"  A grande burla " 

  • Sobre as vantagens do " Curriculum de excelência"

 

    ©  José Augusto Graça ( 2015 )

 

      

 

"  Dos vastos horizontes"

[ Ruas e ruelas. Zona histórica.  Porto. 2013 ]

  © Levi Malho.

 

 


 

Competentíssimos, graduadíssimos, habilitadíssimos, ainda que não sirvam para nada

 

 

1/ Às vezes, penso no que teria sido a minha vida se, num certo período da mesma, tivesse tido o azar de viver este tempo de insana bandalheira, de vigarice generalizada, de obscenidades continuadas, conduzidas por jagodes metidos a educadores das massas.

 

2/ Certamente, mal concluísse o bacharelato, algum mentor, tutor ou empregador, me repreenderia no sentido de,

---- «Então, e agora não avança para a licenciatura? Ah, e não esqueça, uma licenciatura sem tese de licenciatura, não vale nada!»

… E, concluída a licenciatura e a tese de licenciatura, os mesmos mentores, empregadores e impostores, reincidiriam:

---- «E agora, toca a avançar para o mestrado. Ah, e não esqueça, um mestrado sem tese de mestrado, não vale nada!»

… E, uma vez ‘Mestre’…

--- «Muito bem. E agora, toca a avançar para o doutoramento. Actualmente, sem um doutoramento, não lhe auguro grande futuro!»

… E, uma vez ‘Doutor’…

---- «Hoje em dia, o doutoramento não é mais do que o início. É necessário prosseguir a aquisição de ‘competências’, avançando para pós-graduações, pós-doutoramento, há que avançar, em síntese!»

 

3/ Neste entretanto, eu teria, quê, trinta e muitos, quarenta e tais?

… E então…

---- «De facto, você adquiriu uma série de ‘competências’, diversas ‘mais-valias’, as quais funcionam, ‘em termos-de-mercado-de-trabalho’, não tanto como vantagens, mas antes, pelo contrário… Acresce que já está numa idade em que os empregadores torcem o nariz à contratação de novos ‘colaboradores

E a trapaça prosseguia…

--- «Podia-se, talvez, arranjar qualquer coisa em termos de docência mas, também aí, está tudo tapado. É que esta ligação às empresas e ao ímpeto empreendedorista abriu-nos muito os horizontes. Por exemplo, o trabalho que anteriormente era feito por 12, agora pode ser feito por 1. Os resultados não podiam ser melhores: os custos do trabalho desceram vertiginosamente, e a produtividade subiu em flecha! »

 

4/ E talvez eu, no meu desespero e inocência, balbuciasse:

--- «Mas então para que é que andei este tempo todo em ‘competências’, graduações e pós-graduações?»

--- «Ora, ora, vocês também se choram muito! Já tentou criar o seu ‘próprio- posto-de-trabalho’? Já pensou em libertar-se dessa preguiça e abalar da zona-de-conforto ’ ?

 

5/ Enfim, o que seria de mim, hoje?

  • Teria vivido em casa dos meus pais até aos 50 e tais?

  • E depois? Tentava o ‘rendimento social de inserção ' ? Mas como, se o ‘RSI’ nunca é atribuído porque só serve para “sustentar madraços, manguelas e calaceiros que não querem trabalhar”?   

 

6/ Não sei, não me vejo, não me imagino. Ainda que, por vezes, me pense numa ponte. A questão é … se debaixo dela ou a atirar-me dela.

 

 

[Outubro, 2014]