"  Triunfo das Coisas " 

  •   "Qual é a coisa, qual é ela "?!

 

    ©  Lúcia Costa Melo Simas ( 2014 )

 

     

    

"  Corrosão dos Dias"

 ( Tronco degradado pelo Tempo. Zona rural.Trás-os-Montes. Macedo de Cavaleiros..2012)

 © Levi Malho.

 


 Esta exclamação é comum na linguagem corrente. Só que é ininteligível fora do seu contexto. Irritação, incompreensão, surpresa, ou arrelia vulgarmente usa-se esta frase idiomática que nem os portugueses sabem bem, quando a ouvem, o seu sentido.

       --- Que coisa! Agora deste para embirrar com tudo!
       --- Há qualquer coisa que não me está a agradar.
       --- Desde que ouvi umas coisas, que nem quero repetir, evito sempre ir lá.
        -- As coisas que tenho para te contar! Nem imaginas como te vais espantar!
        --- Foram tantas coisas que nem sei por que lado vou começar!
        --- Lá estás tu a inventar coisas!
        --- Mas que coisa é esta? Ainda nem é meio-dia e já se estão a preparar par sair?
        --- E o horário? Por causa dele, ouvi cada coisa! 

        --- Se te conheço? Tu és capaz de imaginar as coisas mais incríveis para te justificares dos atrasos.
Por estas coisas todas, é que quero pôr tudo em pratos limpos. As coisas não correram como esperava, temos muito que explicar.

 

 

 

 

 

Ilustração   1 - O outro que sou existe primeiro do que o eu. A consciência é exterior a si antes de se interiorizar num eu.

 

 

    --- As minhas coisas são só minhas.
    --- Quem mexeu nas minhas coisas?
    --- Que coisas fazes para passar o tempo?

Por entre alguns dos escritores portugueses que conheço, só verifiquei que Camilo Castelo Branco, na sua prodigiosa imaginação e escrita, se atreveu a publicar três obras assim intituladas: “Coisas leves e pesadas”, Coisas espantosas” e “Coisas que só eu sei”.
    Agora que o empreendorismo, por mais absurdo, ridículo e estúpido que se avolume o vazio, com certas exceções, “Coisas” surge na Internet. Trata-se de um site de compra e venda entre particulares mas, dados os factos reais que por lá sucedem, é bom pensar sempre que há coisas e coisas… e,  nem sempre o que luz é ouro.
    O empreendorismo é uma coisa, à falta de vocábulo melhor, reúne todas as coisas que se dizem para os jovens tentarem. As coisas não resultam nada bem, mas é um meio de afastar a ideia de que o Governo não se está a interessar pelas coisas graves e se pode acabar com o desemprego, tornando os jovens portugueses criadores de mil coisas que ninguém pode saber bem o que é. Assim quando o vocábulo não se ajusta, quando se deseja omitir uma verdade, o melhor é dizer: A coisa é muito complicada.
    Coisas é o melhor termo para todas as falhas de vocabulário apropriado, a falta de conceito justo, ou discrição diplomática. - Passam-se ali muitas coisas, mas não é nada comigo! As coisas são um excelente vocábulo politicamente correto.

    --- Eu sei coisas de mais para ficar calado.
    ---Depois de tanta coisa, só resta isto?
    ---Suspeito que já coisas que me andam a esconder.

    ---
Desconfio que há muito mais coisas para além do que confessaram.
    ---As coisas não caem do céu, é preciso trabalho e muito suor.

 

 

Ilustração  2 - Tanta coisa para descobrir

 

 

    Ele fala e diz tanta coisa que por fim ninguém já acredita. A situação não permite essas coisas. As coisas estão a ficar cada vez piores. As coisas melhoram ou pioram quando queremos. Dizes tu isso, porque não tens as coisas da minha vida para tratar.
    Uma vez, assustei-me no cabeleireiro, quando o ouvi dizer à empregada: Vá neutralizar a senhora! Pensei logo que me iam pôr inanimada, pois parecia mais um termo militar, de ação de musculação, para dar cabo de um inimigo. Fixei o conceito estranho porque me senti uma coisa e não gente. Noutra ocasião, fui visitar uma amiga ao hospital, mas a senhora tornara-se apenas a doente da cama 24, e senti que nem era pessoa, tornara-se num caso clínico. O certo é que, quando se fala em coisas, também já se pode falar de pessoas, quando coisificadas.

 

 

Ilustração 3 - Emmerson transforma o tempo em sabedoria

 

 

    A forma de transformar as pessoas em coisas é comum e tem muito a ver com o estatuto, afinal tem a ver com a estrutura económica e a base social na modernidade. Uma pessoa perde a sua personalidade e até o nome, para ser um caixeiro, um professor, uma servente, um taxista, um engenheiro ou técnico de qualquer coisa. O eu desaparece quando estamos tão rodeados de coisas e, no olhar do Outro, aparecemos sem interioridade, apenas mais uma coisa, passamos à mesma categoria do resto dos objetos e para o Outro que nos olha somos coisificados como as pessoas, agentes, que nos tratam, servem, cumprem ordens entre tantas coisas.
    Vivemos tão rodeados de objetos, aos quais quase que damos vida, que retiramos a vida às pessoas, que passam a ser meras informações, mediadores ou simples mercadorias. Há uma busca de dominar o Outro quando se dá falsamente vida a objetos, por exemplo, animais domésticos que não passam de máquinas. A esses robots os donos atribuem os seus afetos de um modo que transforma a realidade em fantasias numa coisificação do mais humano que temos: os nossos afetos.

 

 

 

Ilustração   4 -  O escravo preferiu a vida e tornou-se para o Outro.

 

 

    Se hoje se pode falar de coisificar na publicidade e nesta nova sociedade, já Hegel se referia ao Outro que se alienava diante do Senhor a quem se submetera para fugir à morte. Porém a relação entre o Senhor e o escravo não se dá diretamente mas através da coisa.
    O início do problema da “coisa” remete para a dialética de Hegel. Repare-se que, ao longo de toda a profunda obra de Hegel “A Fenomenologia do Espírito” a sua obra capital (1807) há, para muitos comentadores, um apelo, do início ao fim, à “consciência infeliz” e é a esse eu para mim e fora de mim, sem alternativa para sair da sua própria dialética que representa esse estado de consciência que o conhecimento transmite, mas não se transforma para si e antes cede o lugar ao Outro, na longa caminhada do Absoluto que ao absolutizar-se tem ainda “mais” que nesse estádio não se revela só num outro superior.

    Só o louco, por não seguir a norma, teria a possibilidade de sair de si, mas seguidamente teria de ser rejeitado da sociedade. O domínio do Senhor sobre o Outro, que, na luta, ele afirmou como algo negativo, torna-o não essencial e negativo o Outro, na sua consciência dependente do Senhor. Ora diz então Hegel “
o senhor relaciona-se mediatamente sobre a coisa por intermédio do escravo” Ph. E. s/d Paris. (…)  houve um reconhecimento unilateral e desigual. A consciência não-essencial é, deste modo, para o senhor o objeto que constitui a verdade da certeza de si mesmo.”

    Marx utiliza “a coisa” no cerne da relação humana num sentido económico do qual retira as consequências. Assim o proletariado transforma-se numa “mercadoria” na cadeia da produção. A sedução ou o “fetiche” aliena ainda mais o ser humano que renuncia à sua interioridade para ter mais coisas e criar necessidades. As falsas necessidades não o deixam aperceber-se da realidade em que passa toda a existência. A ideologia oculta, com um manto sedutor, um estilo de vida que arrasta consigo a perda da consciência autêntica de indivíduo.

 

 

 

Ilustração  5 - Para o Outro, somos objetos que vemos., meras mercadorias no âmago do consumo

 

    Ora encontramos igualmente no existencialismo de Sartre a tradução do absurdo de ser uma consciência que se orienta pela lógica da não contradição, sendo, no entanto, a primeira contradição de um ser em-si e por-si que se sustenta pela exterioridade. Só se existe ancorado na mediação, o objeto, ou a coisa.  Na sua obra “O ser e o nada” reflete a impossibilidade de fugir à liberdade. Pois dirá em “As Moscas” através do personagem Orestes “Estou condenado à liberdade” e, por isso, a não ter outra lei senão a minha”.

 

 

 

Ilustração   6 - A obra de Sartre é sempre à volta do problema da Liberdade e do humanismo existencial

 

 

 

    Regressando a Hegel, que nos deu longamente essa noção de consciência infeliz, (Ph.E s/d Paris) toda esta obra é, no dizer do seu tradutor e um dos seus comentadores mais famosos, Hippolyte[1] (1946, p. 184), uma análise da consciência infeliz. Hegel deixou esta passagem elucitativa
 

    A infelicidade surge precisamente no momento em que a consciência, contraditória ‘em si’, se torna contraditória também ‘para si’. A infelicidade não decorre apenas dessa tomada de consciência, mas também das dificuldades e fracassos que esperam esta terceira forma da liberdade na sua tentativa de supra assumir as primeiras duas, isso é, o “puro pensar do estoicismo, que faz abstração da singularidade; seja do puro pensar de ceticismo, que é somente inquieto, e de fato é apenas a singularidade, como contradição sem-consciência e movimento sem-descanso” (Hegel, 1992, p. 144).

    O lado trágico desta contradição retira a essencialidade, pois a própria consciência se divide de modo a viver no devir sempre sem se assumir uma liberdade que nunca lhe é dada. A fenomenologia sartriana vai buscar a Husserl a consciência fenomenológica, mas recorda o tema hegeliano, quer pelo mal estar e inquietação interior, quer pelo modo como o Outro nos vê, quer ainda porque esse nos coisifica e, quando nos olha e rouba-nos a liberdade. O sentimento de estar a mais instala-se porque os outros nos roubam a liberdade que, embora sem fundamento, é a radicalidade da inevitável e sempre presente escolha. Até quem escolhe não escolher, escolhe.  
    Esta forma de pensar a liberdade conduz a uma responsabilidade extrema e inevitável, pois toda a escolha é já um modo de colocar tudo o que nos é exterior a existir porque a nossa escolha assim o permite. A angústia apossa-se do filósofo, por ódio ao Outro. Assim oscila entre eu-coisa para mim e eu-objeto para Outro. A dialética de Sartre é entre um fora e um dentro, numa série de aparições do ser, fenómeno sem qualquer sentido do dualismo que lhe impõe o pensamento kantiano. É apenas a aparição. Deste modo também, o nosso escritor existencialista, Vergílio Ferreira concebe a própria vida, a sua autobiografia é o espelho em que se reflete como impossível de ser e apenas aparecer.   Assim Sartre, ao examinar a consciência de si e para si, acaba por dizer ”Quando me olho sou dois.”( Le Surcis )
    Esta descoberta sartriana remete-o para a consciência infeliz, com o peso do pessimismo e de todos os avatares franceses de um pós-guerra (1939 –1945),  que nunca mais abandonou.

 

 

Ilustração   7-  O Outro reflete-nos como mais uma coisa O olhar alheio é responsável por nos dizer quem somos e não quem pensamos de nós.

 

 

    Impressionou-me muito, a primeira vez que li, o célebre trecho de Sartre, em que o filósofo estava só, num jardim a olhar a relva. O seu olhar estava livre e tudo o que o rodeava era seu.

 

Ilustração   8 - O olhar do Outro torna-me um objeto entre muitos outros.

 

 

    De repente, surge um Outro que olha para a mesma relva e o mesmo jardim. É então que, mesma realidade, agora já não unicamente de Sartre porque o Outro o vê como objeto, ou um estátua do jardim. O juízo do Outro tem o direito de o pensar como objeto. A transcendência que o filósofo tinha antes é agora negada. Assim oscila entre eu-coisa e eu-objeto. No olhar do Outro, a transcendência de Sartre é transcendida. A sua temporalidade limita-se à presença do Outro. Faz parte do presente dele. Ele sente o olhar do Outro em si e isso solidifica-o, é a ameaça do eu sujeito.
    Ora nós estamos constantemente a ser ameaçados e só por má fé “, que não passa de uma tentativa frustrada de negar a liberdade, o indivíduo procura afastar-se da sua consequente responsabilidade. Qualquer que seja a situação em que nos encontremos, há sempre uma escolha da consciência dessa situação. Sartre vislumbrava uma intersubjetividade, sempre em conflito com os outros, como peças de um jogo em que cada um é objeto para um Outro, sem deixar de ser objeto para si. Coisificamos as existências e transformamo-las em pedra. Sem interioridade. A coisa é para mim e não para ela. Logo, quanto mais coisas eu possa ter, sem o Outro, mais me posso interiorizar e ter mais para mim.  A imanência e a transcendência são impossíveis para a consciência que desliza para o nada.

    No meio da análise da arte pop, Baudrillard
[2] (2008} cita Andy Warhol (1928-1987)  “Gostava de ser uma máquina”. A “má-fé” do artista revela a cumplicidade com a tautologia do significante que se totaliza na coisificação. O automatismo pop transforma-se num jogo que não é arte popular, mas um sentido cínico do sorriso, sem humor de quem entre na trama dos negócios da arte. Nem todos se renderam à fama este estranho artista e, no dizer do crítico de arte australiano Robert Hughes, teve a “reputação mais ridiculamente superestimada do século XX.”

 

Ilustração    9 - Autorretrato de Andy Warhol que exprime o vazio interior e a coisificação de si mesmo.

 

A coisificação expande-se pelo olhar que rouba a liberdade e, de repente, entende-se porque é que o inferno são os Outros.  A sociedade inteira é um bloco de coisas e não há ninguém verdadeiramente na sua essência. A imagem é falsamente a aparição do ser e o eu é a aparência. Uma coisa entre coisas, o corpo coisifica-se e até é objeto para mim. Ter um corpo é manter uma fenomenologia carregada de riscos de não-ser.

 

Ilustração   10 -  Entre tantas coisas, eu sou mais uma, ao olhar do outro.

 

 

    Na frase publicitária “O corpo com que sonha é o seu” a sociedade de consumo cinde o real e o desejo e este remete para a infinitude. Na sociedade com uma ferida narcísica mortal cada desejo que se cumpre é a fuga para um Outro hostil a mim, ou falso reflexo de mim como coisa. A fruição da aparência transforma-me num corpo exterior a mim, desesperadamente em busca da unidade perdida.
    O Narciso de hoje teme os espelhos, o desejo do corpo perfeito projeta-se na imagem do Outro, modelos de herói, artista famoso, celebridade do momento. É a ironia do desejo da diferença, caindo cada vez mais na banalidade e no anonimato que odeia.

 

Ilustração   11 - A consciência infeliz sabe que é alienado mas tem medo de aprender a ser livre

 

 

    Que coisa! A exclamação torna-se consciência da inevitabilidade do Outro e é a consciência infeliz que desperta no desespero das contradições insuperáveis. O desejo que manifesta a separação do corpo para mim e para o Outro. Ter corpo, considerando-o como objeto, seja como templo de saúde, beleza, juventude é ser eu-coisa, viver num mal-estar infernal que o olhar do Outro me causa.
    Habitando na temporalidade, o corpo esgota-se na sua duração e a angústia passa ao desespero do nada. A obra de Sartre, com esse individualismo feroz, brota de um contexto da modernidade em que o filósofo diz que “tentamos transformar-nos exatamente naquilo como aparecemos para o Outro.{porque] oferece perigo, pois quer conquistar a consciência” e as duas liberdades entram em conflito pois cada um quer impedir a liberdade do Outro. Nessa batalha de consciências, é o que Sartre sente que seja o inferno da intersubjetividade. A culpa é uma forte ameaça e o Outro, tanto quanto o eu da consciência,  necessitam um do Outro,  para justificar sua culpa, afinal é o Outro um espelho, multiplicado por muitos,  da sua própria condenação.

 

 

Ilustração  12 - No olhar de tantos que nos observam, nada mais somos do que uma coisa sem interioridade.

 

 

    O consumismo alimenta o mito do Paraíso perdido e oferece constantemente à consciência infeliz a promessa do seu regresso através de um corpo a que rouba a alma.
    Num mundo de coisas, a consciência infeliz de Hegel é a contradição do escravo que deseja, mas não luta, pela liberdade. A sociedade de consumo, na sua coletividade inconsciente, representa a “consciência infeliz” da alienação sem aquela coragem redentora da rebeldia. O mal-estar da modernidade é uma manifestação dessa infelicidade que, de modo coletivo, mostra a consciência servil incapaz de alcançar a liberdade de um grau superior no qual já florescem as ciências e as tecnologias, mas a condição humana não assumiu. 


 

 

[1] http://www.hegelbrasil.org/rev03p.htm Revista Eletrônica Estudos Hegelianos

[2] Baudrillard, Jean, A sociedade de consumo, Edições 70, Coleção Arte e comunicação,