"  Memórias de Zenão" 

  •  O inefável encanto das Tartarugas

 

    ©  Lúcia Costa Melo Simas ( 2015 )

 

 

  

 

"  Lentas, as águas"

 ( Canal de Bruggen em tarde de chuva. Bruggen. Bélgica. 2007)

 © Levi Malho.

 


 

Gosto de tartarugas, grandes e pequenas, sem exceção. Olho-as e fico a admirá-las, sem mais complexos de gordura, algumas pesam mais de 200 quilos! Até consigo andar mais depressa, sentindo leveza e imensa compreensão pelos lentos. Elas avançam a mais de 360 metros por hora, pouco comparável com a velocidade da luz. Mas todas as comparações são tão ridículas. Afinal, quem está parado também anda.

 

 

Figura 1 - O encanto que se lhes descobre depois de ver bem, é infinito.

 Zenão de Eleia teve toda a razão é a escolher É a serenidade no tempo.

 

Detesto que lhe chamem réptil quelónio pois tartaruguinha é muito mais gentil, para animais tão mansos. Ainda há quem coma sopa de tartaruga! Felizmente que, o mais certo, é conter na sua delicada carne uns bons metais tóxicos e outros que acabam com a vida dos comilões. Lewis Carrol não podia deixar de a incluir, no país encantado de Alice. Tratou de escolher uma tartaruga e cuidou em ter a estranha forma de uma “tartaruga falsa”, um paradoxo completo, que gostava de cantar e dançar e tinha tantas histórias para contar apesar de ser triste. Na minha escala estética é o animal mais atraente de todos com qualidades que mais nenhum tem. As tartarugas já vivem cá há milhões e milhões de anos e estão prontas a dar lições aos apressados, sem rumo certo.
    Um jovem tem, quando cresce, o desejo de ter casa. A tartaruga tem uma mal nasce sem hipotecas ao banco. O homem gosta de mudar de casa e de lugar. A tartaruga muda de lugar com a sua casa quando bem quer. O homem passa vida a tentar não envelhecer. A tartaruga, se a deixarem em paz, vive mais de 150 anos, mais do que o nosso Manoel Oliveira. Sem fazer filmes.
    Quando tem medo, o homem chama a polícia ou luta para defender-se e ao seu lar. A tartaruga encolhe os ombros e logo desaparece na sua casa, deixando os inimigos desapontados. O homem quando viaja tem muita bagagem e anda de avião de um lado para o outro. A tartaruga vai de um lado para o outro e ainda leva a casa consigo. O lugar para onde os milionários gostam de ir é para as Caraíbas ou as Seychelles. Muito antes, as tartarugas escolheram esses locais para lá viver e conviver com piratas, ou com quem tem off shores, o que é parecido. Os piratas mudam, as tartarugas nem tanto.

 

 

 

Figura   2 -  Assim se perde. Assim se ganha.

 

No seu andar lento, a tartaruga atravessou séculos através da fábula de Esopo. Recorda às criancinhas preguiçosas, ou aos políticos, que não contam com a memória curta do povo a lição dos que são teimosos e capazes de resistir a tudo. Agora a lebre, sua adversária, tornou-se no Pernalonga, ou “Bugs Bunny”, mas este é ainda uma criança diante das tartarugas, nasceu em 1940, por artes de Tex Avery, tornou-se a mascote de muitos e o coelho mais conhecido do mundo. Sortudo, desmiolado, tanto trabalha num dia, como se deita a dormir uma semana.
   
What´s that, doc?  Com a sua frase preferida, surge de repente, causando arrelias a muitos e alegrias a outros.

 

 

Figura   3 - Tem um olhar encantador, mas não é de confiar...
What´s that, doc? 

 

    A tartaruga mantém sempre o mesmo ritmo. Lembra um político determinado, ou um empresário, daqueles pesos pesados, ou até o passo de um burro que sabe onde quer chegar. As metas são mais fáceis para as tartarugas que sabem italiano Piano, piano va lontano.
   
A mais célebre de todas as tartarugas é a do genial filósofo, Zenão de Eleia. Nunca ninguém lhe passou à frente e nada me fascina mais do que a sua vitória sobre o herói Aquiles, dos pés mais ligeiros de toda a Grécia. A vitória da tartaruga sobre Aquiles mostra que a filosofia, mesmo nas tartarugas, vai à frente das ciências, e Einstein se ganhou fama com a relatividade, já a tartaruga chegara lá. O espaço é divisível, ninguém é capaz de o negar, ou de parar de dividir espaços, e então caímos numa aporia sem saída com essa divisão. Aquiles parte um pouco atrás da tartaruga, tem de percorrer um espaço que se divide uma, duas e mais vezes, até ao infinito, por fim cai no espaço infinito, petrifica-se e nunca alcançará a lenta tartaruga, que se ri como uma danada do herói, da ciência e de nós todos. Para gáudio de Zenão, o sofista, e perplexidade da multidão que o deseja contrariar, a tartaruga nunca se deixa apanhar. Einstein resolveu o problema das dimensões sem nunca conseguir que Aquiles ganhe qualquer corrida contra as tartarugas. A nobreza destas e toda a sua aristocracia de sangue azul está centrada nas ilhas Galápagos, o principal laboratório vivo de biologia do mundo, depois que por lá passou, meio distraído, Darwin que só ao chegar a casa repensou e tornou a repensar melhor no que lá vira. Foi então que se deu conta do que verdadeiramente descobrira: As tartarugas mais genuínas do mundo.
    O mais lento vence o mais veloz. As lições ficam na corrida que alguém inicie. Primeiro, vale a pena correr?
 

Ir à frente não significa chegar primeiro. Ter experimentado não é ser experiente. Antes da chegada, todos podem cantar de galo. Importa mais saber onde se quer chegar do que muito andar. Forrest Gump, de Winston Groom e o filme do mesmo nome, é o exemplo do homem simples, ingénuo  carregado de simbolismos, quase como o Pernalonga,  que corre toda a vida sem saber porquê e passa ao lado dos acontecimentos mais célebres da própria história. Todavia de que nos serve a História? Winston Groom escrevia no final da sua obra  “Posso ser um  idiota, mas a maioria das vezes tentei fazer o que devia ser feito. Além disso sonhos são só sonhos. Ao menos a minha vida não foi aborrecida. Compreendem o que quero dizer?

Por isso nada tão inefável como o encanto das tartarugas. Devagar que estou cheia de pressa. O mundo é maravilhoso para quem descobriu que a pressa nos rouba o que de melhor podemos encontrar e não tem preço.