"  Magia das Palavras - V" 

  •   Do que não chega a ser...

 

    ©  Lúcia Costa Melo Simas ( 2014 )

 

    

    

"  Um pouco mais de Sol e ..."

 ( Muro fortemente iluminado. Efeito de interior em casa particular. Porto  2013)

 © Levi Malho.

 


 

 

 Quase novinho em folha e já vai tudo para o lixo?! Só porque a moda muda  como se altera a hora? Não queria utilizar, mas  “quase”  é um vocábulo teimoso que quer andar na boca de toda a gente. Quase novo, em estado quase impecável, quase sem uso, serve para vender, ou para comprar.  Em quase crise, ou em quase louco consumismo, a ambivalência é constante. A opulenta gastronomia televisiva apela para comer e faz frente a quase todo o regime imperativo de lutar para ser magro, permanecer magro e quase sem envelhecimento que faz descer o estatuto.   

 

 

Legenda   1 .-  A idade vem, a fama vai

 

 

 

    Quase é balança, vai e vem, modelo social da nossa contradição.  Uns morrem à fome, outros quase se matam para ficar magros, o que é uma luta inglória, com as delícias que existem cada vez mais atraentes, ao lado da escassez aterradora de tantos.Por isso, as faces vão esticando a pele, que quase causa inveja a rabinho de bebé e nem uma ruga se vê. Os poderosos da sociedade quase nem envelhecem. O cabelo não cai, nem os dentes, e quando aparecem em público estão quase completamente disfarçados de jovens.

    Quer homem quer mulher, o cabelo muda, para a cor da moda, ou há aquele capachinho bem disfarado, ou extensões quase à medida. Já quase ninguém se importa com o ridículo pois tão comum se tornou. No nosso “admirável mundo novo” a distinção de estatuto e de classe começa quase a ser só visível pela imagem. Os pobres envelhecem e os poderosos quase que ficam eternamente jovens.
    O
utrora o quase era a busca da perfeição, do belo, do encanto mavioso do cantar das aves, o quase pânico de filmes e horror de o “Tubarão”, mesmo que de papelão, ou aquele pavoroso Exorcista, que hoje quase nem a crianças de colo assustam.

 

Legenda  2  - Quase todos querem ser diferentes

 

 

 

    Quase sempre pelo Natal, tínhamos a voz pura de Judy Garland em “O Feiticeiro de Oz”, agora quase que temos de repetir, pela décima vez , “Sozinho em casa” e ainda rir .Mas, lá do fundo da memória só me vem um quase que me comove e se repete. É aquele incomparável golpe de asa do poeta Mário Sá Carneiro que, àquele quase, se prendeu e perdeu.
    No meu paradoxo, aquele “quase” diz tudo da vida de pessoas comuns, gente simples ou quase. Descobre-se um pouco mais de ser além, um pouco mais de viver e até quase voar. Quase perfeito, será o poema deste grande burilador de palavras, que quase é talvez maior que muitos poemas de Fernando Pessoa que quase morreu de tristeza pelo seu suicídio.  O talvez e o quase dão a medida da coragem e da luta de todos os seres humanos e a verdade da sua essência interior. No âmago de todos, há  medo desse quase que tudo promete e nega e só sabe quem é, quem lá chegou.
    Por um triz. Foi quase! Era só mais um passo, mais um esforço, mais sorte, mais azar.
    Está quase – não passa de hoje. Quanto enigma secular ficou por acontecer.

 

Legenda  3 - O poeta, Mário Sá Carneiro, suicidou-se aos 26 anos

 

    As palavras transbordam de sentidos em Sá Carneiro e foi com palavras desse poema que se traduziu como “Um Pouco Mais de Azul”, belo título para uma obra desse pasmoso astrofísico; Hubert Reeves, um sonhador que quase não envelheceu na frescura da escrita, no deslumbramento do Cosmos. Sempre mais além e quase atingimos a saga universal.Nesse quase, a vida se esvai sem encontrar contentamento quando a alegria do quase vivo supera o quase morto. Teimamos em atingir tudo, em vez de nos encontrarmos no quase,  condição humana. Quase animalesco, ou quase sublime, a besta e o anjo habitam lado a lado.

 

Legenda  4 - QUASE. um pouco mais eu era asa...

 

  Por escolher por entre tanto talvez e tanto quase, tudo se acaba por perder. Um ser humano define-se melhor por um quase, ou um talvez do que por todos os discursos e poemas dispersos que o vento levou e o tempo quase esqueceu. Por escolher por entre tanto talvez e tanto quase, tudo se acaba por perder. Um ser humano define-se melhor por um quase, ou um talvez do que por todos os discursos e poemas dispersos que o vento levou e o tempo quase esqueceu. Quase tem um esforço de viver, de lutar e tentar, parece que não vai desistir.
     ---“Estou quase lá”! É frase de cientista, embrenhado em anónimas descobertas.
    No quase declínio da cultura e da civilização, a poesia perde o pé e quase se mobiliza em barrocos complexados, de tudo dizer, até quase ao vómito de quem as entranhas perdeu, no seu vazio interior.  Ser gente que quase venceu, amou, sofreu, lutou, enfrentou o diabo, os inimigos doces, a fome, a “sua” própria guerra”, o  seu “Mein Kampf” e depois…Quase se esqueceram dele, quase se tornou anónimo. A áurea da fama apagou-se.
    Não, na verdade, ganhou! Ser quase é ser gente de fibra, de caráter que quase caiu, que quase cedeu, mas depois viu o logro, a ganância, a corrupção e, num rompante de honra, quase ao dizer sim, diz  - Não!
    Já está quase… diz atrapalhada a costureira, o mecânico do carro, o contabilista, o aluno, o marinheiro no mar alto.  Estamos quase lá – grita na gávea,  ao ver terra à vista
    Sá Carneiro desperta da bruma,:  /O grande sonho – ó dor! - quase vivido... / Quase o amor, quase o triunfo e a chama, / Quase o princípio e o fim - quase a expansão... E de tudo o poeta descrê porque queria aquela asa perfeita, de anjo ou demónio mas que o deixariam sem a condição humana. Quase no fim é que se inicia a maior vitória, quase se perde tudo quando se ganha e todo o quase é uma promessa, uma vida inteira quase plena. Que faz alguém sem esse quase?
    Que projetos e futuro teria alguém se conseguisse tudo o que queria? Muitos se imaginariam perfeitamente felizes por uns momentos de glória. Quem desce do pódio, depois das palmas e coroas da fama, que quer? Vai logo a correr tentar vencer de novo. Essa é a sua verdade.
    ---“Estou quase lá”! É frase de cientista, embrenhado em anónimas descobertas. No quase declínio da cultura e da civilização, a poesia perde o pé e quase se mobiliza em barrocos complexados, de tudo dizer, até quase ao vómito de quem as entranhas perdeu, no seu vazio interior.  Ser gente que quase venceu, amou, sofreu, lutou, enfrentou o diabo, os inimigos doces, a fome, a “sua” própria guerra”, o  seu “Mein Kampf” e depois… Quase se esqueceram dele, quase se tornou anónimo. A áurea da fama apagou-se
    Não, na verdade, ganhou! Ser quase é ser gente de fibra, de caráter que quase caiu, que quase cedeu, mas depois viu o logro, a ganância, a corrupção e, num rompante de honra, quase ao dizer sim, diz  - Não!
     Já está quase… diz atrapalhada a costureira, o mecânico do carro, o contabilista, o aluno, o marinheiro no mar alto.  Estamos quase lá – grita na gávea,  ao ver terra à vista . Sá Carneiro desperta da bruma,:  /O grande sonho – ó dor! - quase vivido... / Quase o amor, quase o triunfo e a chama, / Quase o princípio e o fim - quase a expansão... E de tudo o poeta descrê porque queria aquela asa perfeita, de anjo ou demónio mas que o deixariam sem a condição humana.
    Quase no fim é que se inicia a maior vitória, quase se perde tudo quando se ganha e todo o quase é uma promessa, uma vida inteira quase plena. Que faz alguém sem esse quase? Que projetos e futuro teria alguém se conseguisse tudo o que queria?
    Muitos se imaginariam perfeitamente felizes por uns momentos de glória. Quem desce do pódio, depois das palmas e coroas da fama, que quer? Vai logo a correr tentar vencer de novo. Essa é a sua verdade.

 

 

Legenda 5 - Quase dono do mundo e vai de cena

 

 A neurose do sucesso existe, como o suicídio por ver o que já foi e agora estão outros no seu lugar. Assim se explica que ninguém queira abandonar o poder, insista na fama perdida, viva o crepúsculo do esquecimento num desespero tão trágico como  ridículo. Vive-se tão infeliz, quando têm quase tudo e quando se aspira a manter o poder, a fama, o êxito de ator que saiu de cena e teima quase sempre em voltar ao palco onde já foi substituído.  Como se pode resumir a um quase uma vida inteira.
    Não se pergunte mais. No quase a viver se morre, no quase morto se vive.
Quase se finda a vida a sonhar. É o quase do amanhã e o hoje quase desprezado, ou esquecido é esse fim que não teve valor e era asa, joia, fina prata já que o ouro não pode ser. Quase que acabo mas por aqui me quedo.