" Irremediáveis ausências"

    ©  Eduardo  [2007]

 

   

 

 

Das coisas perdidas.

-- Sobre uma  visão em   Ponte de Lima.  (Tratamento digital)

©  Levi António Malho  (2007)

 


 

Detenho-me ainda, escuto.

A alegria que morreu e me fala ainda.

Qualquer coisa indizível, se eu te entendesse.

Vergilio Ferreira

 

 

 


a irremediabilidade...

 

 

lavrado na alma, sem fé, realinho no desatino da vida palavras na noite, nua, que me invade sem luz. uma dor imperfeita. deito-me para morrer.

 


traição

 

às vezes esqueço os nomes que não lembro. era essa a força com que me atiraste contra o mundo. era aí que tudo começava. ali, onde o teu sorriso não acabava nunca.

mãe. já não há plenitudes porque sei que te traí.

 


ilusões

 

esta manhã não me trouxe o silêncio e dormi até tarde. já sem sono pintei dois versos onde não me senti. já não te sei falar de mim.

deitei-me ao lado do teu corpo e senti-te entrar por mim adentro até não seres mais que a esperança de perder.

 


o acaso de mim

 

no acaso da noite olhei-me através do muro da infindável certeza de saber que sim. as memórias violam-me o pensamento. vi-me através de um grito anunciado na escuridão. de entre mim e mim não haver sequer a mais frágil das saudades.

 


 

um rosto. triste. só. doente. e ninguém sabe da esperança do teu corpo. decadente. arrogante. o moribundo que se esvai no fumo de um cigarro e desaparece no meio do luto dos equívocos que me socorrem do que já não posso. vives no meio do silêncio de ninguém. e és triste. só. doente. e morres à míngua no meio do banquete. o desentendimento entre mim e mim não me deixa estruturar o delírio. e és o escândalo de estar viva.


lugares incertos

 

queríamos um lugar incerto, onde não houvesse esperança de socorro. umas mãos, ainda puras e o cheiro da imortal camélia no lugar da entrada. era, aí, o espaço onde nos víamos, no segredo imemorável que se perdeu na desgraça de quem nunca foi capaz de certezas.


transparências

  

transportas-me contigo e na subjectividade do instante foges. eu era a incomunicabilidade do momento. não te vi. não te falei. e numa vida até ao fim morri tranquilamente e sem dor.


 quase deuses

 tombava o corpo inerte onde a dor dos dias quebrava a memória degolando um deus impotente e imortal. anunciava-se o fim. o dia feito noite tornava-se deserto de não ser de ninguém. a mim consumiam-me as palavras saídas do silêncio inócuo de um deus tresloucado.

 


 

 na crueldade da minha solidão não te vi. fui horrível. a realidade da minha dissolução. os sinais ausentes no meu corpo. para que tudo se cumpra numa estranha abertura na terra.


 o nosso segredo

 

a dor tomava-te o corpo, inútil, como as horas. onde um fechar dos olhos se tornava o segredo de nunca ter amado um corpo.


 anjos

 

os olhos, meigos, distantes, aturdidos, passavam levemente sobre o desejo. mostravam não ter sofrido. tinham esquecido o que custa, cair.

irreconhecíveis.


 velhos moribundos

 

o poder com que movia os olhos, já doentes, diante da angústia que o medo da ausência lhe trazia.

um corpo moribundo e não havia um sol que lhe cobrisse as sombras. seguia sozinho ou já sem ninguém. não sabia os lugares. não conhecia os regressos. perdia as palavras ao longo dos dias. e desaparecia na imprecisão de quem procura ainda um verão, algo de puro, longe das vozes... longe do silêncio...


pecadores

 

obre o rosto abandonado cai um temporal dos olhos que me roubaram. a tristeza inútil das flores. o abandono com que me atiraste contra silêncios.

agora somos inúteis. e não há palavras que nos matem a fome. e temos de ficar de olhar intenso a rezar para não sofrer.


  a tua dor

 

releio-me na escuridão. o teu corpo vagueia sobre mim. ninguém sabe porquê. e se ao menos a morte te aliviasse a dor.


 incapaz de beleza

 

tudo acabou na lastimável carência de palavras que me profanam o corpo, inútil. inválido dos olhos resta o que ficou: a lembrança de beleza. que não sei... que não vi...


  ...da ausência

 

mãe. precisava outra vez dos teus olhos para voar como os monstros.

 

 

 

encosto as mãos ao teu silêncio e debaixo do mundo olhamo-nos até que a morte nos derrube a solidão.

 


e se te pudesse saber apenas uma vez?

 

o teu corpo é só teu. não posso saber onde acabas para eu poder começar. e se te pudesse saber apenas uma vez? tropeçasse nas tuas mãos que me trazem a certeza de uma inocência. eras medo. eu também era medo.

respiram, à tua volta, os meus desejos. toco a luz que o teu corpo desperta. assim, em silêncio. e se ao menos te pudesse saber apenas uma vez?


 até um dia ou a história da tua dor  

 

habitavas o lugar do sonho. e regressavas sempre à mesma hora. cruzavas as mesmas esquinas. ninguém te conhecia. dentro de ti a dor que às vezes lembravas. não a esquecias. um dia havia de morrer contigo. só assim teria fim.

eras tu que o dizias.

 


faz por ser bom rapaz

                        ao avô Eduardo

 

 

lembro-me do que um dia fomos. tu. eu. homem. menino. pequenino. quase homem. um dia. faz por ser bom rapaz. dizias com ou já sem razão. e respondia o menino

- eu vou. não te preocupes. eu faço. eu cuido-me.

e despedíamo-nos no último abraço. talvez o último. talvez para sempre. talvez até nunca.

na absurdidade do lamento, partia. triste. só. e pensava: eu faço-me, eu cuido-me, eu vou.

e queria ser homem como tu. grande. talvez menino. chorar às vezes. no lamento do mundo tremia. mãos. pernas. braços. todo eu tremia. como um pau de marmeleiro, tremia. era pequenino. triste. só. quase só. procurava o abismo da irremediável existência. queria ser para sempre. homem. pequenino. grande. pequenino. homem. grande.

- sim. não te preocupes. eu sei. eu faço. eu cuido-me. eu vou.


 imperfeições de um deus

 

em silêncio, contemplo a tua imagem. não te vejo. não estás. em silêncio falas-me. não te vejo. não te oiço.

na perfeição que és não passas de possibilidade. tal como eu não passas de sombra. um nome. e no fim não resta senão morrer. e nem sequer disso temos consciência. esse último fechar dos olhos. diante de ti. que nunca os chegaste a abrir.


 

 

o céu era o espaço do silêncio. as nuvens a desgraça única de serem vida. era o anunciar dos deuses no deslumbramento da desgraça da obra. o caos desabitado das ruas sem nome. numa terra sem portas. onde a morte chegava triunfalmente.

 

 

era o fim do tempo e já nada em nós nos pertencia. eu, quase só, tombei a vida sobre o rosto amedrontado das tuas lágrimas. e adormecemos os dois até à morte.

 

 

mãe. este silêncio. sou eu. olhas-me o rosto. mãe. deixo os meus olhos tocarem-te e fujo para onde já não me posso conhecer. mãe. já não há palavras. apenas silêncios.

 

 


 demasiado longe

 

esta noite voltei a casa. no meio do milagre da aparição gritei desvairado a minha desrazão. desgraçado. sem nome. comovo-me perante o desamparo dos braços de minha mãe. e desalmadamente regresso à harmonia que um dia segredamos. um amor. o mais belo. os anos tornaram-nos cúmplices da irremediabilidade de partir. sem dor. sem verdade. sem despedida. e hoje regresso, inútil, ao que um dia fomos. sem glória. e reconheço a voz doce da dor de me abraçares até esqueceres a dor de sermos demasiado perto. tu. eu.


 

hoje não podemos voltar e rasgamos as sombras com as mãos. no meio da escuridão tão perto estivemos de ser vida. tão perto estivemos de ser silêncio.


 às vezes regressamos onde já não existimos. o mundo não se ordena e é escuridão da escuridão. e sinto que perdi a ilusão de nada me ser já desconhecido.