"Corpo a corpo "

 

    ©  Eduardo - ( Junho/2009)

 

 

«Afigura-se-me que estes seres estão encerrados num invólucro

 de pedra: talvez queiram falar, talvez não possam falar.»

Raul Brandão, Humus 


 
 

 

 


 

 

corpo e palavra

 

o teu corpo vive dentro de um casulo. guardas a dor dos homens. moves-te, esperas uma palavra.

a imperfeição visceral e breve do teu ventre. corre, aí, o sangue a medo. a temporalidade inabalável em que nascemos e morremos.

começa aqui o desvelo deste exercício contido em que encerramos os disfarces.

 

 

 


   

 

 

imagem e desvelo

 

um traço breve. sinal gráfico que sustenta o rosto. murmúrio ou grito que desperta a tua imagem gasta pela luz.

o corpo reflecte indevido o olhar e desdobra o sorriso: língua. alado e tangível.

neste movimento dormente e contido do corpo mostra-se o medo de sermos sulco desvelado da memória.

 

 


 

 

 

mãos e pecado

 

o teu corpo sobre o meu como duas sombras que se intersectam. pontos cardeais que se sobrepõem.

e umas mãos estáticas. as tuas mãos vivas. as mãos transparentes que seguram a negrura das flores que ardem.

os estranhos movimentos das tuas mãos.

e procuramos outro sítio para poder rezar de joelhos, a pedir perdão de nós…

 

…e faço o sinal da cruz.

 

 


 

 

gesto e voz

 

um gesto simples é a aceitação do corpo.

resistes.

é a expedição aos poros sibilinos da ferida imensa onde se diluem os teus gestos.

criam-se dentro de ti casulos com fetos que depois ardem ao sol.

retratos angulares ou uma invenção excessiva da tua voz intraduzida que se escreve, aqui e agora, intacta.

 

 


 

 

 

corpo e nascimento

 

agora temos os olhos fechados. pensas num ponto inexistente para onde possas olhar. temos o corpo indefinido nas palavras.

não se mexem os teus lábios. talvez queiras dizer alguma coisa: a tua memória guarda o som das coisas.

tens o corpo depositado na memória: é a morte que se respira na tua boca.

ainda só estás a nascer outra vez numa dor indestrutível.

 

 


 

 

 

voz e silêncio

 

um pequeno barulho quebra o silêncio. uma luz sobre o corpo deitado na escuridão do quarto. dentro de ti fluem vozes que dizem coisas: não têm rosto.

ouvias: não falavas. o insuficiente silêncio do silêncio.

os teus olhos a olhar os teus olhos: adormecias. sonhavas.

o sonho era um túmulo da lembrança antes de tudo: os nossos corpos velhos.

eu estava ali, ao teu lado, suspenso, e não sentia nada dentro de ti.

 

 


  

 

resistência e expedição

 

o retrato onde se escreve a sombra é a forma implacável da tua solidão. vagueiam fora de ti outras coisas. e por serem vida observas, sem seres vista, os seus movimentos: a carne a latejar de vergonha.

é verão. há calor no teu corpo que transpira sobre outro: é a demora incalculável da minha presença.

depois, o abandono e a interminável distância a que deixamos a infância de sermos humanos.

 

 


 

 

 

labirinto e circularidade

 

o teu corpo deitado e estendido como uma sombra espera o sofrimento de outro corpo.

a espera medonha e indefinida da carne no tocar abrupto dos corpos nus e cansados.

já tinham mudado o medo um do outro e agora fumam um cigarro. regressam à memória de forma circular para que a espera seja mais longa na forma triste da purificação.

 

 


 

 

 

corpo e aprisionamento

 

é o teu corpo vazio que cai na minha direcção.

por ser tarde, viajas sobre o meu nome até te poderes extinguir nos gestos resguardados da tua condição.

és mulher. fêmea. circular. e ocupas sagradamente o espaço da minha ausência.

queres chegar para nos podermos aprisionar nas palavras que a tua voz decide.

 

 


  

 

corpo e labirinto

 

agora deparo-me com o labirinto do trajecto que o teu corpo delineia.

estás despida. quase nua. escondida. excessiva.

insinuas-te: sigo-te.

e por te ver doemos esmagados na cor perfeita do sangue.

 

 


  

 

gestos e palavras

 

cumpre-se o teu regresso a este lugar: é a função cíclica dos nossos corpos. um exercício contínuo e oscilante onde nos julgamos para que se manifeste a pureza das flores que imanam do teu corpo húmido.

renascemos?

 


 

 

deus e invenção

 

hoje posso olhar, atentamente, os teus sonhos. há um silêncio ordenado em tudo o que dizes. nada é perfeito: talvez o sorriso de deus na sua infinita solidão.

não olhas ninguém e por isso esqueces a possibilidade única do reflexo: não acreditas.

talvez deus já não seja deste mundo e te tenha condenado eternamente à morte.

 

 


 

 

corpo e fingimento

 

deitados, olhamos em todas as direcções e raramente sabemos o que vemos: os nossos olhos cegos.

deitados, resistimos e contentamo-nos com o nosso olhar sem inveja.

os nossos corpos sobre um sítio desconhecido onde nos encontramos para fingir.

adormecemos deitados.

tu acordas e desapareces na tua invisibilidade.

 

 


 

 

aprisionamento e fuga

 

a luz cinzenta e vagarosa do quarto toca levemente o teu sorriso. o teu corpo depositado ao lado do meu.

imóvel e delineado. o teu corpo. gélido como um mundo inacabado e defunto. suspenso.

tu e o teu coração que pulsava sem que se ouvisse.

corpo. árido. sem nome. nu. visceral. corrompido. a gotejar gemidos cegos para me devorar, estéril.

 


 

 

corpo e representação

 

devagar o teu corpo ressuscitava.

era manhã. o teu retrato brilhava nos seus movimentos quase humanos. depois havia o teu cheiro quase carnal dentro do quarto.

e dançavas levemente sobre o chão. sozinha. até que tombavas a sorrir.

amaldiçoada.

 


 

 

corpo e respiração

 

caminhas, titubeante, numa posição quase erecta. solitário, moves os membros sem dor. é o teu corpo obtuso que se mostra.

cospes palavras-fogo: quase verdades. culatra humana que se lança, que rodopia sobre si própria porque se sabe. porque se sabe ainda humano.

e anuncias-te numa resposta escrita em forma de desenho-de-palavras: traço simples. insondável. um mundo perfeito e inacabado e sem explicações.

 


 

 

corpo e silêncio

 

o teu corpo é o delineamento da arte do voo. o lugar onde escondemos objectos.

o sagrado do corpo mostra a felicidade espontânea em que guardamos coisas. o teu corpo indefinido onde adormecem os movimentos lúcidos da própria morte.  

e permanecemos, os dois, em silêncio a olhar a nudez de um outro corpo que irrompe no meio dos nossos.

é a alegria que aparece mesmo antes de acontecer.

 

 


  

corpo e música

 

o som do corpo abafava a oração infinita e visível das mãos.

um leve sussurro anunciava o trajecto que teríamos de executar.

ouvia-se uma música ou uma invenção de vozes que contrariava o silêncio.

tínhamos de aguardar o retorno súbito do sangue. assim poderíamos seguir junto ao fluir desdobrado do teu ventre. a medo porque, o corpo resiste ao espanto de si mesmo.

 


 

 corpo e dor

 

a transfusão dos corpos que se assemelham a coisas. movimentos rectilíneos e ondulantes da dança onde se esmagam decapitados.

coisas que dizem ou dizemos para as ouvir. lembranças que lembram objectos que os nossos corpos possuem.

regressamos ao teu corpo, vivo pela carne, que arde por dentro para que não se saiba da tua dor.

 

 


 

 

ventre e cansaço

 

rasga-se o ventre para que se retire a ferros a solidão de um outro corpo. entendes que é o teu próprio porque sabes demasiado sobre a perfeição com que nascem as coisas.

é o deslumbramento da luz e o medo terrível das explicações.

agora passeias sozinha sem a minha presença.

 


 

ventre e agonia

 

jaz defunta a tua virgindade. o teu ventre agonia-se, gasto, sobre mim.

é a matéria que se desfaz no limite do tempo.

agora, condenados, esperamos.

havemos de morrer sem chegar a saber: deus.

 

 


 

leito e repouso

 

o teu corpo orienta a viagem nocturna: examinemo-lo.

um coração bate na urgência do mundo. movimenta-se em espasmos ritmados. está rodeado de outras coisas desconhecidas que se transformam.

é uma foice que nos abre para que tudo se torne transparente. um labirinto de canais irrigados por sangue.

depois, há um espaço em ti que pode ser um lugar: e escondes-me no teu útero para que te possas ausentar.

 


 

 

corpo e resistência

 

de forma cuidada guardamos as mãos. são as cicatrizes do teu ventre rasgado. foi daí que me tiraram a ferros. e tu sofreste.

mãe: agora as palavras não são dolorosas, mas são as memórias que se assumem nas palavras.

hoje disfarças-te de silêncio para que se esqueçam todas as dores do teu corpo.

 

 


 

 

ventre e cansaço

 

há um ventre dentro do sangue e de mim. uma ferida de morte para que os nossos corpos se unam.

à noite plantamos na água pirilampos para que dos seus casulos nasça luz.

depois segredamos coisas numa oração e quase cabemos um dentro do outro. é a condenação por aceitarmos que outro corpo nasça e se deslumbre.

 


 

corpo e resistência

 

denso é o caminho que percorre o sangue nos veios sentidos da matéria.

o corpo resiste e é são por resistir.

na função ávida do batimento do relojoeiro irrompe um outro corpo: é a vida.

um estado febril onde se cumpre a dor do parto.

e o teu corpo resiste e é são por resistir.

 


 

 

gesto e palavra

 

a presença renovada do sangue é o espaço legítimo para que procures as pálpebras e se possa ler a tua lembrança.

mulher bomba que assume a voz de deus e que esmaga os lábios que soltam palavras.

o calor do sol expurga a carne para que se construam coisas na mudez de uma língua já morta.

 


 

corpo e viagem

 

na aflição do teu mutismo medonho homens partem com a tua morte dentro da noite.

a carne veloz seca a expedição por um outro espaço: exercício.

comunicamos de forma humana o tempo.

e num ritmo transparente regressamos para contar o amor intraduzido da tua voz.

 

 


 

 

deus e invenção

 

caem coisas sobre o teu corpo por força dos braços de deus: cavam um silêncio.

são crianças que correm e brincam no teu corpo: são as mãos de deus.

dormes. há luz e alguém se alimenta do teu corpo: inocente.

lábil, procuras um encontro conciliador para que se crie nos veios do teu ventre este último filho de deus.

 


 

 

desvelo e disfarce

 

o teu corpo estendido é quase morto.

medimos a temperatura para atestar o óbito. talvez já não estejas neste mundo: corpo de lázaro.

deixa cair a negrura. corpo alado que denuncia a queda.

é tempo de te levantares: corpo de lázaro.

 

 


  

corpo e palavra

 

a mão está pousada sobre si mesma. persiste no vazio ocupado pelo teu corpo.

taciturna, resguarda-se no lugar do ventre.

constrói-se à volta do seio a lonjura labiríntica que decide a indigência do poema.

lesto, guardo as palavras e deslocamos o corpo para um outro espaço.