de distribuir fraternidade, otimismo, alegria. Sem demagogia, um bom sorriso pode tornar cada dia surpreendente para quem só vê rostos preocupados, fechados, sem vontade de sorrir. Nem sequer é preciso falar porque o sorriso fala por si. Os de que mais gostamos são os que não são ensaiados, nem são para votos nem para nada. Acredito que o que não vale nada, nem no mercado, nem na Bolsa, nem em lado algum onde possa ser transacionado, esse é o sorriso mais maravilhoso do mundo. Quantos desses sorrisos já tivemos a alegria de receber e dar!

 


 

        NOTAS

 

[1] A Psicologia do Sorriso Humano, Universidade Fernando Pessoa, 2006. Porto.166.p.