"  Editorial Esquecido " 

  •   Sobre um " Coração Amarelo" !

 

    ©  Lúcia Costa Melo Simas ( 2014 )

 

 

"  Fora de Moda"

 ( Folhas em início de Inverno. Praça de Liége- Porto.2010)

 © Levi Malho.

 


 

CULPADO

Em direito é a capacidade fundamental da vida psicológica e moral do homem. Depois seguem-se uma torrente de sentenças: Remorso, liberdade, pecado, castigo, expiação, penitência, angústia…. No direito canónico, temos a teologia que liga a culpa à incúria, à negligência, à falta, ao dolo. Mais cientificamente, esses complexos de culpa variam, conforme a escola psicanalítica, mas há o remorso, o excesso de escrúpulos, anormalidade da crítica do superego, possíveis inseguranças, sentimentos de inferioridade, reação inconsciente face ao ideal da perfeição inatingível.

 

Legenda  SEQ Legenda \* ARABIC 1 A justiça não é cega, por ter os olhos tapados. Ela é , é VESGA.

 

 

A culpabilidade infantil, perante um mundo que não capta objetivamente, encontra, nas discussões dos pais, com gritos e desacertos, uma única causa. Ela é a causa de tudo logo é culpada. O seu pensamento egocêntrico centra-se em si. A afetivamente, a alegria, a tristeza, os sentimentos dos que a rodeiam são por sua causa. Se a família está alegre é por ela e se está triste ou se separa também. A lógica infantil passa pelo estádio do desenvolvimento que afeta longamente a afetividade, pelo uso da logica.

A desorganizada informação que chega aos pais, com análises de psicologia de diversas revistas ou escolas, aumenta o confronto com a descoberta de defeitos de que se acusa, cria uma ansiedade que se transforma em medo de errar e depois em culpa.

A superproteção familiar adquire foros de perturbação quando há uma criança doente. Tratada com excessos de mimo e cuidados cria uma propensão para a doença, vendo mais as vantagens de estar doente do que em ter saúde.

Não estamos porém a viver numa sociedade de grande sentimento de culpa. Se a culpabilidade é, desde tempos remotos, saldada por um bode expiatório, hoje, há muitos bodes, a quem carregar com as culpas.

Toda a gente nas tribos sentia novamente a liberdade quando surgia uma vítima, culpada ou não, mas que se tornava o papel de expiação de todos. O sacrifício desta pessoa era uma catarse que aplacava todas as culpas. No caso bíblico, a escolha recaia sobre um bode, sobre o qual todos lançavam as suas faltas e, carregado dos pecados, enviavam para o deserto, libertando de responsabilidade todo o grupo. Aí Satanás encarregava-se dele. Todos os fenómenos de transferências coletivas nesta libertação da culpa, através de uma vítima, existiram nas tribos do passado, a todos os povos, até aos mais primitivos.

 René Girard, filósofo e antropólogo francês, insiste em que, continuam a existir as mesmas estruturas, sem serem já ritualizadas, nas formas das nossas mitologias.

Girard contraria os etnólogos que queriam separar os ritos arcaicos dos modelos atuais mas, afinal, não estamos nunca longe desses mitos e comportamentos inconscientes que atuam nas massas de todas as épocas.

Na grande metrópole, a simbologia do bode continua na culpa do Outro, do sistema, das empresas, dos políticos, da pressa, do excesso de publicidade, das guerras deprimentes que se noticiam a todo a hora. Sem esquecer o famoso stress, que cedo se amplia e agiganta nas instituições e serve para culpar toda a falha.

 

 

Legenda  SEQ Legenda \* ARABIC 2 Azar de estar no lugar errado, à hora errada, assim aparece um bode para expiar tudo

 

 

 

-  Cada vez há mais crimes! Cada vez há mais roubos, desgraças! De quem é a culpa de tantas tragédias?

- Ora! Minha é que não é!

 Adão já culpava Eva, esta a serpente e todos querem lavar as mãos, como nos lembra Pôncio Pilatos que só é referido por tal solenidade, que o liberta mas, de certo modo, é cobarde.

 Sartre lembrava-se disso, e escreveu “As mãos sujas”, empurrando-nos  todos para a culpa sem exceção.

Aumentaram muito os escrúpulos com a limpeza e tomar banho quase se torna obsessivo como se tanta lavagem também limpasse todas as culpas que se carrega.

 Lady Macbeth, instigadora do marido que, por causa dela se enche de ânimo para matar o rei, seu hóspede. É uma personagem de Shakespeare que mostra, no seu sonambulismo, ao percorrer na noite a limpar imaginariamente as mãos sujas do sangue do rei morto que a culpa é demasiado forte. Guerra Junqueiro parece entender a tragédia quando escreve “ A noite do remorso anda espreitando a vida”. Lady Macbeth enlouquece e suicida-se, sem conseguir suportar os seus crimes. Há ainda nela algum sentimento do bem pois não suportou o mal. 

Em “Crime e Castigo”, Fiódor Dostoiévski traça os mais tenebrosos conflitos da alma humana face à culpa e ao livre arbítrio. O jogo provocatório entre o assassino estudante e os agentes da Justiça é um meio de arriscar, sentir-se no gume da navalha, numa luta de rato e gato, que leva o estudante a tentar ser descoberto e castigado. Qualquer tentativa de explicação desta alma torturada ficará sempre aquém da profundidade atingida na análise psicológica e filosófica deste autor universal. Também Léon Tolstoi escreveu “Ressurreição” em que a culpa vai esmagar um príncipe russo que levou uma pobre jovem à degradação. A ressurreição promete-se, não num final romântico, mas numa libertação espiritual que leva o personagem a assumir o castigo que seria o da jovem e a substitui-la. A decadência social e a grandeza dos sentimentos no espírito torturado do culpado, é uma das melhores facetas da abordagem da culpa. 

 

 

 

Legenda  SEQ Legenda \* ARABIC 3 Foi este!!!! Que grande libertação quando as massas encontram um bode que não se defende e está mesmo à mão

 

Apenas este “animal aflito” que é o homem sente  culpa pois só ele é um ser moral e conhece que erra.  Há ainda algo de redentor neste sentimento. O pior dos culpados é quem não é capaz de se enfrentar ao ponto de até ser falso consigo mesmo.

Os excessos de escrúpulos levam a sentimentos de culpabilidade muito mais próprios de espíritos sensíveis, enquanto a incapacidade de assumir a responsabilidade pelas suas ações, quando não é patológica, revela o pior da condição humana.

 Os indianos não se devem importar muito com isso quando dizem que: “O mal pior é ter nascido”. No seu fatalismo do Eterno Retorno, há uma ataraxia que sufoca qualquer mudança no Universo.

A sabedoria popular tem um manto de compaixão para os culpados quando afirma “_Ninguém tem culpa de ter nascido”.   

 O ditado, cético acerca do assumir dos erros, afirma “A culpa sempre morre solteira”.

A culpa é o caldo azedo encontros entre muitas famílias:

A culpa é tua porque te esqueceste de pagar a luz. E tu, por que não me lembraste?

 A culpa é tua que estás nas aulas a dormir e depois dizes que não percebes nada. A aula dá sono, a culpa é da professora. Ela não sabe ensinar, só fala, só fala…  A culpa é dos pais que em casa não sabem educar. A culpa foi da televisão, do computador. Mas também para que é que me deixam usar isso?

A culpa foi da camioneta que não parou e não pude ir. A culpa foi de não dormir e depois, fiz aquele disparate. A culpa é da mãe que fez todas as vontades ao menino. A culpa é do pai que nunca está em casa. A culpa é da filha que tem mania de comprar tudo o que vê. Não, a culpa é dos pais que lhe dão tanto dinheiro.

A culpa é do  avô que lhe bateu muito em criança e ficou traumatizado. Não, nada disso, a culpa é da mãe que nunca soube castigar os filhos.

A sinceridade de uma criança que se acusa de qualquer ação, merece prémio e não castigo. Quantos mestres entendem o valor da verdade e castigam quem assume sinceramente um erro? Da próxima vez a criança aprendeu que mentir é melhor.

Precisamos todos, sempre de um bom bode expiatório. É um meio de libertação que nos dá forças para não pensar muito no que podia ser diferente. A omissão tornou-se na indiferença a que temos direito e a defesa pela nossa vida privada. Aí, a culpa não ultrapassa as portas e janelas da casa. Sem o veneno do excesso de informação.

O mundo agita-se lá fora, mas que temos nós com isso?

Sacudir toda a falta, a omissão. ou culpa que se sente, como um tapete de pulgas é preparar para escolher alguém que esteja mais à mão para culpar.

Ponho-me a léguas depois de escrever isto, pois não quero  ser o bode expiatório dos leitores aborrecidos. Escolham outros.  Não faltam candidatos. Há quem goste de escolher e há quem goste de ser.

Eu fujo.