"  Séculos de séculos " 

  •  O regresso de "Orpheu"

 

    ©  Lúcia Costa Melo Simas ( 2015 )

 

 

 

"  Dias de Heraclito"

 ( Canal de Bruggen em tarde de chuva. Bruggen. Bélgica. 2007)

 © Levi Malho.

 


 

Arre! Já de novo o logro de mais um centenário. Logo o de Orpheu. que foi entre aspas num ano apagado com fogo de guerra ao longe.

 

 

 

Figura   1   - 1915 Em plena guerra convulsões interna eis que surge o Orpheu

 

 

Quantos centenários se festejam num só dia? Portugal tem mais um século, depois de 1915 e que sucedeu a Orpheu? Uma ressurreição suspensa de rebentar em revolução e mais uma adiada. Um “cadáver adiado”, muitos crânios que fumavam vulcões de lava, depois veio o tempo de mais cinza e mais regressos a um quotidiano  de muitos jantares de caldos requentados.  Um berro de agónicas criaturas, logo travado pelo cansaço da luta. Abulia de inícios, quando a decisão já era verdade.
    Inglória será cantar a vitória de ver melhor e depois esquecer. Acaba sempre em ser mais uma geração de que se fala. Talvez nem o fosse nem se perdeu. Temos ainda os mitos das gerações fantásticas. Ardeu foi uma labareda com o génio de Fernando Pessoa, sempre excessivo, até no nada e no ser, permanecendo no meio de tudo, vivo e presente no que nos legou. Que são cem anos?

 

 ARRE, que tanto é muito pouco!

 Arre, que tanta besta é muito pouca gente!

 Arre, que o Portugal que se vê é só isto!

 Deixem ver o Portugal que não deixam ver!

 Deixem que se veja, que esse é que é Portugal!

 Ponto.

 

O Portugal nunca será esse que Orpheu inventava num dia claro que se derramou em chuva. O Portugal que não se vê, é o óbvio que passa desapercebido de intelectuais, pelas estradas comuns, ruas, casas, de hora para hora, é o anónimo e crente, amanhã voltará aqui, sempre numa promessa que se fez espera. Um punhado de areias, levado pela longa paciência do vento, ocultando vinte dinastias de faraós, enterrados nos desertos dos quais não conheço senão os camelos. Diante disso que eternidades, Portugal perdeu? Que representa um fellhá, no Nilo de milhares de séculos, mais do que eu, que me perco nos mares e oceanos,  como quem se perde nas areias. Afinal, todos se perdem.
    Mas eles, Pessoa, plural como o nome, soam estranhos em quem se desdobra mesmo e, de repente, a si mesmo se estranhasse. Eram lúcidos ou até que ponto o queriam ser?
     Em menino, ao ouvir pronunciar o seu nome Fernando Pessoa, e vendo tanta pessoa à sua roda, um certo irrealismo e pluralismo interior deve ter fragmentado um eu que, de si já era gigantesco.  Assim inventa irmãos, como quem inventa amigos invisíveis, pessoas que teriam de estar nele, com um nome tão ingrato de usar, como um colarinho velho, Bernardo, Alberto, Ricardo, um Álvaro de Campos com 27 anos, na escrita a inaugurar-se.

 

 

 

 

Figura   2 - A fragmentação de pessoa em múltiplos eus de si nascidos.

 

 

 

 Era já um sábio velho, para piorar, cintilante arquétipo do Mestre, rebelde de todos, via a sociedade pelo negativo e exigia que visem que não era “parvo”  com “romantismo, sim, mas devagar...”. Nasce com ar judeu e usa monóculo. Será um pouco de Eça de Queirós, a revisitar, na malícia do burilar humorista de cada palavra? A dor que se transforma em humor é a mais intensa e Fernando dá a Álvaro a tarefa de sofrer por ele e de comemorar a dor, depois de já “passar o Bojador.”
     Quando Pessoa se distrai de si mesmo e escreve em torrente de vocábulos estupendamente anunciadores do que era o embate com o passado e o anúncio iluminado do provir, a sombra de Marinetti  e o seu Manifesto 1909, projetava-se vivamente em versos de glorificação do modernismo futurista. Se o Italiano gostava mais de “um automóvel rugindo, que parece correr sobre a metralha, é mais bonito que a Vitória de Samotrácia, muito mais arrojado e profundo o nosso falso plagiador ao comparar o binómio de Newton à Vénus de Milo” 

 “O Binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.

 O que há é pouca gente para dar por isso.

 óóóó---óóóóóó óóó---óóóóóóó óóóóóóóó 

 

 

 

Figura 3 - A espiritualidade de um falso plágio que exalta o espírito criador

 

Há todo um Portugal que nem quer saber de estátuas partidas, muito menos do esquecido escultor Milo e vive bem num porvir já morto. Portugal não se vê nunca, não é que não o deixem, mas sim só sabe viver nas sombras, sereno porque sabe que tem os seus poetas, artistas, loucos que saltam dos bastidores e gritam ao mundo a sua voz portuguesa única. É demasiado sinistro esvaziar os museus e as bibliotecas dos seus ratos.

Filippo Tommaso Marinetti (1978 -1944)  é a audácia de uma força metralhadora que quer destruir de toda a sensibilidade citadina. Anúncio do mal que se aproximava já e devastará a Europa.
     A morte de uma poesia que iria derramar o seu sangue nos campos de batalhas, nos becos escuros das traições italianas. 
Nós estamos no promontório extremo dos séculos!… Por que haveríamos de olhar às nossas costas, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Nós já estamos vivendo no absoluto, uma vez que já criamos a eterna velocidade omnipresente.   Ah com a ingenuidade de acreditar na escrita que não passará do papel! A infeliz cisma de quem se vê  chegar do novo e que traz uma bandeira por quem ninguém nunca morreu.
      Como este demolidor ódio do ideólogo, escritor e poeta italiano é desabrido em torrente tão insensata que se esquece a Mulher e as “belas Ideias” para glorificar a guerra – única higiene do mundo – acabar com o feminismo e trazer a fome e a miséria que tal conduz? 
Nós cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação; cantaremos as marés multicores e polifônicas das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor noturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas elétricas;
   
Daí a tornar-se militante fascista e a desaparecer nas convulsões italianas foi um passo mas deixou influências que em Orpheu se repercutem numa transmutação de valores mais sublimados.  A influência deste Manifesto manifesta largos traços de um imperialismo italiano que nunca aprendeu a antiga e sábia língua de Camões. O Futurismo, em Portugal, arrastava marcas de um passado instável, entre o regicídio e a ditadura, do regicídio à ditadura militar que comportou 45 governos parlamentares em 16 anos que abalavam a esperança politica e social.  Orpheu é o manifesto que queria acender de modo violento, os novos deuses da Técnica e da Industria, abrindo uma caixa de Pandora, sem crença nem certeza no novo mundo
 

 

 

Figura - 4 - Gabardine, chapéu, óculos e uma pasta. O resto é "tudo é não-ser"

 

 

Fernando Pessoa é uma sombria figura que passa apressado, pelas ruas de Lisboa. Por que razão a pressa? Vai ou vem? Na sua mente escaldam milhões de frases conhecidas e autores estudados, talvez essa multidão  só passasse com o “Bicarbonato de Sódio” que em vão reclama, talvez possa ajudar àquela angústia que chamaria metafísica se tal não parecesse pedante. Pessoa jamais foi pedante. Com todos os adjetivos e substantivos, ele foi o intervalo entre tantos eus e um mim, fragmentado entre eles, como quem consegue andar à chuva miudinha e tola, sem se molhar.
    Arre que os centenários, recordam o Ultimato inglês, o fim do século e Camões, almas perdidas, a geração de 70, muitos sonhos iludidos, cansados, ou amordaçados, mais do que canções e liberdades.

 

 

 

Figura  5 - No fim do século XIX o centenário de Camões mais anunciava um fim do que uma glória de Portugal

 

 

 

Portugal é o país maior do mundo por ser adiado. Adiadas as epopeias maiores, as descobertas, os futuros, a ânsia do longe, Portugal é um horizonte infinito. Não será a “pobre ceifeira que canta”, pobre dela, cigarra na sorte, mas sim pobres de todos os cantores de todos os centenários de bolor, em flores que depois desparecem varridas para o lixo. Por isso, não gosto, detesto mesmo, dão-me náuseas, qualquer ramo de flores e tantos jardins em festas onde só com um pouco de sorte se  respira uma flor.E de repente ponho-me a reler Hegel, por entre vocábulos de Campos, também ele, no seu contínuo devir e a ver o real e o racional a tornarem-se, a cada andaime mais alto, e a atingir mais resultado de tudo o que já foi, agora condensado e afirmado no que nos legaram e somos um pouco deles todos, que vivem em nós.
    Vórtice dos tempos, cada um subiu já e caiu. Assim não somos nenhum deles nem somos ninguém. Com todo o processo abstrato que Hegel já engendrara e mais progresso, com mais espírito a soltar-se em busca do Absoluto no seu Infinito.

“Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro.”

 

 

 

Figura 6 - Os centenários revelam o que se pretendia ocultar no tempo que corre.

 

Porque o presente é todo o passado e todo o futuro, se Hegel não está aqui, revolto-me e chamo Karl Marx, mas, por favor,  não venha ébrio de sórdida taberna de conspiradores de Londres. Saia, ao menos por uma vez, mais cedo da Biblioteca londrina, não vá discutir com os amigos e apareça a cantar as fornalhas acesas e os trabalhadores alegres. A soberba obra rebelde de Campos ainda abre a porta a um passado de fornalhas a arder como dantescos infernos onde a alma gela, mais distante já do que somos feitos e assim nós passamos, fogo fátuo que o Enigma repete, sem repetir Hegel, apenas o filósofo de Iena esfrega as mãos por estar aqui mais presente do que eu. Que assim lhe digo a repetir-se:

 

 

 

Figura   7 - A espiral das paixões do homem a realizarem o Espírito Absoluto

 

 

-  Sou eu o Absoluto em mim que se realiza no todo que eu represento. Vá ler a minha obra. Repete e irrita-se porque tem razão e no processo, mas nunca nesse ideal progresso.Hegel, filho de Schelling, antepassado de Darwin,  herdeiro cruel que deseja o trágico para todo o homem. Por quê a Alemanha lida em alemão? Tirano e ditador do verbo que gela em sua mente circular.

 

 

 

 

Figura  8 - Com o barrete do qual a irmã e a esposa troçavam, eis o senhor do Absoluto na sua expressão da maturidade

 

 

Para quê a Alemanha, se temos primeiro um  Vate real, mestre Gil, Camões, Tolentino, Pessoa e somos todos poetas, romancistas que transportam escrito nos corações o seu poema e o seu romance, as suas crónicas de circunstancias, os seus apelos no canto do jornal apressado de angústia. Temos o encontro do seu ponto de Arquimedes e Luís. António Verney, (1713-1792),  com o a negação de si mesmo.
    O meu método é não ter método
pois ele é o método, continuo eu, que nunca tive na mão, todos os métodos do mundo. Grande esquecido, o Barbadinho, arcediago sem peias na linguagem, atreveu-se a colocar mulheres e homens, ameríndios e todas as raças em pé de igualdade! A sua obra “O Verdadeiro Método de Estudar (1746) escrito em cartas é a obra mais polémica da época.

     Não posso escolher sem conhecer muitos. Muitos é uma estrada de mortos por onde passo carregada de cegueira mental, por fracas luzes em cada clareira que encontro.

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E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes elétricas

Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,

E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,(…)

“  Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável”; “Em vós ó grandes, banais, úteis, inúteis”; “Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus”; Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos”.

Parafuso que acorda animado de verbo cintilante, eis que a dura realidade lhe traz o sentido do desumaníssimo de eras onde não há tempo para ser. 

Porém, depois vem aquele acordar para a foto em negativo da sua sociedade ou a de hoje, um qualquer hoje nem lhe coloquem mais datas.

Porque não há nenhuma linha reta e sabia disse, escreveu o sarcástico “Poema em Linha reta”

 

 Ó príncipes, meus irmãos,

 Arre, estou farto de semideuses!

 Onde é que há gente no mundo?

 

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Só Álvaro é príncipe e o resto são os outros grotescos, mesquinhos, submissos e arrogantes, reles e viles.

Quantos centenários, eu já vivi em vão?

 

 

 

 

Figura    9 - Peco e condeno-me por cada aprendizagem que me torna mais ignorante de todas as linhas do infinito

 

 Passaram estupidamente como o acontecimento do dia, mês, ou do ano e adormeceram. Ressonam. Roncam embrulhados em mantas de retalhos de batalhas perdidas. Acordaram uma dúzia de sensibilidades apuradas de cada época e depois de se espantarem, bocejaram e de novo voltaram ao sono interrompido.  Depois crescem na dimensão de se alastrarem como uma nódoa de tinta numa toalha branca. As toalhas brancas já desapareceram, Eram bordadas por  mãos gretadas de frio e dor, para vender e nunca para usar em casa de farturas de sol pela janela e a vela na noite sem luar de alegra moça. Havia, por certo, toalhas engomadas e brancas na mesa no tempo em que “se festejava o dia dos meus anos.” .
    Tanto se diz de tudo o que foi e desapareceu na raiva de nunca  segurar o tempo, o luminoso passado branco e em flor. A sala perde-se de cor no final tão escuro de todos os corredores da memória.

 

 

 

Figura   10  -  As lembranças enganam-se nos corredores da memória

 

Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

E nós? As palmas e os vivas a alguém que passa… Quem passa? Já se esqueceu. Somos as palmas dos outros que se foram. Outros vêm. Iguais até mais não. Outros serão mais um louco canto desesperado de um Orpheu, um punhado de sonhadores, alguns menos sérios e outros até mais não. Traziam casacos puídos, algibeiras rotas dos sonhos que foram derramando das suas desgastadas almas e gritos de rebeldias mortas, dissecadas por críticos céticos, éticos, munidos de instrumentos de exame verbal, semântico, hermenêutico, esoterismos de velhos reitores, obscuras ligações e subterrâneos de um Portugal de bastidores, que também fascinou Fernando, em todas as suas Pessoas, para trautear dedilhar estrofes, deísticos, adverbiar e acenar restritivos, vocativo imperioso de mudança  e milhões de interpretações do tempo comum.

 

 

Figura  11 - Críticos Os abutres da escrita

 

 

.Ah, os grandes adjetivos que se transformam em galinhas para engorda de sonsos. Os jantares, depois congressos da Energia, do Mar, da Saudade, do Céu, do futuro vencido, com convidados de sempre dos “senhores de fraque” que até pode ser ganga rota, mas escondem sempre o fraque. E eu que queria falar da grande vanguarda, dos futuristas, separar modernidades de modernismo e modernices, sensacionistas de pele sensível, de tal modo que se esqueciam da travessia nos nervos para os olhos. As sinestesias inventadas pelo absinto, ou o surrealismo cansado, extenuado de tanto ser usado,  cansado, de ser maltratado, tão  incompreendido. Surrealista que se vende, se afirma cobardemente atento, lúcido e não louco, suicida adiado para amanhã.
    Dizerem o que viam mentindo para que possamos olhar melhor, e ironias, só me choco com mortos, passados, suicídios. Violante de Cisneiros seria bela? A mulher que nunca foi Cortes Rodrigues que a inventou não o era. Ela morreu tisica nem chegou à Ilha, morta de pejo e de timidez da solenidade cerimoniosa do meio social da ilha. Cortes Rodrigues, rebelde só por dentro, com fama e regressões.

 

 

Figura  12 -  A fortuna sorriu ao retrocesso mas depois o bolor da ilha mergulou no grande rio nome e obra de C. Rodrigues

 

Voltar à ilha é regresso manso ao conchego do bolor húmido do passado. A ilha! As amarras cortadas a fingir o longe. Nada está longe. Ontem ou hoje, Fernando Pessoa todo apressado continua a passar na baixa lisboeta, “de outrora agora feliz” que palmilhava para o escritório escrever cartas, traduções, letra bonita de escriturário diligente com impressos, notas. Depois vivia. Enfiava a cabeça nas páginas e escrevia como um doido. Um doido que era um génio fechado num quarto a ver passar o mundo inteiro com seus sonhos de futuro.As paredes são asas quebradas de uma água presa na gaiola em que nasceu. Por isso não sabe voar, só sabe ver. O refúgio de ter janela para a rua!
     Uma Tabacaria, um ar de vida ondulante para assomar no seu rosto um sorriso. Mas por breve que fosse, o gato que brincava na rua, a menina na porta da Tabacaria, a janela onde havia o olhar do poeta viveu e ficou na rua a ver a pequena que comia chocolates embrulhados em papel de prata que pergunto o que é, e ninguém já sabe ou recorda. Confeitaria e ruas de Lisboa ao longe a flutuarem por todo o lado nas ondas da TV no zapping sem destino algum:

“Viajar, perder países, ser outro constantemente… Por a alma não ter raízes. De viver de ver somente! Não pertencer nem a mim! Ir em frente, ir a seguir”.

 Não são as viagens mas o despreendimento de mim, o não ser que nunca fui e não quis, o ser que me talharam e não coube lá dentro. Sobrar asas sem ter corpo, sobrar países que estão nos sonhos que me arrebataram, e me deram outros carregados de fardos  alheios. Porque é que os pesadelos de mim são de outros e sou outra porque me disseram assim? A cada dia vestir o momento, dizer sim em vez do não do relâmpago que me ilumina o espírito, ser outra a cada imagens e de cada vez ver e tornar a ver de modo diferente o mundo, mudar comigo. As viagens foram obrigatórias e as outras  de todos os sonhos são o que delas diz Campos: "Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir. Sentir tudo de todas as maneiras”. Conheço todos os monumentos do mundo. Subi a todos os Everestes. Andei pelos desertos e mares da Oceânia porque fugi daqui para me tornar toda a gente em qualquer lugar onde nunca irei, mas conheço de tanto o olhar no mapa.

 “Ver imagens, ver gente que é imagem. Imagem do céu lá fora, cá dentro no vidro bem perto de mim.

Sei tudo! Sou uma ignorante que se enterra no anonimato.Ouço todas as notícias repetidas até ter bocejos e nem pensar em nada, nem sentir nada. Ser pedra que rola. Ser impossível de não pensar em nada e ver como se os olhos fossem óculos em órbitas vazias.

 

 

 

Figura   13 - No escuro da noite, todas as tragédias morrem na memória

 

 

 Acidente pavoroso levou a embarcação ao fundo. Não escapou ninguém. Sem culpa alguma. Inocentes, todos os mortos. Culpados todos os vivos. Ouço inundações na França, mas um rapaz salvou um cão das águas. Infelizmente a avó foi engolida pelas águas, dentro do automóvel.   Mataram! Quem! Quem? Que importa? Mataram, vai para a abertura do jorna --l- um casal matou cinco filhos e ficou um escondido debaixo da mesa. Caiu um avião de mortos, um grupo de crianças sequestrou uma escola e assassinou 29 professores e uma auxiliar de limpeza.

 

 

 

 

Figura   14 - Saber tudo e estar informado é a sopa dos mais ignorantes de cada dia

 

 

Credo! Não sejas assim. Toma juízo e não repares nisso. Ainda já gente boa. Detesto este ainda. Há sempre gente real com ou sem centenários. Todos são normais precisamente porque ninguém é. Cada maluco com a sua tara e eu com a mania de celebrar tempos que passaram e nada mudou. Verbos e advérbios soletrados na holística paisagem portuguesa, jumento manso, uma árvore no cimo, um fio de água. Paisagem na porta da parede sentada a ver.

 

 

 

Figura 15 - Imagem da infância que tinha asas brancas na parede

 

 

Igualzinha ao passado. Esqueço da data e ontem foi dia de Álvaro Campos começar o mundo de novo. Acreditou. Feliz.

 

 

 

Figura  16 - Só a fada pode dizer sempre feliz no fim

 

 

Realmente, em todo o real, o mal é acordar. Mas depois de despertar o sonho não desperta. Insiste em ser vivo e angustia cada vez mais. Vem ai o dia, o grande dia, centenário ou inauguração de qualquer coisa. Quebrar as rotinas como a criada quebra um vaso vazio e não é castigada

 

 

 

Figura  17 - A abulia que vem do cansaço de começar.

Amanhã... Amanhã a revolta Amanhã o acordar Amanhã o levantar o braço e o grito que ainda guardo na garganta.

 

 

 

 Longe ou perto  tem de haver coisas diferentes, evoluções, revoluções, Manifestos, panfletos, publicidade e  ainda mais um dia para adiar, por cansaço anterior, já antes de começar:

 

Só depois de amanhã...

Hoje quero preparar-me,

Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...

Ele é que é decisivo.

Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...

Amanhã é o dia dos planos.

Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;

Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...

Tenho vontade de chorar,

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.

Só depois de amanhã...

 

Falhamos na vida, depois da India. Eu, que quase  fui à India, falhei mesmo aqui sem precisar de viajar.  Eça boceja. Concordante e escreve bem antes, com a certeza dos grandes, que falam aos pequenos

 “Falhamos a vida, menino!

- Creio que sim... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação. Diz-se: vou ser assim, porque a beleza está em ser assim».

Bocage ansiava a fama camoniana e sentia que falhara o que faltou a Pessoa morto, sem necessitar cela ou prisão. Ele a tinha por dentro. Pobre El Sadino: (1785 – 1805)

 

 

 

Figura  18 - Leal, confesso se desconfessa num desespero da incompreensão de humorista

 

Camões, grande Camões, quão semelhante

Acho teu fado ao meu quando os cotejo!

Igual causa nos fez perdendo o Tejo

 

Todos vamos vitoriosamente aplaudir alguém quando cai. Toda a geração viu quedas sobre quedas e não escapei de me espantar. Alguns participavam e eu ouvi a radio, depois surgiu e ficou o telejornal, rolo de roupa suja de todo o mundo em exposição desfragmentada. Assiste-se sentado a toda a vergonha do mundo onde até alguns esperam aqueles 15 ou senão 5 minutos de fama. Falhamos tudo cá debaixo e a roda do sol. Somos lixo, um imenso mundo de gente cansada e nem sabe que fazer do tempo, quando não é empurrada para o trabalho.  

 

 

 

 

Figura 19 -  Felizmente são poucos, muito poucos os que descobrem que falharam ou o desespero era o pão nosso de cada dia

 

 

Todo o tempo do mundo é dado, mas talvez por isso, o céu parece cada vez estar mais longe, menos azul, menos estrelado, e os centenários mais murchos, como as flores dos vasos das janelas que já não usam cortinas nem vasos, apenas grades de nada ver para fora nem entrar para dentro. Fortalezas de pobres com medo da vida dos que ainda são os mais honestos e não arrombam as portas. Nunca entendo porque não arrombam mais as portas! Só posse crer na bondade quando olho uma melíflua porta que abre só para dentro.
    Só um criador abre as portas de um céu celeste, onde cantarão anjos vindos do inferno  mais do que a vida crua, sem alma, dos números e das pessoas que são mais números que gente. Como gostaríamos de ser Pessoa, Camões, Bernardim, ou alguém que seja feliz. Na verdade, vivemos os sonhos de todos eles sem o saber e por isso temos a data de 2015 ou 1915 com cem anos no meio a fingir que muito mudou no animal louco que se diz o sapiens mais  sapiens.
    Mas já Camões falava do mundo ser feito de mudança. Sem Tejo, nem Tágides  mas o grande rio e de todo o mundo ser resultado do tempo. Depois transformaram em canção que nem embala ninguém. É o mundo que muda pois as pessoas continuam a farsa, as máscaras já Sá Carneiro as encontrou coladas à pele. Pobre Mário. Tão amado morto. Uma asa que quis voar em labareda sem esperar ter outra.

 

 

 

 

Figura   20 - Mário de Sá Carneiro 1890-1916

 

 

A máquina já não tem aquele ruído de automóvel que marcou a presença, inovação, um choque de novidade. Eu vi um avião, minha modernidade atrasada de criança velha. Eu vi, outrora, no hoje comum, o muçulmano que ia para Meca. Sem pôr o pé em terra, em promessa seriamente a sério, transportado ao colo por diligentes funcionários do terminal de aeroporto. Passageiro em trânsito, se em avaria ou paragem obrigatória do longe para o longe. Os muçulmanos nos meus olhos eram a modernidade a aterrar.

 

 

 

Figura  21 -As contradições da modernidade Ida a Meca e parar porque um avião avariado encalhou numa  ilha do Atlântico

 

Antes só conhecera o ladrão de Bagdad, Ali Babá, o marinheiro Sindbad, e agora ali, aqueles estranhos homens, eram de verdade, de bancas túnicas. Não estava em livros comidos em infâncias fechadas.   As técnicas tornadas quotidianas assustam-me como se chegassem mundos de outros astros à terra. Farão sempre centenários enquanto, gentes como eu, ingenuamente cansadas de aprender, julgar que essa foi uma lição esquecida.
    Arre, Arre Apre demasia de centenários que nada são, na aluvião dos acontecimentos mais graves e esquecidos. Deviam-nos esclarecer quando nascemos que não há bússola, nem livro para aprender nem como viver, nem como morrer. Só se devia festejar erros e nunca o dia de fazer anos. Assim, talvez fosse menor o cansaço e muito mais os grandes da humanidade.
    Álvaro de Campo desejava enganar-se, embriagar-se com progressos que já não convencia com o entontecer das máquinas A técnica! A indústria! O Mundo novo… A cientificação dos passos à roda. A rotina imparável e errática do eletrão afeia tanto como a máquina de carvão. Ou mais, porque já não nos leva. Arrasta-nos. Cega-nos de falsos brilhos. Ensurdecem-nos com as fornalhas trazidas do Hades e não do Olimpo.
     O sujeito lírico pessoano era lúcido, mas cansado, tudo era cansaço. Abulia de gerações em remanso de tempos de meias cinzas. Como agora, como sempre. Cansaço. Acabem lá com o fado enervante e digam de verdade que o velho e nobre Portugal sofre é de cansaço e do peso de carregar de poetas, artistas, pintores, romancistas, escritores em excesso, sempre em excesso pelos séculos fora, e como um blasé,  carregado de fastio de já tudo ter viso, recolhe aqui ou ali uma frase do quase já esquecido Eugénio de Andrade, Florbela, Nobre, Irene Lisboa soltam um suspiro desconsolado pelos cantares de amigo. Um Rei poeta trouxe o mar para a terra e a rainha colheu flores. São sempre rosas…

 

 

 

 

Figura    22 - Rosas de todo o ano só em nosso País e para certos olhos

 

Já antes os olhos, Senhora, “os olhos partem tão tristes, tão tristes, que nunca assim outros vistes, outros nenhuns por ninguém. Partem tão tristes os tristes….”

Eu, entre tantos centenários, passo ser formiga em carreirinho de leituras sem saber para que lado fica o formigueiro, se é que há um para mim. Todas as leituras levam a encruzilhadas incertas, infelizes, por dispersas estradas, labirintos de textos escritos sobre os já escritos.. Porque não me ensinaram que a vida só se percebe um pouco mais quando já não se sabe aprender, como eu que recordo apenas  o que esqueci?    O pasmo infantil dos olhos diante do maometano desconhecido, que não podia pôr os pés no chão, ao ar livre, senão em Meca é ainda grande como o mistério dos centenários. Li o Alcorão e a vida de Maomé da curiosidade que veio no avião para a uma ilha no mapa.

 

 

 

Figura  23 - O fio da voz é o rio por onde o maravilhoso caminha de saber o sortilégio de narrar e prende sem fim o ouvinte

 

 

Depois é que conheci “As mil e uma noites” com Rimsky Korsakov por mestre e Sheherazade por guia, na coleção Manecas. A fábula da voz que dá vida, como um mestre que fascina e sabe levar sem morrer a cada nova página um novo horizonte com milhões de perguntas em busca das respostas Sheherazade não morre, só se transmuda em narrativas cada vez mais perigosas, arriscadas com a Morte por traz das cortinas de cada amanhecer.
    Ah! se não amanhecesse. Se a juventude ficasse. Se a verdade iluminasse o escuro. Se a revolta não abortasse em quadro em verso, em rima. Se não…. 
    Foguetes no ar, não atiro não.

 

 

 

 

Figura   24 - O caos ou o nada tanto faz arte zero

 

Agora, são diferentes, esses muçulmanos das cáfilas de Bento de Gois através do oriente do Oriente de Álvaro Campos. Quantos orientes há no Oriente? E onde fica a Europa de Almada Negreiros? Que questionava crianças para desenharem flores . História das mil e uma noites por contar de Bento de Gois, ou Luís Gonçalves de Vila Franca, um louco explorador que já fez centenários e ficou hirto e feio, até ser uma praça para pombas e reformados falsamente mansos.
    Orfeu reformou-se, de vanguarda passou a quotidiano, urbanizou-se em bidonvilles. O nome pedia ignotas florestas, flautas, liras e pastores. A perda de todas as Euridices, a descida ao Hades e no regresso ensandecer e ser morto. Ressuscitar Orpheu foi um gesto de regressos, tantos que nem os autores se deram conta. O Hades é paciente.  Isso tudo foi ontem.

 

Eh-lá grandes desastres de comboios!

Eh-lá desabamentos de galerias de minas!

Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!

Eh-lá-hó revoluções aqui, ali, acolá,

 

 

 

Figura   25 - A Grande Cidade A fragilidade do poder na sua magnificência de metal.

 Um sonho ou novos pesadelos da máquina a comandar milhões de seres humanos cansados todos tao cansados.

 

 

Ainda se estava a anunciar as derrotas da grande guerra, os soldados não tinham voltado e ainda havia esperança de voltarem…

Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,

Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,

A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,

E outro Sol no novo Horizonte!

Profeta fácil do que havia de vir e não veria. Mas isso tudo é só o tudo da hora e por ido…

 

Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto

Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,

Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?

Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,

 

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,

Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,

Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,

Engenhos, brocas, máquinas rotativas!

 

Eia! eia! eia!

Eia electricidade, nervos doentes da Matéria! (…)

Eia todo o passado dentro do presente!

Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!

Eia! eia! eia!

Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!

Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!

Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.

 

Ah, não ser eu toda a gente e toda a parte! Quem não se sente irmão muito velho deste novíssimo modernismo e sensacionismo? Mas tem de haver coragem de ter frio sozinho, de arder em fogo silenciosamente, depois gelar e tudo isto quase em vão?
    Mascaram uma qualquer geração. Curiosidade de novidade acontece mas depois, o pó vem breve cobrir de rotineiro tudo, com bocejos vagamente disfarçados. Gosto de Álvaro Campos e do seu Mestre, deles todos tão verdes e vivos, que me emprestam luz e vida cada vez me sinto menos eu e  sou rotina e, pelo inverso, leio o oposto nos feitos da conquista do espaço, de Armstrong que me roubou a Lua, com uma só pegada. Quando olho a lua, já vejo a lua de tanto tempo passado, releio o Livro, a coragem indómita, e sinto medo de tamanha audácia a ver que haverá um centenário para Armstrong, com vivas e luzes ofuscantes até nem ver a falsidade de lá ir assim como um ladrão que rouba astros, ou apenas luas. Álvaro Campo, português, sem espanto, foi aos astros e roubou toda a nova luz.

 

 

Figura   26 - A lua é a conquista, um satélite do homem moderno, uma possibilidade de além.

A luz não vem mais de lá mas das máquinas ululantes nos seus silêncios

 

 

Há toda a humanidade num só poema triunfal que acaba trágico de não-ser. Esse “não-ser”,  meu intervalo de mim e o onde todos cabem.  Sinto que Caeiro sempre me dirá mais e mais, em segredo, e nunca tudo ficará esclarecido. Ridículo, grandioso, rebelde, anda por ai, vejo-o vagamente,  como quem leva um jornal dobrado debaixo do braço, para não me esquecer que em cada esquina o posso encontrar. Espantosamente perto.

 - Olá!! Como estão todos?

    Perguntei, por perguntar, sofrem  “a angústia das pequenas coisas ridículas” que são imensas,  já sei que bem só a gente príncipes ou semi deuses   Por favor não batam no ceguinho. O Dantas também teve a sua hora. Como é diferente o amor em Portugal e as cartas da pobre “Soror Mariana”, (1915) já amortalhada em vida.

 

 

 

 

 

Estamos todos juntos. Eu, no instante da varanda do tempo, só vejo de longe a grandeza alheia. Ontem era o suicídio de Sá Carneiro, o outro, o Mário, para não haver confusões e o meu desgosto por tudo isto não tem tamanho. É.
    Como Eles foram grandes e sou pequena a passar ligeira. É como esse Portugal real que Portugal nunca vê.
    Arre, ao menos por um dia, uma hora, que seja,  se abram as portas ao Sol que nasce à espera da Aurora, dos-dedos-rosados e lições  de Homero. Sim. Todos têm razão. Confesso. Não sei manifestar condignamente centenários nem criticar, ou melhor comentar passado. Olho o hoje e afinal cem anos passaram. Olho para as janelas de tantas casas fechadas e penso nos olhos fechados de tantas cabeças. Aproveitem! Arrombem essas portas, tirem os olhos do sono e revirem as casas vazias, tão cheias, como logo à noite terão couves, nabos, repolhos bem-falantes. Ruas de casas altas, brancas e de olhos fechados que esperam pacientes os seus donos. Que tristeza me dá, ninguém mais aparecer na janela, deitar com um regador, água em belas florzinhas de plástico sempre frescas. Se abrissem todas as janelas do mundo as casas ficavam vivas! Mas o que haverá é um novo centenário  de património de cimento para as casa de outrora por onde passo agora.
    Já não há lar, nem há casa. Há luxo em prestações. Dormitórios, ranger de portas de carros, apitos fora de horas. Bebés que berram. Há sempre um bebé que berra fora do Orpheu. Que as crianças envelheçam todas, mas umas morrem de bolor, outras ficaram num canto escuro da casa e ninguém deu por nada.  Quanta criança se perdeu por estes cem anos de memórias?
    Aposto que Álvaro de Campos mostrava os seus poemas às velhas tias, ou à criada. Mesmo defuntas, muito se riam nas dobras do avental. Que menino! Que menino!

 

 

 

Figura  27 - Ah! A alegria límpida dos simples que admiram por afeto e, só por isso, entendem tudo

 

 

 

O génios não têm história. Basta-lhes a obra. Mas o frasco de doce no aparador é de verdade. As ruas de chuva nas manhãs do emprego eram mesmo chuva e as confeitarias, onde gente de bem sorvia chá, em chávenas sujas, ainda têm caspa e casacos compridos, com peles de fingir.

 

 

 

Figura  28 - Abaixo o Dantas. A soberba dos novos que não envelhecem!

 

Era o génio que passava pela sombra da rua, na Baixa ou num café, no quarto, ia sempre carregado de gente para levar para casa e escrever-lhes as loucuras, as manias, as esperanças, as nostalgias. Plural poeta, onde tudo cabia. Ah, menos a mediocridade comum. Podia ser medíocre, mas não comum. O mundo de hoje cabe no Orpheu e ainda tem muito mais espaço para mais mistério das coisas que não tem mistério, a não ser o nosso mistério de ser. Sentir a árvore nos olhos e querer ir com ela no vento das folhas, ver o rio para correr com ele, o navio e a viagem.
    Ser tudo! Contra tudo! Arre que mundo de gente perfeita. A esta hora todos dormem. Mesmo que me digam que não, dormem, Repito: - Dormem.  
    A escrever certinho com cartas e cartões de frases bonitas. Paspalhos das redes sociais a destilar feiras de vaidades, frustrações, coisas que dizem ser amor, afetos e gostos, like, you, like, me, mas é cansaço, sujo tapete que rola pela escada abaixo. Não se diz de ninguém, aquelas verdades porque todos as sabem As mentiras são tão precisas como pão quente com bastante manteiga.
    Tudo é um “dejá vu”.  O cansaço, o pontapé no cão que não é cão, é gente, que se esqueceu de se anunciar:

 

 

 

 

 --- Olá, sou o Esteves, como está?

Sempre conheci afinal o Esteves. Ando com ele por aí e, só agora é que noto. Também o outro, o Silva, tanto Silva, judeu ou não. Almeida de vassoura na mão. Todos não somos nada e nunca seremos nada. Junto-me a eles. Vamos embora, ou haverá ainda chocolates na Tabacaria? Só no Natal, agora.
    É preciso voltar de um novo Alcácer-Quibir na noite que se foi.