"  Ilusões de Cronos " 

  •   "Quanto tempo o Tempo tem ?? "

 

    ©  Lúcia Costa Melo Simas ( 2014 )

 

 

"  Dos seres imemoriais"

 ( Fragmento de "caminho" Romano. . Zona rural do "Alto Minho". Ponte da Barca.2013)

 © Levi Malho.

 


              

Nada mais íntimo e mais fugidio do que a nossa compreensão do que a temporalidade. Quem nunca pensou no que é o tempo? O passado, o presente e o futuro, os instantes, ou os momentos não são realidades e, ao mesmo tempo, mostram-se reais na nossa consciência. O tempo também nos habita e, para o filósofo, injustamente esquecido Henri Bergson, o mais correto é dizer duração.
    Os seus ensaios foram investigações que tentavam entender o tempo de modo a coordenar os seus diversos modos de nos aparecer. Todavia a cisão entre a ciência e a psicologia que nos introduz na metafísica aumentou muito e a sua complexidade tanto em filosofia como em termos científicos habitam linguagem diferentes.

 

Ilustração  1 - Somos seres no interior de muitos tempos.
 A noção do tempo escorrega inevitavelmente de qualquer consciência que o procure entender.

 

    Pode ser que queriam dizer o mesmo mas o certo é que a descoberta da complexificação do que se possa entender por temporalidade leva-nos a mundos diferentes, nos quais nos movemos, o que dá uma dimensão transcendental das próprias formas a priori em que estamos prisioneiros e que pertencem necessariamente à nossa capacidade de pensar e de conhecer. A diferenciação entre o pensar e o conhecer recorda imediatamente a dualidade kantiana, a que Bergson tentou dar nova compreensão.
       
 O conceito de perpétuo, menos usado mas mais correto, de falar da eternidade, sem princípio nem fim, encerra o tempo numa dimensão imóvel pois para nós, seres que duram apenas alguns anos, no meio de um infinito, o tempo é a forma móvel da duração.
        A duração tem a continuidade indissolúvel e impossível de fragmentar. É uma corrente de rio, para William James, que coloca a atenção como a lâmpada que ilumina sempre apenas uma parte da escuridão que nos envolve. A possibilidade de ter consciência intuitiva, apesar do espaço que as palavras ocupam, na velocidade maior ou menor do pensamento, coloca na sombra do subconsciente tudo o que a atenção não alcança. Surge aqui já uma discrepância. A velocidade do pensamento não é a mesma e nota-se claramente essa diferença na forma de pensar de cada um, nas situações mais simples e comuns. Em parte deve-se ao treino e aprendizagem, mas a intuição de uma evidência tem uma duração diferente mesmo entre pessoas comuns.

 

 

Ilustração   2 -  O contraste entre a realidade do fluir e a noção de permanência são contradições de que não nos apercebemos.

 

 

    Queremos encontrar uma estrutura da duração na nossa consciência que seja similar em todos, mas apenas na exterioridade do tempo que captamos pela medição essa permanência se mantem igual. O tempo exterior e interior caminham e cruzam-se mas não se confundem. Tornam-se dois tipos de conhecimento e pertencemos aos dois sem possibilidades de ir mais além, pois nós, antes de mais somos temporalidade que flui até ao seu fim. 
    A bem dizer, aquela festinha que se faz para dar parabéns a você e toda a demais parafernália do dia de aniversário, não é verdade pois ninguém ” faz anos”. A realidade é se tomou, como ponto de referência para marcar o dia do nascimento, o percurso do nosso planeta à volta do sol.
     Ao voltar a passar supostamente pelo mesmo espaço, o que também não é real, diz-se que fazemos anos. Melhor se diria que, já demos vinte, trinta ou muito mais, voltas ao sol e, antes de Galileu, ao “fazer anos”, teríamos assistido às voltas que o sol dera à roda do nosso planeta.

 

Ilustração   3 - A  ilusão de um único tempo na multiplicidade das consciências

 

    De qualquer modo, nada nos relaciona o fluir do nosso tempo do que essa ou outra referência externa. Biologicamente há mais um dado para não poder fazer anos. O nosso corpo é muito rebelde a seguir datas e cronologias e, assim, temos um coração com 70, anos, um braço mais velho do que o outro, o fígado de 28 anos. A idade, neste caso a duração do corpo e o seu estado físico, não se une no dia de aniversário! Melhor será não fazer anos, sem nostalgia de infâncias perdidas de Pessoa, inventor de mitos e impérios.
    Bem escreveu Lewis Carrol, inspirado para uma sábia distribuição de ofertas. Inventou o “dia de não fazer anos” que ao todo são 364 dias. Encontrou ainda um meio curioso de contrariar o tempo e distribuir ofertas por todo o lado, ao sabor da preferência e não os ritos exteriores. Quando a consciência da duração surge é de uma vivência infantil que não é abrupta, mas se desvenda pela experiência da impossibilidade do regresso. Um vaso, que se quebra nas mãos infantis, pode levar à prova da irreversibilidade do tempo e a criar a noção intuitiva do fluir sem paragem do tempo exterior.
    A descoberta do tempo exterior é a primeira que surge. Já a noção do fluir do pensamento, descobre-se bem cedo, mas só acontece quando a criança manifesta capacidades de sentir curiosidade pelos vocábulos e, de repente, o fenómeno de não ser capaz de parar o pensamento é um desafio da intuição infantil, agora da duração interior, que desperta.

 

 

Ilustração  4 -  A curiosidade infantil revela interesses metafísicos que o adulto, por vezes, não se apercebe.

 

 

Por vezes, esta perceção é muito vaga. A primeira intuição da consciência inserida no tempo é a do pensamento que não se detém como se tivesse vontade própria exterior à criança que o vivencia. As perceções deste fenómeno estão patentes numa lenga -lenga infantil que mostra como a preocupação pelo tempo passa, de geração em geração, numa certa fase da infância.  

“O tempo pergunta ao tempo quando tempo o tempo tem e o tempo responde ao tempo que tem o tempo que o tempo tem.” 

    A duração, para a consciência no seu devir psicológico, é tão diversificada, quanto cada pessoa é face a outra, em relação à própria intensidade dos sentimentos e emoções. O riso e a alegria tornam a perceção da duração muito rápida, um livro pode ser devorado pelo leitor, ou não passar de um tempo tedioso que não acaba, enquanto numa sala de espera, ou na cadeira do dentista, o tempo escoa-se tão lentamente que parece parado.
    As nossas idas ao passado são sempre falsas lembranças que a consciência atinge porque cada vez que nos lembramos é de modo diferente, por necessidade de coerência e de compreensão, colocamos entre o que aconteceu e o que recordamos, muito do nosso imaginário, do qual não nos podemos libertar. São tentativas para alcançar uma recordação consistente e unificada com fragmentos dispersos desse passado que, cada vez que lá voltamos, nos apresenta coberto de outras sombras e luzes do nosso presente e do nosso imaginário. A lembrança dos acontecimentos e, em geral tudo oque somos capazes de evocar, dependem da recordação anterior numa reconstrução cada vez mais afastada do que aconteceu ou se vivenciou no passado.
      São mentiras brancas que, no fundo, temos perceção bem íntima de assim acontecer, mesmo que isso nos contrarie e nos esforcemos por atingir esse passado.
    Que é possível dizer do presente? A voz com que falo já está longe de mim, as palavras voam no espaço em que as digo e, tentar segurar o presente num falso tempo, é tornar tudo muito mais artificial, numa dupla consciência do pensar e do pensamento que não leva a s nada mais do que a consciência da duplicidade da intuição. É indispensável que se entenda bem que, biológica cronológica e psicologicamente, a duração é diferente para cada idade. Um adulto, com trinta anos, que diga a uma criança de três: “Espera aqui que já volto. É só um instante
    Ao regressar de uma brevíssima ausência, pode encontrar a criancinha em prantos, pois se sentiu abandonada, pela sua perceção da duração ser muito mais lenta e bem diferente do que se passou com o adulto. Assim, é verdade que podemos estar todos juntos numa sala, em longas conversas, mas cada tem um tempo diferente pois a duração não tem só a ver com o interesse e o entusiasmo da conversa, mas também com a idade ou duração de cada pessoa.
    Por isso, os filhos passam mais tempo com os pais do que os pais com os filhos, se bem que o tempo, em termos físicos, do exterior, seja o mesmo que marca os ponteiros de um relógio. Psicológica e biologicamente, os filhos passam mais tempo com os pais do que os pais com os filhos. A duração ainda é mais diferenciada entre as crianças e os seus avós.
    Se bem que não seja preciso grande esforço, o certo é que a matemática ajuda a entender a relação dos contratempos entre as diversas frações de duração de cada etapa da vida. Na infância descobre-se a duração de um dia para o amanhã seguinte, a semana ou os meses inicialmente incompreensíveis e depois extremamente longos até que, com a duração da vida, no final, a perceção do fluir temporal é cada vez mais veloz. A fração de cada acontecimento é bem menor. É como que a intuição interior da proximidade da eternidade levasse a um sentimento paradoxal de velocidade e de imobilidade que se aproxima.

 

A perceção consciente da duração de cada pessoa é cada vez mais veloz à medida que envelhece.

 

 

    A duração, como conceito abstrato, possível de analogias, mas vazia de conteúdo consciente, é o que temos mais similar a outra pessoa. Nada mais é do que a forma a priori kantiana que visa a universalidade para o conhecimento. Mas a duração tem sentidos muito mais profundos e remete para mil formas de vida em que a duração se desdobra em “fatias” diferente para cada um. A falsa realidade dos relógios, da velocidade a que andamos, os cronómetros, ou a rotação da Terra, levam a acreditar que o tempo existe. Foi a inesperada leitura de Kant que me abriu as portas para entender que o tempo era uma forma, não uma essência, um meio do ser humano perceber o mundo. O aqui e agora é uma multiplicidade de ilusões que o senso comum aceita. Toda a gente morre num “aqui e agora” que não é lá nem depois ou antes.
    Nada do que o senso comum necessita para a vida prática é ontologicamente real. O agora é o instante imobilizado e colocado fora do tempo. Só temos noção do fluir por uma intuição íntima e interior. A evidência intuitiva pode ser para nós, aparentemente objetiva, mas é perfeitamente subjetiva.
    A perceção do tempo em diversos animais assume estranhos caminhos. A experiência demonstra que um cão, ou um gato sabem “Porque hoje é sábado”, sem conhecer Vinícius de Morais, mas porque é dia de passar o carrinho do magarefe. O poema de Vinícius multiplica a duração por muitas consciências:
“O dia da Criação”   

 

Hoje é sábado, amanhã é domingo

 Amanhã não gosta de ver ninguém bem

 Hoje é que é o dia do presente”

Hoje é sábado, amanhã é domingo

 

    O presente é, de um modo mais terno, uma verdadeira dádiva que todos recebem. Mas a vida vai modelar esse mistério que somos enquanto esgotamos a nossa duração. O tempo físico mede-se pelo espaço, mas nunca diretamente. Para isso já se descobriram os mais complexos aparelhos e aliam-se a eles os cientistas mais avançados, matemáticos, físicos e outros.

 

 

Ilustração   5 -  Uma multiplicidade de formas de falar do tempo, da nossa intuição e do tempo exterior, onde fluímos também.

 

 

    Sabemos que a velocidade máxima é a da luz, se bem que já não haja concordância dos cientistas nesse assunto, mas isso só explica as distâncias no seu aspeto físico, exterior à nossa própria temporalidade. Além disso, medir não é conhecer, e muito menos captar algo que afinal no âmago de nós mesmos é a nossa dimensão metafisica.
     
As aporias de Zenão de Eleia, um sofista que lançou desafios à capacidade humana que atravessam séculos e continuam a espantar,  são o antepassado de Einstein. Em termos filosóficos e carregados de uma ironia que espanta, delineou-se na velha Grécia a teoria da relatividade. Nada melhor para cair no absurdo do que a aporia da flecha que está parada, em cada fração de milionésimo de segundo, logo está parada e atinge o alvo. As linguagens do século XX e as de Zenão são diferentes, mas no fundo dizem o mesmo com resultados diferentes de utilização das aporias.

 

Ilustração   6 - O espaço é ou não divisível ?

 

    A corrida de Aquiles e da tartaruga fascina pela profundidade do pensamento deste filósofo. Se a tartaruga parte primeiro, Aquiles nunca a apanha. Basta dividir o espaço, o que é uma operação infantil, e eis que temos Aquiles imóvel! A metade da metade da metade é…. Um buraco negro para entender de novo o que vem a ser o tempo e o espaço.
    Os paradoxos do tempo são um constante desafio, tanto no campo da consciência, como das ciências, cada qual com dificuldades que parecem insuperáveis. A velocidade da luz é a forma estável do tempo instável, por analogia com uma célebre frase de Platão.

 

 

Ilustração 7 - O desenrolar da nossa temporalidade é cada vez mais veloz. na consciência intuitiva

 

 

    Alguns grandes matemáticos que estudam o tempo acabam por não aceitar a existência da realidade o que é algo extremamente curioso e válido.  O problema é que, os raríssimos cientistas que atingiram essa perceção da irrealidade que os rodeavam, acabaram sem poder conciliar na sua vida real esse imenso paradoxo.
    Os contratempos entre a memória que temporalmente somos e a busca do passado pela consciência tem um mensageiro infiel que é o poder da imaginação que se intercala com a presentificação  do passado. Assim, uma recordação altera-se todas as vezes que a procurarmos. Intercalamos a última vez que recordamos e, assim, o que acontece é que já não recordamos nada do passado, mas só o que a memória moldou, a imaginação modificou e com esses fragmentos é que tentamos dever o fluir e voltar a sentir ou a percecionar o que somos, na nossa própria consciência que sabemos que não é fiel. Os rostos mais amados, de tanto os recordarmos, parece que uma névoa cada vez mais densa nos separa cada vez mais. A voz já não se distingue, o riso apagou-se, nem um eco nos atinge.
    O nosso passado já não é tempo, se foi um fluir, um rio como a consciência, em cada instante nós somos o nosso passado que nos dá coerência e a consciência de algum modo unifica. Todavia esse passado que temos e dá a perceção do eu, não tem validade real. Basta um exemplo para ver como se perde a verdade da vivência. A capacidade de rir do que nos magoou e desgostou ou de chorar por algo que nos divertiu mostra claramente a infidelidade da nossa própria consciência de nós mesmos.
    A cronologia perde e ganha o coração. Utilizando a língua francesa, a evidência ainda é mais clara. Ao saber  “par coeur” que em português se traduz de cor, mostra que é o afeto e os sentimentos, mais do que a lógica e todo o raciocínio que mantém vivo o nosso passado. Se o hábito nos veste, a duração é psicológica e o espírito, a falsa unificação de um sujeito que se desenrola até ao seu final.
    A ironia é que quanto mais se estuda o tempo mais complexo o problema fica. Todavia é um tema que percorre toda a ciência e toda a vida humana sem nunca acabar de nos fascinar.  Somos temporalidade, dentro de uma subjetividade não essencial e de uma temporalidade que nos escapa pois o mistério não acaba, enquanto a solução do enigma do que pode ser o tempo envolve o Universo inteiro.